A questão do trauma perinatal
no setting do EMDR
José Guilherme Oliveira
Resumo
Tanto os padrões de aprendizagem quanto a economia energética do
trauma são analisados sob o paradigma da complexidade. Sob esta ótica, o
trauma perinatal é percebido como um padrão fractálico constituinte e
como o trauma básico em nossa sociedade. Questiona-se porque ele é tão
incomum na seqüência de alvos enfocados pelo EMDR e qual o papel do
setting nesta alienação.
I
O universo evolui. Evolui segundo um padrão básico, uma pulsação
que se repete em seus vários níveis de complexidade; das partículas
subatômicas às galáxias e aos seres vivos. O padrão de uma pulsação
entre o discriminar-se, viver uma história e integrar-se de volta ao
todo, num ciclo de geração de conhecimento.
Um fractal é um padrão que se repete nas diversas escalas de um
sistema complexo, e é pelos padrões fractálicos que a complexidade se
forma. Aprender com a experiência é um padrão fractálico universal.
Até poucas décadas atrás, a cognição era geralmente percebida
apenas como uma função da inteligência racional. Matura e Varella
expandiram este conceito mostrando que o sistema cognitivo forma a
essência da interação de todo o ser vivo com o seu ambiente. O mundo é
conhecido através dos sistemas perceptivos, cada sistema perceptivo
revelando um mundo singular. O que um inseto aprende com suas antenas, ou
um morcego com seu sonar, lhe traz um mundo distinto do que conhecemos. Ou
seja, não é necessário dispor da razão ou da linguagem verbal ou
simbólica para aprender. Aprendemos desde a nossa concepção,
cumulativamente, onde as nossas primeiras experiências formam um padrão
fractálico que vai tecer a nossa complexidade. As experiências uterinas
e perinatais são portanto marcas constituintes de nossos seres, o
compasso de nossa música.
II
Entropia é uma medida de desordem. Os processos que geram história
(os irreversíveis) produzem um aumento de entropia em um
sistema fechado.
Mas em sistemas abertos a desordem produzida não precisa ficar dentro do
sistema. Se ficar dentro, o sistema se deteriora, caso contrário ele pode
se organizar, são os chamados processos neguentrópicos. A vida, por ser
essencialmente um sistema aberto, com trocas de matéria, energia e
informação com o seu meio, propicia processos neguentrópicos e evolui.
Mas, concomitantemente, comporta outros processos entrópicos que a levam
à morte.
Contraditoriamente, o universo, como um sistema fechado, parece estar
se organizando. Mas na verdade, é própria a expansão do espaço que
absorve essa desordem, pois um espaço difuso é mais desorganizado que um
espaço concentrado. É a expansão do espaço que possibilita a
organização da matéria e da energia. Este é outro padrão fractálico
universal.
O sistema nervoso que lida com o perigo foi um dos primeiros
filogeneticamente a ser desenvolvido; seu foco está no cérebro
reptiliano, ele precede à complexidade emocional do sistema límbico,
sendo regido pela simplicidade do medo e da ação motora primitiva.
Traz em sua herança três reações básicas: lutar, fugir ou
paralisar-se. Enquanto as duas primeiras permitem uma integração com os
demais subsistemas da mente (límbico, psíquico, motor, neuroendócrino e
neurovegetativo), possibilitando o sistema a organizar-se com a
experiência, a paralisia estanca toda a carga ativada no cérebro
reptiliano, produzindo uma desordem dissipativa do sistema. Impede a
expansão, torna o sistema mais fechado, sitia os recursos
necessários para uma organização crescente.
Surge a dissociação como um mecanismo de defesa que possa permitir
um isolamento de tal congestão de modo que outras partes do sistema sigam
funcionando, mas apenas segundo um funcionamento precário onde a parte
isolada funciona como um atrator caótico e um dissipador entrópico que
diminui a energia disponível do sistema como um todo.
Por isso, na mente humana, o trauma figura entre os seus processos
mais entrópicos, (enquanto que a consciência reflexiva ocupa o outro
extremo). A amnésia, a dissociação, a evitação e os demais mecanismos
de negação do trauma apontam para uma tentativa de reverter o
irreversível, como se fosse possível desfazer o acontecimento
traumático, tanto ou mais que encontrar uma resolução para ele. Gera-se
entropia sem sair do lugar, dissipa-se energia ao tentar reverter o
irreversível. Enquanto a consciência reflexiva digere, integra, expande
e organiza, o trauma constipa, dissocia, contrái e desorganiza.
As reações ao trauma, como os mecanismos de defesa nele ativados,
formam um novo padrão fractálico que se dissemina por todas as escalas
do comportamento e do desenvolvimento emocional. É uma aprendizagem, que
passa pela linguagem verbal com as crenças que se constroem na
experiência traumática, mas também pela linguagem corporal com o não
dito (e o não expresso) que ali se inscreve.
III
No século XIX, modelo higienista ditou uma mudança drástica
na cultura humana, principalmente na cultura das relações mais íntimas.
Se formaram os atuais comportamentos de gênero a partir de ideais de
domínio da natureza; a assepsia ditou costumes, regeu afetos, mudou
profundamente as formas de gestar, parir e nutrir. Durante dois séculos
(até que recentemente surge um paradigma ecológico que começa a
questionar esta ordem estabelecida) o nascimento foi se tornando
gradativamente um processo anti-natural, com o aparato hospitalar
subtraindo da mulher a sua potência geradora.
Ela não dá mais a luz, o bebê lhe é extraído sob a mira dos
holofotes ofuscantes. Entre cesarianas, mesas ginecológicas, fórceps,
cortes prematuros do cordão umbilical, poluição sonora, separação do
campo materno, incubadoras, berçários, objetos e práticas invasivas,
concluímos que uma enorme percentagem da população urbana de hoje
passou por uma experiência traumática ao nascer. Experiência esta, que,
por sua primariedade, estabelece um fractal entrópico desorganizador de
um desenvolvimento adequado. É o trauma básico na nossa sociedade.
Um trauma de nascimento produz defesas e/ou transtornos dissociativos
como também ocorre no transtorno de estresse pós-traumático. O recalque
que estrutura a psique nos primeiros anos de vida produz uma amnésia das lembranças traumáticas, mas
inscreve essa experiência profundamente na estrutura psíquica e no
caráter.
No entanto, não é a amnésia do ocorrido que impede o tratamento do
trauma de nascimento, ou mesmo de trauma uterinos, pelo EMDR. Esta
abordagem pode partir de eventos mais recentes que vão revelando antigas
memórias obscurecidas, situações traumáticas mais primitivas que
estavam encobertas. Porque então é pouco comum chegar-se a um trauma
perinatal a partir do processamento de uma situação-gatilho mais
recente? Tampouco se deve ao fato do EMDR se apoiar em uma fundamentação
cognitiva, pois ela não se limita à cognição verbal, usando também os
recursos das sensações corporais e dos sentimentos para recobrar a
memória e promover a integração do incidente em questão. Mesmo
recalcada, a cognição verbal do nascimento retorna em maior ou menor
grau através dos mitos e relatos familiares. Ainda que não haja uma
lembrança, a construção pela fantasia é tão eficaz quanto a
lembrança do evento traumático na elaboração deste.
Diversas vertentes de psicoterapia corporal, como a vegetoterapia, a
biossíntese, o rebirthing e a respiração halotrópica conseguem com
suas técnicas atualizar as vivências uterinas e perinatais. Se o trauma
perinatal é tão constitutivo e tão disseminado, e hoje há técnicas
disponíveis para ativar os afetos dessa fase, não seria o caso das
abordagens focadas no tratamento do trauma, como o EMDR expandirem seus
protocolos para poderem atingir o trauma básico?
Penso que o próprio EMDR dispõe de um conceito em seu cabedal
cognitivo que aponta para o que talvez seja o principal fator deste
suposto “impedimento”. Chama-se crença limitante.
Dentro de um sistema instituído, o terapeuta geralmente não se coloca a
possibilidade e a importância de chegar a esta cena como o alvo ancestral
dos demais.
Surge então uma questão de um acoplamento terapeuta-paciente onde as
possibilidades transferenciais do paciente estão sendo limitadas por uma
contratransferência instituída. É necessário que o setting
terapêutico se torne mais complexo, que venha a comportar um acoplamento
estrutural, um sistema mais vivo capaz de um desenvolvimento
neguentrópico inteligente que vá buscar as soluções para as suas
necessidades fora das limitações do instituído. Será necessário
aprimorar as suas ferramentas para melhor lidar com o universo
pré-verbal, onde a questão do continente seguro se torna um
pré-requisito ainda mais essencial para o risco da rememoração de uma
idade onde a sobrevivência dependia exclusivamente de um meio protetor.
No espaço das situações perinatais estaremos trabalhando a partir
de sentimentos muito básicos e de sensações, mais do que com imagens de
acontecimentos. As crenças que se formam neste período antecedem à
crença verbal, mas se inscrevem no corpo e tecem um padrão cognitivo
sobre uma experiência vivida, um fractal que posteriormente ganha uma
representação na escala verbal quando o sistema psíquico evolui.
Crenças estas que podem ser reprocessadas e dessensibilizadas como
qualquer outra.
Talvez mais do que em qualquer outra situação traumática, possa
surgir aqui o que ficou desativado pela cisão, aparecer uma extensão,
uma dobra a mais do fractal que possibilite a união dos fragmentos
dissociados – a consciência de ter havido em algum momento um calor,
uma força, um som ou um movimento prazeroso que possa servir de base para
a construção de um novo padrão fractálico de subjetividade.
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Notas
Particularmente, a
ocitocina produzida pelo organismo da mãe durante o parto produz uma
amnésia do sistema nervoso central do bebê no que tange a esse evento.
Glossário
Acoplamento estrutural - interações recorrentes que disparam modificações estruturais no sistema. Um sistema acoplado estruturalmente é um sistema inteligente capaz de aprender.
Atrator caótico - Conceito advindo da Teoria do Caos.É o "lugar" para onde alguns sistemas podem tender sem nunca chegar. "Lugar" está entre aspas por poder ser uma trajetória, não apenas um ponto fixo, o sistema se aproximaria de uma trajetória sem chegar a ela, e esta trajetória pode ser um padrão complexo como um fractal.
Dissipação - Perda de energia, como a existente no atrito, a energia é dissipada no meio ambiente. Se é perda, a energia deveria se tornar indisponível (entropia), mas curiosamente alguns sistemas dissipativos conseguem ser organizadores (neguentropia), ao exportarem a desordem gerada para o meio ambiente.
Entropia - Conceito da termodinâmica que mede a indisponibilidade energética de um sistema, a capacidade de se poder extrair energia de um sistema. Pela 2ª Lei da Termodinâmica a entropia de um sistema fechado nunca pode diminuir, e sempre aumenta em processos irreversíveis. Por exemplo, considerando-se uma cuba de gelo e uma panela de água quente, a entropia deste sistema aumenta se eu jogo o gêlo na panela, é mais difícil extrair energia da água morna resultante. Esse processo é irreversível - não consigo extrair de volta o gêlo da água morna espontaneamente. Daí podemos induzir que o heterogêneo tende a ser menos entrópico que o homogêneo. Como no heterogêneo a ordem é mais complexa que no homogêneo, a entropia pode ser vista como uma pobreza de ordem. Para um determinado observador, a bagunça é um desconhecimento de uma ordem existente, ele é menos capaz de extrair energia energia de um sistema para ele ordenado do que de um sistema bagunçado. Levando esse argumento a um extremo, podemos dizer que o caos é uma medida da ignorância do observador.
Expansão do espaço - O universo está se expandindo como um todo, tendo surgido como um espaço minúsculo (mas não pontual), é a chamada Teoria do Big Bang. As galáxias se afastam todas umas das outras, como os pontos na superfície de um balão que é inflado. Muito recentemente descobriu-se que o ritmo de expansão do universo está aumentando, e estranhamente o melhor candidato para ser o motor dessa aceleração é a própria instabilidade do vazio (a capacidade do vazio gerar processos opostos que geralmente se anulam). Ou seja, o vazio seria a origem última de toda ordem.
Fractal - Um padrão que se repete em várias escalas de grandeza, apresentando variações. O conceito de fractal foi uma das origens da teoria da complexidade pois ele reflete uma dinâmica fundamental da formação de uma organização complexa e está presente em todas as formas de vida. Este conceito se originou na matemática e pode ser mais facilmente entendido através de desenhos gerados matematicamente (exemplos).
Neguentropia - O inverso da entropia, a disponibilidade energética, a capacidade de organizar. Curiosamente, como a entropia é uma medida de uma falta, de uma indisponibilidade, ela é sempre negativa, e portanto a neguentropia é positiva, apesar do nome. O conceito de neguentropia se tornou importante no estudo da complexidade, quando se constatou que sistemas abertos têem a capacidade de poder gerar organização, como os seres vivos.
Processo neguentrópico - um processo capaz de gerar ordem, um
processo organizador. Vide neguentropia.
Processos reversíveis e irreversíveis - Um processo reversível é processo ideal sem atrito ou perdas, que eventualmente poderia ser desfeito sem qualquer esforço. Se um processo reversível fosse filmado, não poderíamos dizer se o filme estava sendo projetado normalmente ou de trás para frente. Processos reversíveis não existem no mundo real, mas foram idealizações através das quais a física pôde se desenvolver. É a irreversibiliade dos processos reais que gera a história, aqui lo que não pode ser desfeito, virou acontecimento.
Sistemas fechados e abertos - Um sistema fechado é uma idealização onde se desprezam as trocas existentes com o seu meio ambiente. O único sistema fechado real é o próprio universo. Um sistema aberto pode trocar matéria, energia e informação com o seu meio ambiente. Na prática, muitas vezes é útil considerar um sistema como sendo fechado para poder estudá-lo commais facilidade.