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José Guilherme Couto de Oliveirapublicado no Jornal Nexos nº 8 - out/1999O que é ser homem? Ser homem hoje num centro urbano, é o mesmo que é entre os ianomanis ou o que era entre os bandeirantes da época colonial? Não, não é. Porque ser homem não é uma questão apenas biológica, as diferentes masculinidades se constróem conforme a sua cultura.
Uma
expectativa social tão profunda que só percebemos a ponta de seu iceberg,
mas que vai influenciar o que este homem vai poder desenvolver com esta mesma
profundidade.
Por muito tempo, ao homem foi reservado o espaço do prover; à mulher coube o espaço do cuidar.
E
a mulher educou os meninos a desenvolver mais alguns sentimentos e as meninas
outros. A expressão da raiva coube ao masculino por favorecer a agressividade
necessária ao provedor, a expressão da ternura coube ao feminino por
favorecer à nutrição e ao cuidado. Ao masculino coube o fazer, ao feminino
coube o sentir. O menino nem mesmo aprendeu a reconhecer o que sente e poder
falar sobre seus sentimentos. Mas às culturas mudam, e as mulheres entram no mercado de trabalho, a automação progride, o capital internacional se desloca da produção para a especulação financeira gerando uma sociedade sem empregos. O trabalho se especializa tanto que o homem não conhece o que produz. O desemprego e o sub-emprego crescem, e com eles a crise de poder do homem que não consegue mais cumprir o papel que é dele esperado. Sem
ter desenvolvido uma capacidade de expressão emocional, faltam aos homens
palavras para elaborar essa transformação. Sem palavras, sentindo-se ferido,
ele uso o punho como defesa e se torna violento.
Mas qual tem sido o modelo do homem masculino? O machão.
Em
resumo, do homem se espera que ele seja desumano. Violentado na sua
humanidade, o homem se volta violento. Toda
violência é prepotente. Toda prepotência é uma reação a uma impotência
a ser escondida. Quando não há o poder real, no sentido de uma capacidade
para realizar, surge o poder de dominação. Quem realmente pode, não
necessita dominar.
Seu refúgio? A ilusão. Ao invés de produzir realidades passa a consumir imagens. Ao perder as disputas reais, busca um outro espaço onde possa vencê-las. Seus heróis, nos filmes de ação lutam por ele, nas novelas transam por ele, e os robôs produzem por ele carros na fábrica onde ele trabalhava. Ao menos assim ainda se sente inserido na sociedade, e como ela é rica e poderosa por trás das telas e vitrines. Mas ele luta sim, ontem destruiu todos os bandidos no vídeo-game, transa pelo disque-sexo e pela Internet, e algum dia ainda vai comprar aquele carro fantástico quando ganhar na sena. Ao
perder a sua força real, o homem de hoje retoca a sua imagem para não perder
a pose; malha, mas hoje seus músculos não mais constróem, só servem para
ele se exibir. Vive em um espaço tão virtual quanto o H de Homem.
Sua alternativa? Conquistar os espaços da realidade perdida: no lar, na intimidade do seu corpo, na expressão de sua emoção, na integração do seu afeto com sua sexualidade, qualquer que seja sua orientação sexual.
Percebe que foi ele mesmo quem construiu este espaço social de uma frieza que agora o exclui, e que portanto pode alterá-lo. Para
reconquistá-lo só precisa do calor de seu próprio coração. |