
Em minha apresentação das dimensões fundamentais da Biossíntese utilizarei esta metáfora da árvore como uma estrutura integradora para entendermos o relacionamento entre as diferentes partes do trabalho que temos em comum.
Na Biossíntese as três raízes correspondem ao que chamei de as três correntes da vida. Eu acredito que todos na Biossíntese estão familiarizados com este conceito fundamental da embriologia funcional: os três tubos de nossa formação somática, formando tecidos internos, externos e intermediários. As três correntes de afeto que associamos são: a corrente de sentimento, associada ao estar bem alimentado física e psicologicamente, a corrente de sentimento associada com movimentos livres e graciosos e a corrente de afeto, associada com o contato agradável com a pele e com os órgãos dos sentidos. Todas as três correntes de afetos podem, é claro, ser carregadas negativamente, que é o fundamento somático da neurose: as contrações e estresses dentro e entre os sistemas orgânicos, quando a integração entre as três correntes interrompe-se e torna-se disfuncional.
As três correntes estão sedimentadas em nossa morfologia e fisiologia e expressas em nosso metabolismo energético. No âmbito psicológico elas passam a ser as três grandes áreas de preocupação: o que está acontecendo no sistema emocional, o que está acontecendo em nosso padrão de comportamento, postura e ação e o que está acontecendo no como sentimos e fazemos sentido no mundo. Chamamos isto de o ABC da Biossíntese: afeto, comportamento, cognição.
As raízes da árvore sugam alimentação,
a qual viaja em condutos através dela, alimentando todo o organismo
nos vários níveis verticais do ser. Do mesmo modo, as três
correntes da vida estão associadas com níveis ressonantes
de informação em todos os níveis de nosso ser. Podemos
distinguir três formas de linguagem: a linguagem que descreve eventos
- o que aconteceu, a linguagem descrevendo sentimentos e a linguagem que
descreve crenças e atitudes. Este é o princípio de
corrente vital aplicado à linguagem. Nas tradições
espirituais encontramos um ensinamento básico da natureza tríplice
do homem. Isto relaciona-se com os ensinamentos da trindade no cristianismo
o que, indo mais atrás no tempo, nos leva ao mito egípcio
de Osíris, Horus e Isis. Osíris, o deus moribundo, era simbolizado
no corpo pela coluna vertebral, o eixo do movimento. Seu símbolo
era uma árvore. Nós lembramos que Jesus foi crucificado em
uma árvore, mas a mesma árvore tornou-se um símbolo
para a ressurreição, assim como foi feito anteriormente para
Osíris. Ísis, sua companheira, era simbolizada por ondas
e por asas, ligadas à respiração e aos pulmões.
Horus, o filho do casal, era simbolizado por um olho, o olho da claridade.
Quando a claridade era obscurecida, falava-se da máscara de Horus,
a face falsa escondendo o eu verdadeiro. Na tradição budista,
lembramos que Buda recebeu a iluminação sob uma árvore.
Os tibetanos nos trouxeram o conceito de três condutores, canais
de inspiração os quais podem ser vistos como o nível
mais elevado de expressão das três correntes vitais: a compaixão
- o sentimento pelo outro, a ação com compaixão –
o tratar bem o outro, e a sabedoria – a visão de si mesmo, dos outros
e do mundo.
Na Biossíntese falamos em níveis de
expressão associados aos segmentos
verticais da espinha como "campos vitais". Sexualidade
é um campo vital. Linguagem é um campo vital.
O cliente que vem a nós para terapia apresenta
seu problema em um ou mais destes campos. Os campos vitais nos fornecem
diferentes maneiras de acessar o problema dele: podemos escolher trabalhar
com o campo vital do movimento (o assim chamado campo motor) ou com o campo
vital do sistema de crenças, ou ainda com as complicações
da transferência. O trabalho terapêutico procura movimentar-se
para cima e para baixo entre os campos vitais, ajudando a pessoa a obter
mais integração consigo mesma, ajudando a comunicação
interna e a transferência de informação como uma base
para resolução de problemas, tensões, e os nós
dos relacionamentos pessoais. Os campos vitais correspondem aos pontos
do que chamamos de hexagrama da Biossíntese, que são diferentes
rotas de acesso terapêutico. Por exemplo: trabalhar com sonhos para
alcançar a respiração; ou trabalhar através
de esclarecimento emocional para liberar um sentimento de espiritualidade.
O ser humano também não se mantém sozinho. Ele tem linhas vitais de relacionamento estendendo-se antes dele no tempo, através de seus pais e avós. Vinte gerações de influências e estamos de volta à Idade Média. O número de pessoas neste espaço de tempo, se cada uma delas representasse uma geração, nos levaria à época antes da construção das pirâmides no Egito, ao começo da civilização e da cultura. Nós temos linhas de vida estendendo-se depois de nós: nossos filhos e netos; não apenas aqueles que geramos fisicamente, mas aqueles que geramos profissionalmente. As linhagens de movimentos terapêuticos, de transmissão cultural.
Temos ainda as linhas de vida com nossos contemporâneos, relacionamentos sexuais com parceiros, a totalidade do imenso processo de formar um co-território com outro ser humano, o compromisso entre autonomia e dependência, separação e união.
Uma antiga aluna e colega minha da Inglaterra descreveu um belo modelo do relacionamento terapêutico com cinco aspectos chave, cada um dos quais tem duas distorções polares: eu posso entrar detalhadamente no modelo, mas vou citar apenas os cinco tipos de relacionamento descritos por ela, sendo que todos eles são importantes na terapia e também nas relações humanas normais. Em primeiro lugar ela descreve a aliança de trabalho, a estrutura contratual na terapia. Os contratos podem ser por escritos ou verbais, mas eles são acordos nos quais a responsabilidade é exercitada. Acordos rompidos são feridas na estrutura. Ela é um container para os outros quatro tipos de relacionamento. Em segundo lugar está a nossa velha amiga, a transferência. O que é transferido são atitudes antigas, sentimentos e expectativas do passado para o presente. É uma forma de condicionamento que limita oportunidades no presente. O trabalho com a transferência é o trabalho de tornar consciente o condicionamento e ajudar a pessoa a mover-se para além dele. Mas nem todos os relacionamentos são de transferência. Em terceiro lugar, é o que minha colega chama de relacionamento verdadeiro. É a igualdade humana de duas pessoas além de seus papéis. Existe espaço para uma raiva verdadeira do terapeuta para com o cliente e vice-versa, a qual não deve ser condicionada pela infância. Existe espaço para um sentimento real de perda quando um cliente se vai após cinco anos de terapia. Precisamos ser cuidadosos para não interpretar cada sentimento real como um efeito reduzido de uma causa infantil. Em quarto lugar existe o desenvolvimento do relacionamento - que é um fator chave na Biossíntese, o qual trabalha com padrões de crescimento do desenvolvimento. Este relacionamento ajuda o outro a desenvolver novas habilidades. Ela é construtora de futuro e não revolvedora do passado. E finalmente há o nível espiritual em um relacionamento, o encontro entre dois seres humanos como um encontro e oportunidade únicos, que nunca aconteceu antes desta maneira e nunca vai ocorrer exatamente da mesma maneira. O mistério e a mágica da presença, a percepção sagrada de uma base mais profunda que mantém um relacionamento capaz de contatá-la.
O ser humano, nesta vida, encarna em uma célula fertilizada, que duplica-se e duplica-se, aproximadamente 32 vezes até que existam milhares e milhões de células. O homem emerge da vida pré-natal através do canal do nascimento para uma existência pós-natal: tudo o que aconteceu desde o nascimento até Terça-feira, 21 de abril de 1998. Mas nós temos fantasias, sonhos, esperanças e planos para o que vem pela frente: estamos construindo o que Stanley Keleman chama de o longo corpo do tempo, desenvolvendo-se em direção a algum ponto futuro, levado consciente ou cegamente. Este é o nosso período pré-mortal: tudo o que permanece esperando por nós nesta vida. Finalmente, há o segmento pós-mortal da experiência, o qual acessamos em sonhos, em visões arquetípicas, nas assim chamadas memórias de vidas passadas ou relatos de reencarnação. Nossas imagens sobre a morte e o que pode haver além dela.
A história e a história que virá, a qual chamamos de futuro, é misturada com imagens, influências das percepções dos outros. A memória é uma mistura de fatos e ficção, a experiência significa o que vivemos, é uma mistura do objetivo, subjetivo e do subentendido. Isto é o que chamo de fugas de vida, as estórias que contamos a nós mesmos sobre de onde viemos e para onde estamos indo, nossos sonhos, visões do passado, visões do futuro, o tapete de nossas vidas que estamos tecendo, o espetáculo de nossa corporificação.
Trabalhando com a memória, no meio do debate da falsa memória, com sua polarização entre fato e ficção, estamos tentando provocar os significados da experiência e ajudar um cliente a reestruturar estes significados de maneira que ele se torne um agente consciente em seu próprio teatro, e não apenas uma vítima de outras pessoas, ou uma vítima de forças ocultas que o atiraram na existência. Fugas de vida significam as formas da história de vida de uma pessoa, incluindo seus sonhos, suas pinturas, seus poemas e suas canções de triunfo e desespero. Esta é a região onde poesia e terapia, música e terapia, teatro e terapia, o sobrepor e o atravessar fertilizam um ao outro.
Na psicoterapia temos o conceito de estrutura e deficiências da estrutura.
Quando há muito pouca estrutura em uma pessoa temos uma falta de coerência, uma tendência a desintegrar. A estrutura está faltando. A forma extrema disto é um estado psicótico, repleto de incoerência. Energias intensas estão sendo movidas ou congeladas, mas a pessoa não é capaz de estruturá-las ou de integrar as dores em sua vida. Um estado limítrofe é um estado sem limites. Uma pessoa sem limites sente como se não tivesse pele: ela é como uma árvore cuja casca foi arrancada, super vulnerável, tornando-se facilmente doente emocionalmente. A Psicoterapia trata apenas com níveis de estrutura até a assim chamada pessoa normal, que tem uma estrutura normal, o que Reich chamou de Homo normalis. É nisto que se resume a psicoterapia, uma tecnologia para nos tornarmos normais? Esperamos que não, e temos termos como "individuação" que significa tornar-se individido. Quando Alexander Lowen quis encontrar uma metáfora para as rupturas no ser humano, ele pegou um toco de árvore e partiu-o ao meio com um machado. Individuação é a cura das rupturas, unindo os vazios em nossa integração, tornando-nos mais inteiros. A árvore do homem na Cabala, com suas modalidades mais alta e mais baixa, para a esquerda e para a direita, é um símbolo da totalidade do homem. Na Biossíntese trabalhamos muito com o conceito de polaridades, os extremos de fixações em um pólo ou no outro e na pulsação entre eles. Existem níveis mais altos de estrutura do que ser normal, mas eles não são estruturas brutas, feitos de massa ou conceitos do ego, são estruturas finas no sutil sistema energético. A meditação é um modo de sintonia fina e desta maneira, de reestruturar o campo energético. Assim, a forma de vida relaciona-se aos diferentes estágios de coerência os quais a pessoa atravessa no desenvolver de sua vida e é relacionada a este crescimento pessoal e espiritual e não ao seu envelhecimento no eixo do tempo.
Quando trabalhamos com formas de vida, estamos preocupados em ajudar uma pessoa a progredir em sua vida, a desenvolver o seu caminho, a tornar-se mais sensível a novas possibilidades e direções e menos satisfeito com níveis de adaptação ou acomodação anteriores.
Na Biossíntese estamos preocupados com muitas
formas de bases. A primeira
destas é, claro, a base física, nossa
estabilidade sobre a terra, nosso senso de estar enraizado no planeta ou
não. Mas a base física é apenas o primeiro tipo de
embasamento. Existe o embasamento sexual com o corpo do outro. Existe o
embasamento da natureza e associações com um lugar em particular.
Existe a base humana de uma família ou uma comunidade. Existe a
base conceitual do sistema de linguagem ou uma estrutura de crenças.
E existe a base interna da fé no sentido da vida de uma pessoa.
Estas várias bases, atuais, lembradas ou imaginadas,
são parte dos recursos de
uma pessoa, elas são fontes de força
para apoiá-lo em crises, são fontes de cura para alimentá-lo
em períodos de estresse. Na neurose nós lembramos dos traumas
e esquecemos das bases vitais. O aspecto mais importante de trabalhar com
trauma é o de reanimar as bases vitais. Uma mulher privada de seu
pai com um ano de idade, lembra do conforto palpável e do apoio
de sua mão no primeiro ano de sua vida. Uma mulher criando uma fantasia
orientada dentro do buraco vulcânico de seu coração
descobre no fundo do buraco uma garrafa contendo a mensagem: no fundo de
todo buraco negro existe leite e mel. Um homem tem um sonho no qual seu
falecido pai pede perdão pelos castigos infligidos na infância.
Uma mulher morrendo de câncer coloca um ninho de passarinho em sua
mesa. Uma pessoa que sofreu abuso traumático relembra e redescobre,
imaginariamente, um cachorro que pode ajudá-la a fugir para um lugar
seguro onde ela pode, pela primeira vez, sentir-se segura.
O exemplo mais tocante vem não de uma sessão terapêutica, mas de um recorte de jornal da Segunda Guerra Mundial. Uma menina de dez anos de idade, aprisionada em Auschwitz, manteve um diário que foi descoberto após sua morte durante o holocausto, onde ela havia escrito o seguinte: "todos os dias eu olho através do arame-farpado e vejo uma árvore. Esta árvore me ajuda a lembrar da beleza e do poder da vida".
A psicoterapia moderna tende a desacreditar
e temer a espiritualidade como sendo algo esotérico, um ritual religioso.
Mas eu mostrei em um artigo recente que todas as formas de psicoterapia
inspiraram-se de início em recursos espirituais, assim como em seus
conceitos psicoterapêuticos psicodinâmicos, comportamentais
ou corporais. Na Biossíntese é dado um lugar central ao alimento
espiritual do ser humano, em contraste ao desamparo espiritual que caracteriza
todas as formas de desespero existencial.
Em algumas formas de ensinamentos esotéricos,
as qualidades são simbolizadas ou entendidas como raios de luz descendo
sobre nós a partir de uma dimensão espiritual do ser. Em
um artigo anterior eu me referi a isto como correntes de luz, diferenciando
da corrente da vida em nossas raízes.
Wilhelm Reich escreveu que na base de toda neurose, por baixo de cada estado de dor e condição torturada, existe um simples, decente e claro estado de ser humano. Ele chamou isto de âmago. Nós chamamos de essência. Os cristãos chamam de alma. A espiritualidade é muito simples em essência: o professor espiritual dinamarquês Bob Moore, chama isto de sentimento por aquilo que você está fazendo. É o mistério por trás do problema, a cura por trás do ferimento, a face verdadeira por trás da máscara de Horus, as qualidades que estão precisando se manifestar para que os estresses da vida possam ser tratados de uma maneira clara.
No budismo a dimensão qualitativa do ser é simbolizado pelo céu aberto ou claro. Nuvens podem encobri-lo, mas ele está sempre lá. Algumas vezes o enxergamos rapidamente e o esquecemos novamente. Algumas vezes, assim como as pessoas que vivem em uma cidade e nunca viram o céu à noite, nós não o percebemos, mas ele trabalha invisivelmente sobre nós. Algumas vezes este céu claro torna-se uma fonte a qual podemos contatar diariamente. Nestes momentos nos sentimos "iluminados", mas não é um estado permanente, e sim um lembrete da natureza desanuviada de nosso ser básico. Desta natureza sem nuvens vêm as qualidades básicas, a capacidade de amar, de percepção, de coragem frente aos demônios, de fé - apesar das torturas da guerra, de confiança na força da vida.