Sinopse
A crise
multifacetada que perpassa a humanidade nestes últimos
tempos se estende a praticamente todos os setores de nossa vida
social e pessoal, envolvendo uma singular crise de valores, em
uma situação semelhante a que já atravessamos
na passagem da Idade Média para a Idade Moderna.
Analisamos
esta crise de valores a partir de quatro vieses – a aceleração
do tempo, a pulsação entre individuação e pertencimento, a predominância
da razão sobre as demais aptidões humanas, e a história do valor
na economia. Partindo desses vieses buscamos, tanto no pensamento
reichiano quanto em contribuições contemporâneas de diferentes
áreas do pensamento humano, orientadores que possam oferecer oportunidades
de um crescimento a partir desta crise.
Fazemos
um levantamento dos veios positivos identificáveis nos tempos
recentes como possibilidades de surgimento de novos valores.
Introdução
Vivemos em uma época marcada por um acelerado
ritmo de mudanças. Mudanças essas tão abrangentes que parecem
indicar uma total reorganização da humanidade, não deixando, portanto,
de permear os seus valores. Uma reorganização provavelmente tão
ou mais importante que a sofrida na transição da Idade Média para
a Idade Moderna.
Em muitos casos, talvez ainda seja difícil discernir
com clareza os novos valores, mas certamente os antigos já entraram
em crise. Lançamos mão de alguns analisadores para tentar contribuir
com alguma compreensão do processo no qual estamos inseridos.
A aceleração do tempo
No atual frenesi das mudanças, cada vez mais
aceleradas, parece haver uma vítima comum: a durabilidade. Com a obsolescência espreitando a cada esquina,
muitas vezes até mesmo antes da conclusão do processo produtivo,
surge no consumidor uma ansiedade, uma urgência de satisfação,
que é cada vez mais marcante nas novas gerações, mas que a todos
incita. Há que ser rápido para consumir antes que acabe. Processo
este que transborda das relações com os objetos para os vínculos
humanos e sociais.
Desejos necessitam de intensidade, de um contexto
de carga para serem gestados, de um tempo para se carregarem e
se desdobrarem em fantasias que se realimentam em ciclos nutridos
por um período de acomodação de associações. Esse tempo interno
é, entretanto, cada vez mais escasso em nossa vida, premido pelas
exigências dessa aceleração vertiginosa do tempo externo. Sem
as condições para maturar-se, o desejo tende a minguar e a premência
da satisfação o substitui pelos impulsos. Impulsos estimulados
pelas seduções oferecidas permanentemente por uma economia que
deslocou o seu foco do produtor para o consumidor. E sem o devido
respeito ao tempo interno, o organismo se desorganiza tentando
atender as demandas externas, e passa a funcionar de um modo mais caótico.
Tomando como referencial a curva orgástica, percebemos como Reich, que todas as ações
do ser vivo, concretas e psíquicas, passam por este mesmo ciclo
de: tensão – carga – descarga – relaxamento. Se o ciclo for maduro,
ele não apenas limpa o terreno para o próximo ciclo, através de
uma descarga que se completa até o nível basal, mas também exercita
o organismo possibilitando-o a suportar cargas maiores quando
for necessário ou desejável.
O potencial orgonótico (ou capacidade
orgonótica) de um organismo é a sua capacidade de carga do
nível basal ao nível máximo de carga suportável com segurança.
Acrescento com segurança justamente porque nas situações
de trauma a carga ultrapassa esse nível máximo e fica contida,
rompendo a dinâmica pulsativa saudável.
A intensidade da descarga está relacionada tanto
ao prazer quanto ao medo, conforme a segurança do organismo em
garantir que esta descarga não será destrutiva; pois a descarga pode trazer tanto o prazer
do tobogã quanto o terror da queda de grande altura. Se em segurança, o organismo se entrega à
descarga agradável, com prazer proporcional à intensidade da carga.
Entretanto, o medo de um descontrole pode restringir a descarga,
reduzindo-a a um mínimo manejável e deixando o organismo em um
estado hiperexcitado, como ocorre nas situações traumáticas.
O medo, além de impedir a descarga na hiperexcitação,
produz um segundo mecanismo, o da evitação, que interrompe a acumulação
da carga disparando uma descarga prematura. É esse o mecanismo
que opera no impulso, reduzindo o potencial orgonótico e conseqüentemente
a própria sensação de vitalidade do organismo.
Tanto a impulsividade quanto a obsolescência,
ao permearem as relações humanas, fragilizam os vínculos e instituem
uma espécie de terror ao compromisso. Para a vida pós-moderna
fluida e veloz, cada compromisso implica em uma inércia, uma resistência
à aceleração, que o coloca na contra-mão da dinâmica dominante. Entretanto, a nossa segurança depende de uma
boa rede social, cujas características estruturais são oriundas
dos vínculos constituídos. A predominância de vínculos efêmeros torna
os indivíduos mais vulneráveis, diminuindo a sua segurança e a
sua capacidade orgonótica.
Individuação e pertencimento
Em um trabalho anterior, parti dos conceitos sobre movimento e pulsação
de Reich, de diversas referências filosóficas sobre o todo e a
individuação, e da interpretação ontológica da física quântica
de David Bohm para chegar a uma dinâmica básica do universo, compreendendo uma pulsação entre os processos
de individuação e pertencimento.
É uma dinâmica que parte de um estado fusional
e por movimentos de discriminação vai constituir uma identidade,
que acumula experiências no seu período de existência e volta
a se reintegrar ao todo, que por sua vez ganha em complexidade
com as experiências acumuladas por seus membros. É uma renovação
do todo pela reintegração (pertencimento) da experiência gerada
pela individuação (discriminação).
Pela segunda lei da termodinâmica, o universo,
como um sistema fechado, tem uma tendência entrópica que o levaria
a uma homogeneização. Em contraposição, é a sua tendência complementar,
evolutiva, neguentrópica, que possibilitou o surgimento de tanta
diversidade a partir de um estado inicial de maior homogeneidade. Essa pulsação entre discriminação e integração,
entre individuação e pertencimento, é evolutiva e complexificante
e, portanto, constituinte da tendência neguentrópica.
Ao analisarmos as relações entre individuação
e pertencimento na sociedade pós-moderna, percebemos que o culto
ao individualismo tende a criar uma ambigüidade entre culto do
novo e o culto da moda, que se reflete em ilusões de escolhas
do novo que são, na verdade, subjugadas pelo que a moda determina. O individualismo é a morte da cidadania; se no cidadão a individualidade se conecta
ativamente a um pertencimento, no individualista o pertencimento
se dá de forma passiva e manipulada pelo mercado. A legitimidade
do pertencimento é inversamente proporcional ao terror do compromisso.
O cidadão consome, mas o indivíduo tende a ser consumido.
Se antes a ciência visava conhecer a Natureza,
hoje tende a duvidar dela. Muito do que era considerado natural
atualmente é considerado cultural, e essa moda tende a obscurecer
o natural sob a alegação de que ele pode assumir diferentes formas
conforme a cultura na qual se insere. A perda do referencial do
Todo, do pertencimento, a partir da exacerbação do pensamento
analítico cartesiano, dificulta a percepção do que é comum nas
diferentes formas culturais como uma expressão de uma mesma característica
natural.
Exemplo: um problema estrutural da
humanidade
Uma questão natural, ainda que uma multiplicidade
de manifestações culturais venha a lidar com ela em suas particularidades,
é o problema do extenso período de dependência da cria humana.
Não só os bebês são incapazes de sobreviver sem assistência, mas esse período de dependência foi estendido
com a protelação genética da procriação da fase edípica para a
adolescência. Some-se a isso os atributos estritamente culturais,
como por exemplo um mercado de trabalho saturado que cada vez
mais prolonga esse período de dependência, tanto pelo desemprego
quanto pela necessidade de uma alta qualificação.
Reich já falava da importância dos cuidados com
a infância para a aquisição de uma personalidade capaz de viver
em harmonia social e ambiental. Winnicott vem enfatizar como isso é crítico
nos primeiros seis meses de vida, onde a presença constante de
uma figura de mãe é vista como crucial. A qualidade de vida das gerações futuras depende
de como essa questão da dependência é tratada no presente. Durante
milhares de anos, as diferentes culturas deram uma resposta patriarcal
para esse problema, uma resposta que, se garantiu a sobrevivência
da espécie, o fez a base de um sadismo (pois a dominação é sádica) que hoje é a maior ameaça a essa própria sobrevivência.
Na resposta patriarcal, os cuidados com a prole
ficavam a cargo da mulher, enquanto que os custos envolvidos eram
arcados pelo homem e, eventualmente, uma parcela pela sociedade.
Na pós-modernidade, a mulher se desloca do espaço privado para
o espaço público entrando no mercado de trabalho, o que trouxe
uma multiplicidade de soluções para a questão do cuidado infantil
(e principalmente dos bebês) que hoje em muito depende dos recursos
da família.
O cuidado de parentes (avós, tias, irmãos maiores,
vizinhos), babás, creches, o abandono (em casa ou na rua) e o
trabalho, criminalidade ou mendicância infantis, estes às vezes
tão precoces que precedem a fase edípica, têm sido soluções locais
adotadas, mas a humanidade ainda não tem uma resposta sistêmica
para esta questão estrutural. Se para a dependência dos idosos
foram desenvolvidas soluções como a previdência social ou privada,
a questão da dependência do bebê ainda não encontrou dispositivos
além de uma licença maternidade insuficiente, tanto na sua duração
quanto na sua abrangência. Mesmo para as crianças em fase escolar,
a escola em geral está muito mais voltada para a preparação de
uma mão de obra competitiva do que para propiciar um desenvolvimento
psico-afetivo saudável capaz de resolver conflitos de formas menos
sádicas (social e ambientalmente). A falta de cuidados adequados
gera um importante círculo vicioso, na medida em que bebês mal
cuidados tendem a se tornar adultos maus cuidadores, incapazes
de encontrar soluções viáveis para a própria prole ou mesmo para
si, quanto mais para essa questão estrutural da espécie.
Se partirmos do princípio que os valores básicos
individuais se formam concomitantemente com a personalidade, não
podemos ignorar a importância desta questão para a atual crise
de valores pós-moderna. O seu não equacionamento de forma sistêmica
nos meios acadêmicos e políticos é um fator impeditivo de um comprometimento
de esforços em busca de soluções mais viáveis. O modelo pós-moderno
de comprometimento mínimo levou os poderes públicos a desinvestirem
em educação e saúde, deixando as soluções a cargo da iniciativa
privada, ao alcance de uns poucos e geralmente com uma visão limitada;
ou a cargo de uma “economia moral” – uma economia fora do mercado que perpassa
as relações de solidariedade humana – geralmente com recursos
insuficientes para um desfecho satisfatório.
Quando a estrutura patriarcal começa a apresentar
fissuras, permitindo a inclusão da mulher no espaço público e
do homem no espaço privado, essa questão da dependência da prole
fundada numa natureza humana clama por novas soluções a serem
propiciadas culturalmente:
- Quem
deverá cuidar do desenvolvimento infantil e do adolescente,
desde as necessidades afetivas do bebê até a sua formação enquanto
uma mão de obra capaz de contribuir para a sustentabilidade
da sociedade, de uma forma menos sádica que a atual?
- Quem
deverá arcar com os custos desse cuidado?
A crise da razão pura
Se foi sobre a razão que a ciência moderna se
erigiu, em contraposição à fé que dominava na Idade Média, esta
própria ciência inicialmente erigiu uma certeza tão religiosa
que não se sustentou face à própria lógica da razão. Essa certeza
gerou uma tecnologia que permeia a sociedade determinando as características
das nossas redes sociais e dos nossos vínculos, tecnologia essa
um tanto cega para as dúvidas da razão que a erigiu.
Já no século XVII, Berkeley concluía que não
há nenhum meio justificável de distinguir objetos de impressões
sensoriais. Se a ciência pretende compreender o mundo, mas não
tem como realmente percebê-lo, ela se vê emaranhada em uma contradição
ontológica.
Kant tentou conciliar a reivindicação da Ciência
ao conhecimento seguro e legítimo do mundo, com a alegação da
Filosofia de que a experiência jamais permitiria tal conhecimento.
Ele concluiu que o Homem conhece a realidade objetiva exatamente
até onde esta se adapta às estruturas fundamentais da mente. O
tempo, o espaço, a substância e a causalidade seriam formas axiomáticas
da sensibilidade humana que condicionam qualquer coisa aprendida
pelos sentidos.
Com o advento da Teoria da Relatividade e da
Mecânica Quântica, as formas axiomáticas kantianas entram em colapso,
e a realidade talvez não esteja estruturada de alguma forma que
a mente humana possa discernir objetivamente. O próprio mundo retorna para os limites além
da nossa possibilidade de cognição, a ponto de Popper concluir
que a ciência jamais poderá produzir um conhecimento seguro, nem
ao menos provável.
Por outro lado, a tecnologia gerada pela ciência,
traz à humanidade a possibilidade não só da autodestruição, mas
da destruição de todo o ecossistema planetário. Com a bomba de
Hiroshima, a ciência perde de vez a sua neutralidade moral que,
aliada à sua verdade absoluta a tornava inquestionável.
Assistimos a uma aceleração gradativa da razão
usada para desconstruir, em contraponto com a razão usada para
construir. Como Penélope, mais recentemente a razão vai desfazendo
à noite o que ela tece de dia. Um processo que, desde Copérnico,
vem solapando as maiores certezas humanas.
Se a desconstrução é útil e necessária para limpar
o terreno para novas crenças, derrubando preconceitos e possibilitando
a alteridade, por outro lado corremos o risco da perda de um referencial
que sustente o comportamento social humano. Se nada vale, tudo
pode valer.
A desintegração do que é sólido é uma típica
característica pós-moderna. Tudo se esfacela numa incrível velocidade,
e ao se desintegrar perde a conexão com aquilo ao qual pertencia.
Por outro lado, tudo se articula em redes cada vez mais voláteis,
e o pertencimento vai se tornando mais virtual e menos orgânico.
A virtualidade desse pertencimento pode estar
integrando uma dinâmica onde a importância da sociedade globalizada
passa a sobrepujar à dos seres humanos que a compõem, como ocorre
entre formigueiros e formigas.
Os formigueiros são estruturas estratificadas
complexas, onde cada estrato se constrói a partir da regra básica
do seu componente elementar e da história de acasos que o permeia.
Essas estruturas em múltiplos níveis de organização desenvolvem
uma memória e uma linguagem simbólica própria. Formigueiros distintos
reagem cada qual de sua própria maneira na presença de um estímulo
externo, eles têm personalidade própria, cada qual dispondo de
suas formigas na interação com seu ambiente de formas particulares.
Essa passagem para um comportamento próprio do
sistema maior geralmente tem um limiar de ocorrência quando o
sistema atinge a magnitude de 1010 (10 bilhões) de
membros. Essa é mesma magnitude da atual população da humanidade,
que por sua vez possui também uma estrutura social estratificada
complexa. Resta saber se a humanidade está atingindo o limiar
de uma personalização, e o quanto isto se reflete nas atuais mudanças
dos vínculos humanos. Se os seres humanos forem como células do
corpo da humanidade, que contato terá ela desenvolvido com este
seu corpo e que cuidados terá conosco?
A medida do valor
A medida do valor não é uma questão específica
da crise atual, mas certamente é uma questão de fundo, muito mais
remota, que influencia as possíveis soluções a serem encontradas.
O problema que se coloca é como medir o valor?
O valor de mercado, que precede a própria introdução da moeda
como valor de troca, não é uma medida da necessidade humana, mas uma medida que depende não só dessa necessidade
(demanda), mas também da oferta (e indiretamente do custo de sua
produção).
A sociedade moderna, voltada para a produção,
desenvolveu gradualmente uma construção mercadológica de necessidades
humanas que absorvessem os seus produtos – os prenúncios de uma
sociedade de consumo - tornando ainda mais complexa a questão
da aferição dessas necessidades, que se tornaram mais culturais
que biológicas.
A produção industrial moderna trazia como retorno,
não apenas o lucro para o capital, mas também os bens produzidos
para a sociedade e a remuneração da força de trabalho. A questão
do descomprometimento pós-moderno propicia uma transformação no
capital, que se torna mais independente tanto do trabalho quanto
do meio ambiente. Ele fica volátil, desengajado, perito na arte
da fuga, invisível e extraterritorial. O capital produtivo em grande parte migra
para um capital especulativo e o que ainda é investido na produção repassa
os seus custos para a sociedade. Os lucros são globais, mas os custos – humanos,
sociais e ambientais - são locais. A miséria humana é um dejeto desta dinâmica
que retira as condições de acesso ao bem comum dos mais pobres
para produzir a riqueza glamourizada.
Deixando de propiciar um retorno social, tanto
em termos de uma remuneração do trabalho quanto em termos de bens
produzidos, e repassando os seus custos, o capital especulativo
deixa de servir ao homem, que por sua vez passa a servir cada
vez mais ao capital.
A moeda, a nossa medida de valor, se refere apenas
a um valor de mercado determinado pelo capital. Precisamos desenvolver
outras ferramentas para as medidas de valor humano, social e ambiental
que possam ser balizadores na solução de uma crise de valores.
É verdade que hoje já existem indicadores sociais e ambientais
que de uma forma ou outra começam a aferir a nossa qualidade de
vida, e que estes indicadores estão ganhando peso político e começando
a determinar estratégias de realocação do trabalho humano. Entretanto,
a própria estrutura política que toma essas decisões ainda está
apoiada grandemente em democracias mais representativas que participativas,
extremamente atreladas a uma economia de mercado que determina
não só os eleitos como suas principais decisões. Some-se a isso
que a economia que permeia os vínculos humanos solidários ainda
não é valorada e formalmente “econômica”.
Veios positivos no horizonte
Vivemos numa época permeada pela ambigüidade
entre um furor tecnológico e uma dilaceração filosófica, social
e humana, que em muito lembra as bromélias, que subitamente colapsam
logo após uma esplendorosa floração, mas que simultaneamente lançam
brotos que asseguram a sua continuidade.
Se nossa sociedade está vivendo um processo onde
a degeneração convive com o vistoso, creio que cabe procurar os
brotos regenerativos que daí advém, até mesmo para não os deixarmos
definhar. Parece que, em oposição às numerosas dinâmicas desintegradoras
que apontamos, é possível discernir, iniciando-se com o Romantismo
e desdobrando-se em novos matizes, uma multiplicidade de processos
que apontam na direção de uma maior integração em diferentes níveis:
- Das
nossas distintas capacidades em uma auto-eco-regulação;
- Da
inclusão do feminino;
- Do
respeito à diversidade e sua conseqüente integração ao todo;
- De
uma resolução da dicotomia natureza-cultura;
1. Integração das nossas distintas capacidades
Se a passagem da Idade Média à Idade Moderna
substituiu a predominância da fé pela da razão, parece que no
atual momento os movimentos que apontam para uma nova construção
envolvem a busca de uma prazerosa harmonia das nossas diferentes
capacidades mentais, no conceito batesoniano de mente - que comporta não só o psíquico, mas todas
as suas relações – corporais, sociais e ambientais; envolvendo
portanto, razão, inteligência, sensação, emoção, imaginação, intuição,
espiritualidade, vitalidade, ação, sexualidade e relações ambientais
(sociais e com a natureza). Em suma, uma integração do próprio
fluxo energético de cada pessoa não apenas em uma dinâmica auto-regulatória,
mas, considerando que somos sistemas abertos, em dinâmicas auto-eco-regulatórias envolvendo todo o nosso meio.
2. A inclusão do feminino
A quebra da reclusão da mulher ao espaço privado
a partir da sua penetração no mercado de trabalho foi-se multiplicando
em diferentes formas de participação no espaço público, possibilitando
uma crítica ao modelo patriarcal bem como a descoberta de novas
formas possíveis de estar no mundo. Formas às quais o feminino
nos apresentou como alternativas ao quadro dominante de sadismo,
resultante de milênios de patriarcado.
3. O respeito à diversidade e a sua integração no todo
As múltiplas desconstruções pelas quais estamos
passando com a perda das distintas formas do absoluto e sua relativização
em inúmeras esferas, possibilitou uma reconfiguração do nosso
caminhar que não mais toma a direção de uma única verdade possível,
calcada numa simplificação idealizada do mundo, mas se multiplica
em um leque de destinos trilháveis que se reencontram e voltam
a se dividir mais adiante formando uma trama. É uma conjuminação
de simplicidades norteantes em uma diversidade de formas de estar
no mundo e de percebê-lo, constituintes de um mundo complexo.
Cada individuação traça novos caminhos, gera novas riquezas que
são incorporadas ao todo, que a cada nova complexificação, possibilita
novas originalidades individualizantes. A estrada deixa de ser
linear e se torna uma rede viária.
4. A resolução da dicotomia Natureza-Cultura
Ainda que sem acesso a uma percepção fiel do
mundo tal como ele é, não deixamos de interagir com ele de nossas
formas particulares, e principalmente, não deixamos de fazer parte
dele. Como participantes, temos acesso à sensação de pertencimento,
de retomada das raízes que nos originaram. A integração natureza-cultura
é tão possível em culturas que não se de-generam – que ao se individuarem
não perdem o contato com suas origens naturais, mas que participam
de um todo dialogicamente – como na integração das raízes e folhas
de uma árvore em um único ente. Como as culturas, a própria Natureza
vai se recriando e se complexificando em seus desdobramentos evolutivos.
Podemos dizer que “A Natureza é a cultura do Universo” .
Questões que se originam na Natureza podem ter
uma multiplicidade de manifestações culturais. Essa multiplicidade
é constituinte dessa pulsação básica; mas ainda assim a recuperação
da questão natural original (ainda que inacessível em sua plenitude)
como um norteador integrativo é o que retoma a pulsação e sustenta
em médio prazo o movimento cultural como generativo e não degenerativo.
O termo degenerado para a nossa cultura pós-moderna em sua dinâmica
me parece bastante apropriado, tanto por ela ultrapassar pontos
de bifurcação na sustentabilidade ambiental quanto por produzir
uma crescente multidão de excluídos – o lixo humano citado
por Bauman (2001) – mais do que por qualquer fundamentação moral.
Essa segregação do lixo humano não é apenas uma exclusão do social,
mas também do ambiental (só não exclui os excluídos do lixo ambiental).
É um sintoma de uma individuação extrema que perde a sua trama
vinculante, rompendo sua pulsação de diferenciação/reintegração
em sua continuidade evolutiva.
É importante pontuar que mesmo os movimentos
degenerativos pertencem a essa dinâmica pulsional básica, eles
apenas o fazem em ciclos mais longos, mais conflituosos e acirrados,
onde a reintegração se dá mais por uma descontinuidade, na transcendência
de uma desintegração, do que por um contínuo evolucionário.
É este tipo de ciclo que abrange o descontínuo,
o que permeia a morte do indivíduo e permite a renovação da espécie; e o que permeia a extinção da espécie permitindo
a renovação da família ou do ramo. Tudo parece indicar que estamos
em um desses momentos de decadência/transcendência, o que ainda
não sabemos é o tamanho do preço a pagar – se o de uma revolução
cultural, se o da extinção da espécie ou se o de um cataclismo
no ecossistema terrestre do qual poucas espécies, se alguma, sobreviveriam.
É justamente essa indeterminação que valida a importância de nossas
escolhas.
Conclusão
Após utilizarmos alguns analisadores para melhor
compreender a crise de valores que atravessamos, percebemos que
ela se insere em uma crise muito mais ampla, permeando todas as
esferas do funcionamento humano. Prenuncia uma transformação radical,
transcendente, da forma do ser humano estar no mundo.
Simultaneamente pudemos discernir alguns prenúncios
de uma nova organização humana possível, e o que parece comum
entre eles é a recuperação da crença e da possibilidade da satisfação
humana através de uma dinâmica de reintegração. Dentro de uma
pulsação fundante: fusão – discriminação – individuação – reintegração,
beiramos o extremo degenerativo da individuação e o movimento
necessário neste momento é o de reintegrar, o da busca da inclusão
e do pertencimento.
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