EMDR
associado ao método orgonoterápico
de foto-estimulação ocular
A orgonoterapia é uma abordagem terapêutica psico-corporal criada por
Wilhelm Reich a partir da psicanálise. Esta abordagem tem sido aperfeiçoada
pela incorporação de novos recursos clínicos criados a partir dela mesma ou
adaptados de outras especialidades terapêuticas. Neste artigo comentamos a
utilização da técnica orgonoterápica de foto-estimulação, associada ao método
EMDR.
O método EMDR (“Eye movement desensitization and reprocessing”),
que significa dessensibilização e reprocessamento através do movimento
ocular, foi criado em 1987 por Francine Shapiro. É atualmente considerado por
muitos como a mais importante descoberta da década de 90 no campo das
psicoterapias. Consiste em associar certas técnicas de estimulação corporal
bilateral, particularmente a movimentação lateral dos olhos, a um conjunto de
intervenções verbais conduzidas pelo terapeuta segundo um roteiro detalhado e
protocolado pela autora. Baseia-se no fato de que as desordens pós-traumáticas
e sintomas psicopatológicos em geral agregam imagens, sentimentos, e cognições
negativas que não puderam ser devidamente processados devido a desequilíbrios
bioquímicos e elétricos resultantes do stress que acompanha o evento traumático,
permanecendo como que “congelados” no cérebro em sua forma original.
As descobertas de Le Doux, Henry, van der Kolk e outros pesquisadores
indicam que as desordens de stress pós-traumático devem-se a alterações
funcionais em algumas estruturas do sistema límbico e do córtex cerebral. A
ativação da amígdala e a liberação de noradrenalina e outros neuro-hormônios
durante o stress, inibem o hipocampo e os neurônios GTF e entorpecem certas áreas
do neocórtex, prejudicando a interpretação cognitiva do evento traumático.
As memórias são guardadas sob forma de sensações, imagens visuais e padrões
motores ficando prejudicada sua representação semântica. Isto gera desajustes
comportamentais e emocionais. O indivíduo perde a capacidade de diferenciar,
por exemplo, entre o perigo que representa um leão solto no quintal de casa ou
um leão na jaula do zoológico.
A intervenção rítmica do EMDR promoveria uma reconexão funcional
entre as diferentes áreas dos dois hemisférios cerebrais, permitindo que estas
informações fossem reprocessadas e integradas. Foi evidenciado por tomografia
PET que após o tratamento com o método ocorre uma ativação de diversas áreas
cerebrais incluindo a área de Broca, relacionada à fala, e um aumento da
atividade de fibras do corpo caloso, que comunicam os dois hemisférios
cerebrais.
A utilização de intervenções verbais associadas a técnicas de
intervenção corporal, como a movimentação dos olhos, não é em si uma
novidade, pois em orgonoterapia isso já é utilizado há mais de 30 anos. Porém
o que o método EMDR traz de novo é a sistematização destas intervenções
verbais, agregando memórias visuais, afetivas e cognitivas, e o fato de
conduzi-las em sequência rápida de forma simultânea ou alternada com as
intervenções corporais. Embora a história da criação deste método não
tenha qualquer relação com a orgonoterapia, a sua similaridade com a abordagem
psico-corporal reichiana permite associá-lo a algumas de suas técnicas
corporais, principalmente a técnica de foto-estimulação ocular.
O método terapêutico de estimulação ocular com a luz em movimento
foi criado pela orgonoterapeuta Barbara Goldenberg Koopman, discípula de Reich
e Baker. Consiste em propor ao paciente que acompanhe com os olhos a luz de uma
pequena lanterna que o terapeuta movimenta em trajetórias e ritmos específicos,
permitindo que a luz incida sobre os olhos em diferentes pontos do campo visual.
Esta técnica tornou-se clássica em orgonoterapia pelos resultados que
proporciona no tratamento de diversos distúrbios psico-emocionais e somáticos.

Nos últimos anos, pesquisadores de diferentes especialidades criaram
outras técnicas de foto-estimulação. O livro “Light Years Ahead”
publicado em 1996 por Brian Breiling e Lee Hartley apresenta uma coletânea de métodos
de tratamento psicossomático (“mindbody healing”) que utilizam a
foto-estimulação ocular, confirmando sua eficácia no tratamento de grande número
de doenças. Embora o livro não comente especificamente a foto-estimulação de
B. Koopman, a comprovação dos efeitos terapêuticos de técnicas similares não
só confirma como também fundamenta seus efeitos com base em descobertas
recentes no campo das neurociências. Os efeitos terapêuticos desta técnica
explicam-se por diversos fatores associados, que podem ser resumidos em 4 itens:
Ÿ
Estimula a manutenção contínua da visão binocular em
diferentes pontos do campo visual, favorecendo a conexão funcional entre
diferentes áreas dos dois hemisférios cerebrais e o reprocessamento de memórias
de eventos emocionais, reconectando afetos e suas representações psíquicas.
Ÿ
Permite restaurar a coordenação dos movimentos conjugados dos
dois olhos, favorecendo a orientação espaço-temporal e as funções psíquicas
associadas.
Ÿ
Favorece a regulação das secreções hormonais do eixo hipotálamo-hipófise
e da glândula pineal, contribuindo para a regularização das funções
psicossomáticas associadas.
Ÿ
Ativa os neurônios GTF reproduzindo uma atividade elétrica
cerebral similar aos períodos de sono REM, que hoje sabemos ter fundamental
importância no processamento de informações ligadas a nosso equilíbrio
psico-emocional
O estímulo à conexão funcional entre os dois hemisférios cerebrais
e a ativação dos neurônios GTF, reproduzindo atividade elétrica cerebral
similar ao sono REM são duas importantes similaridades entre esta técnica e o
método EMDR.
A técnica original sugere o emprego da luz branca. Porém,
considerando a importância da visão a cores na espécie humana e sua vinculação
com nossas funções afetivas, desenvolvemos pesquisas clínicas com luzes de
cor azul, verde e vermelha. A escolha destas cores baseia-se no fato de
existirem três tipos de células na retina, chamadas cones, cujo máximo de
absorção de luz corresponde a cada uma destas cores. A estimulação de cada
uma delas gera impulsos nervosos que são conduzidos a diferentes regiões do cérebro.
Os resultados clínicos obtidos, publicados na Revista da Sociedade Wilhelm
Reich RS no 2, pg. 40-54 (1998) indicam que cada cor é
seletivamente mais eficaz no tratamento de determinadas disfunções
psico-emocionais e somáticas.
O trabalho com a luz favorece a evocação de memórias de eventos com
importante significado emocional, e o acesso a conteúdos do inconsciente. Isto
é particularmente frequente quando sugerimos ao paciente que durante o trabalho
com a luz procure relatar as memórias, imagens e expressões relacionadas a
estes episódios. Sua utilidade na elaboração e reprocessamento de eventos
traumáticos parece ocorrer por mecanismos similares aos descritos por Shapiro,
com o método EMDR. E é justamente na forma de conduzir as intervenções
verbais, quanto à sua sequência e sistemática, que o método EMDR pode
contribuir para a obtenção de melhores resultados com a técnica de
foto-estimulação. Por outro lado, o estímulo luminoso parece produzir efeitos
terapêuticos mais amplos e eficazes do que a simples movimentação dos olhos.
Logo, cada um dos métodos tem algo a contribuir para o enriquecimento do outro
e sua utilização conjunta pode melhorar sua eficácia terapêutica.