Trauma
e EMDR:
o referencial psicanalítico
Frinéa Brandão
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Conteúdo
Shapiro cunhou o termo sinclético (Shapiro, 1995), que seria
aproximadamente uma síntese do eclético. Esse termo facilita a EMDR reconhecer,
aceitar e captar conceitos técnicos e até mesmo teóricos de outras abordagens.
A tendência da EMDR é reconhecer os conceitos que lhe são
diretamente aplicáveis. Quanto à psicanálise, reconheceu a respeito de
seu corpo teórico, sua metodologia e suas técnicas. As contribuições mais
facilmente reconhecidas pela EMDR são: a importância das memórias precoces,
o Inconsciente e seu funcionamento, a livre associação, o insight,
a catarse, a ab-reação e o simbolismo. Todos esses conceitos são facilmente
comprovados na prática da EMDR. As memórias, afetos e representações simbólicas
dos pacientes emergem com seu uso, isso facilita o insight além
de torná-lo permanente.
A EMDR é uma técnica inovadora e ao mesmo tempo um conjunto
de técnicas. O movimento ocular, prática usada pelos terapeutas corporais
há bastante tempo, feito dessa forma junto com ao protocolo, é uma inovação
técnica. Importou e adaptou da terapia cognitiva algumas abordagens que
se adequaram perfeitamente ao seu uso.
Adotou também alguns constructos teóricos da psicologia,
neurologia e psicobiologia.
Um importante conceito psicanalítico que a EMDR utiliza é
o de trauma. Trauma vem do grego ferida. Trauma e traumatismo são termos
comumente usados em medicina geral e cirurgia.
O termo trauma foi tomado da medicina geral por Freud e por
ele transformado a tal ponto que passou a ter uma conotação totalmente
diferente. Para Freud "chamamos assim a uma vivência que, no espaço
de pouco tempo traz um tal aumento de excitação à vida psíquica, que a
sua liquidação ou a sua elaboração pelos meios normais e habituais fracassa,
o que não pode deixar de acarretar perturbações duradouras no funcionamento
energético.O instinto e suas vicissitudes - 1915
Para nós trauma seria um acontecimento difícil na
vida da pessoa que se traduziria em primeiro lugar pelo choque causado,
que poderia ser medido pela sua intensidade. Dependendo de sua intensidade
haveria uma clara incapacidade de resposta de forma adequada. O trauma
traria ainda conseqüências em longo prazo, dependendo do grau do choque
sofrido. É um transtorno, e como transtorno pode gerar efeitos patogênicos
duradouros, modificando a organização psíquica. Caracteriza-se também
por um afluxo excessivo de excitações. Por ser excessivo, assustador e
chocante a pessoa perde a capacidade de dominar e de elaborar psiquicamente
estas excitações, primeiro pela quantidade de energia que inunda o organismo
e, conseqüentemente, pelas emoções incompreensíveis.
Freud tinha um outro objeto em mente quando se deparou com
o trauma e os efeitos dele: a histeria. Queria explicar suas origens,
determinações e achar uma forma eficaz de tratá-la. Ele estava diante
de fatos novos e dinâmicos.
Então, quando transpôs o termo trauma para o plano do psiquismo,
transpôs também as significações que nele estavam implicadas: as de um
choque violento, de um ferimento e as conseqüências e cicatrizes que esses
choques deixavam. Traumatismo ficou então sendo a situação imediatamente
determinada pelo trauma.
Elaborou um conceito de trauma claro e completo baseando-se
numa situação traumática e por isso firmando-se numa concepção econômica.
"Descrevemos como traumáticas quaisquer excitações provindas de fora
que sejam suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor.
Parece-me que o conceito de trauma implica necessariamente uma conexão
desse tipo com uma ruptura numa barreira sob outros aspectos eficaz contra
os estímulos. Um acontecimento como um trauma externo está destinado a
provocar um distúrbio em grande escala no funcionamento da energia do
organismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas possíveis.
Ao mesmo tempo, o princípio do prazer é momentaneamente posto fora de
ação. Não há mais possibilidade de impedir que o aparelho mental seja
inundado com grandes quantidades de estímulos; em vez disso, outro problema
surge, problema de dominar as quantidades de estímulo que irromperam,
e de vinculá-las, no sentido psíquico, a fim de que delas se possa então
desvencilhar.Além do princípio do prazer - 1920
Esse conceito é bastante atual e podemos aplicá-lo também
ao estresse. O estresse definido como fatos incompreensíveis que não sabemos
lidar está embutido no trauma. Não existe trauma sem estresse, mas existe
estresse sem trauma. A diferença a nosso ver está no choque. Uma situação
estressante não é necessariamente uma situação chocante. Uma situação
estressante é uma situação problemática que não estamos capacitados momentaneamente
ou permanentemente a resolvê-la. O trauma caracteriza-se por uma grande
situação de perigo, mesmo que essa situação não seja entendida como tal.
Essa situação leva o organismo a uma espécie de choque. Se ela for seguida
de uma impossibilidade de resolvê-la ou mesmo de lidar com ela, é uma
situação de estresse também. Daí o termo estresse pós-traumático.
Passamos por diversos tipos de traumas nas nossas vidas
e alguns podem depois de compreendidos, ser utilizados até mesmo como
um processo de aprendizagem. "Em conseqüência da incompreensão dos
fatos pela criança, a situação de sentir falta da mãe não é uma situação
de perigo, mas uma situação traumática. Ou, para dizê-lo mais corretamente,
é uma situação traumática se acontecer que a criança na época esteja sentindo
uma necessidade que sua mãe seja a pessoa a satisfazer... Assim, o primeiro
determinante da ansiedade, que o próprio ego introduz, é perda de percepção
do objeto". Inibições, sintomas e ansiedades - 1926.
O trauma pode ser ainda um canal para a ansiedade sinal,
uma das vertentes principais para a origem de um complexo de sintomas,
um núcleo construtor de uma personalidade ou ainda uma das mais importantes
ferramentas na construção de cisões na personalidade de uma pessoa.
Se a criança consegue criar mecanismos suficientes e suficientemente
bons para lidar com os fatos traumáticos pode significar que ela entendeu
o que se passou, simbolizando, usando essa capacidade humana de ser o
agente da situação que pode mais tarde ajudá-la a reconhecer uma condição
similar. Esse reconhecimento é auxiliado depois pela ansiedade sinal.
Esse tipo de ansiedade anuncia o perigo e nos permite lidar com ele como
agente da situação. Esse pode ser um dos primeiros passos para a construção
de nossa autonomia.
Para isso necessitamos também de simbolizar, reagir através
de atos simbólicos, de palavras e de ter reações motoras significativas.
"Um mecanismo psíquico sadio tem outros métodos de lidar com o afeto
de um trauma psíquico mesmo que lhe sejam negadas a reação motora e a
reação por palavras, a saber, elaborando-o associativamente e produzindo
idéias contrastantes. Mesmo que a pessoa insultada não retribua o golpe,
nem retruque com uma grosseria, ela pode ainda assim reduzir o afeto ligado
ao insulto pela evocação de idéias contrastantes, tais como a de seu valor
pessoal, da indignidade de seu inimigo, e assim por diante. Quer um homem
sadio lide com o insulto de um modo ou de outro, ele sempre consegue chegar
ao resultado de que o afeto originalmente intenso em sua memória acabe
perdendo a intensidade e finalmente, tendo perdido seu afeto, a lembrança
caia vítima do esquecimento e do processo de desgaste . Sobre
o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos - 1893.
Teremos alcançado importante progresso em nossa capacidade
de autopreservação se pudermos prever e esperar uma situação traumática
que acarrete desamparo (desamparo físico, se o perigo for real, e desamparo
psíquico, se o perigo for pulsional) em vez de simplesmente esperar que
ela aconteça.
Resolver satisfatoriamente uma situação dessas requer um
ego forte e um ego forte pode lidar melhor com os traumas criando até
possibilidades de aprendizagem, autonomia e de humor. "Não há dúvida
de que a essência do humor é poupar os afetos a que a situação naturalmente
daria origem a afastar com uma pilhéria a possibilidade de tais expressões
de emoção... O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade,
a permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado
pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas
para ele não passam de ocasiões para obter prazer.O Humor - 1927
Se uma criança cresce fortalecendo gradativamente, continuadamente,
sua capacidade de simbolizar, entender o que se passa a sua volta, ela
vai fortalecendo seu ego e se tornando capaz de gerar sentimentos complexos
como a confiança, o respeito ou a solidariedade, por exemplo.
Esses sentimentos têm como base econômica um afeto vital
que é o amor. Através de sentimentos de prazer e de respostas significativas
como a possibilidade de ser aceito, acolhido, visto por um olhar cuidadoso,
contar com uma função mãe boa o suficiente, seu ego vai se fortalecendo
e criando condições propícias para o manejo adequado das demandas pulsionais
e das demandas externas. Para isso, enfatizamos: necessitamos também de
simbolizar, representar, reagir através de atos simbólicos, palavras e
reações motoras significativas.
Isso nos dará um ego forte e um corpo harmônico com pés bem
e prazerosamente plantados no chão. Conhecedores de onde pisam. Confiantemente
presos ao chão. Vibrando na maioria das vezes na mesma sintonia energética.
Reconhecidamente as maiorias dos traumas são também traumas
corporais. Nossa memória corporal guarda no corpo a situação que passamos,
a defesa que tentamos usar, junto com os afetos deflagrados na hora e
junto com os afetos que vierem depois da situação traumática. Tudo isso
aparece claramente em nossos corpos. Junto com nossa personalidade nossos
corpos são estruturados ao longo de nossas vidas e este corpo, visto muitas
vezes apenas como habitação ou ferramenta, ajuda a formar e a transformar
nossa personalidade.
Teremos alcançado importante progresso em nossa capacidade
de autopreservação caso possamos reconhecer ou mesmo prever e reagir como
agentes, sujeitos, adequadamente, de forma protetora, amparada a uma situação
traumática que acarretaria desamparo.
É um fato notoriamente reconhecido a diferença de se lidar
com situações catastróficas que são traumáticas em si mesmas, factuais.
Partimos do princípio que seja uma situação traumática para qualquer pessoa
que passe por elas, como, por exemplo, guerras, torturas, fenômenos climáticos
de grande intensidade, perdas de entes queridos etc. O fato reconhecido
é que algumas pessoas se recuperam verdadeiramente e outras nunca se recuperam.
O que acontece? Essas pessoas que se recuperam têm o ego forte são potentes
e, como diz Freud, tiveram o amor incondicional de suas mães, sua aceitação
plena por todo o tempo de seu desenvolvimento. Passaram a amar e a aceitar
suas peles, seus corpos. Essas pessoas, se passarem por uma catástrofe,
precisarão somente de umas poucas sessões de EMDR.
A segunda hipótese, o trauma sendo uma das vertentes principais
para a origem de um complexo de sintomas, foi a mais estudada e desenvolvida
por Freud desde o início da psicanálise. Segundo alguns epistemólogos
a psicanálise se fundou em torno dela. A curiosidade e a necessidade de
conhecimento de Freud fez das neuroses e principalmente da histeria, um
objeto de estudo amplamente aprofundado.
É de uso corrente caracterizar o início da psicanálise entre1890 e 1897,
momento esse do envolvimento de Freud com a explicação da etiologia das
neuroses e da histeria. Mergulhado no modelo teórico da medicina, precisava
de uma causa. A causa estava nos traumas sofridos na infância, principalmente
aqueles de origem sexual.
Pode-se dizer com certeza que Freud foi um dos primeiros
a reconhecer e a descrever, em termos psicológicos, o impacto realmente
terrível e prolongado provocado pelo abuso sexual na infância, embora
seu interesse principal fosse explicar e compreender a histeria. Achava
que os abusos recalcados geravam os sintomas histéricos. Essa afirmação
de Freud causou assombro geral. Era muito grande a quantidade de casos
de histeria, e parecia impossível que em todos eles houvesse ocorrido
abuso na infância.
Percebeu que dificilmente provaria que todos os histéricos
teriam sofrido abuso sexual na infância. Abandonou a explicação direta
e simples: trauma produz sintoma neurótico, e deduziu que a determinação
do sintoma pelo trauma psíquico não é tão transparente. "Freqüentemente,
só encontramos o que se pode descrever como uma relação simbólica entre
a causa determinante e o sintoma histérico. Isso se aplica especialmente
às dores. É como se houvesse a intenção de expressar o estado mental através
de um estado físico; e o uso lingüístico fornece uma ponte pela qual isso
pode ser efetuado.Conferências introdutórias sobre psicanálise
- 1916
Segundo o ponto de vista econômico deduziu que os sintomas
vinham através de um impedimento de expressar o afeto ligado ao trauma.
Se conseguisse "suscitar uma lembrança realmente vívida. E se então
o compelirmos a exprimir verbalmente esse afeto, verificaremos que, ao
mesmo tempo em que ele manifesta esse afeto violento, o fenômeno de suas
dores desponta marcantemente uma vez mais e, daí por diante, o sintoma,
em seu caráter crônico, desaparece.Estudos sobre a histeria -
1895
Outro problema levantado por Freud é de que modo um evento
ocorrido há anos pode continuar exercendo poder sobre o sujeito, e como
é que tais lembranças não foram submetidas aos processos de desgaste e
esquecimento.
Percebemos hoje que é um fenômeno comum a todas as pessoas,
sendo portadoras de histeria ou não. Através da técnica da EMDR chegamos
facilmente a essa conclusão apontada há tantos anos por Freud.
Chegou à seguinte conclusão: quando por qualquer motivo não
pode haver reação a um trauma psíquico, ele retém seu afeto original,
e quando a pessoa não consegue livrar-se do acréscimo de estímulo através
de sua "ab-reação", se depara com a possibilidade de que o evento
em questão permaneça como um trauma psíquico. Essa hipótese também pode
ser comprovada através da EMDR. Quando o paciente, tratado com EMDR,
consegue ab-reagir, ele certamente está bem próximo de se livrar dos danos
que a situação traumática por que passou gerou. Se, através da aceitação
plena do terapeuta consegue compreender e simbolizar a situação traumática,
ele refaz, muda sua rede de comunicação psíquica, mesmo que tenha passado
por trauma catastrófico.
É pelas diferenças na história e no desenvolvimento de cada
um, pela própria diferença individual que o traumatismo é um acontecimento
único e pessoal em cada história. Em 1894 Breuer e Freud mostraram que
havendo o traumatismo se instaura um conflito psíquico que impede a pessoa
de integrar na sua personalidade consciente a experiência que lhe ocorre.
Verificaram também que acontecimentos, que por si sós não agiriam como
traumatismo, poderiam somar seus efeitos. Uma vez que tal núcleo se tenha
formado em um momento traumático, ele crescerá em outros momentos (que
poderiam ser chamados de momentos auxiliares) sempre que a emergência
de uma nova impressão da mesma espécie provoque uma ruptura na barreira
erigida pela vontade, fornecendo afeto recente à idéia enfraquecida e
restabelecendo provisoriamente o elo associativo entre os dois grupos
psíquicos. As neuropsicoses de defesa 1894
Esta pode ser uma das vertentes principais para a origem
de uma neurose. Na neurose, quando o trauma é agente contribuinte para
sua formação, ele fica isolado da personalidade como um todo, permanecendo
como um núcleo estranho, podendo, através do retorno do recalcado aparecer
em manifestações como sintomas, "mesmo que o sintoma não seja o precipitado
de uma única cena traumática, mas o resultado de uma soma de grande número
de situações semelhantes.Um estudo autobiográfico - 1925
As neuroses traumáticas dão uma indicação precisa de que
em sua raiz se situa uma fixação no momento do acidente traumático. Os
traumas fornecem "à mente um acréscimo de estímulo excessivamente
poderoso para ser manejado ou elaborado de maneira normal, e isto só pode
resultar em perturbações permanentes da forma em que essa energia opera.Conferência
XVIII - Fixação em traumas - o Inconsciente 1917
Nos anos que se seguem o significado etiológico único do traumatismo
cai em benefício da vida fantasmática e das fixações nas diversas fases
libidinais. Embora esse ponto de vista não seja abandonado, integra-se
em outras concepções como a constituição, e a história infantil. O traumatismo
que desencadeia a neurose no adulto precisa de uma predisposição. A etiologia
da neurose depende da história do sujeito, de suas relações objetais que
vão determinar a fixação da libido em alguma fase do desenvolvimento.
Isso marcaria a força com que um acontecimento traumático criaria raízes
no psiquismo.
Através do uso da técnica da EMDR, é possível ir até às raízes
do acontecimento traumático, mesmo sendo ele muito primitivo. Os movimentos
sacádicos ajudam a pessoa a recordar ativamente, recordar sentindo os
afetos ligados a essa determinada situação, e, a partir daí, ab-reagí-los.
Através da ajuda do terapeuta, o paciente pode abandonar sua idéia fixa
a respeito de sua atuação na situação geradora do trauma e a partir daí
conseguir elaborar uma situação antes recalcada. Com a saída desse núcleo
de afetos penosos e negativos abre-se mais espaço no psiquismo para novas
conexões e possibilidades de emoções e afetos representativos. Esse desencaixamento
possibilita a ampliação das conexões psíquicas. E como é uma técnica que
promove a autonomia por seu próprio uso, ajuda na maioria dos casos a
que o trabalho continue.
Na nossa terceira hipótese - o trauma como um núcleo construtor
de uma personalidade - podemos falar de transtorno de personalidade. Há
quase um consenso hoje em dia de que na base dos transtornos de personalidade
há situações de traumas e abusos, e em sua maioria, aí diretamente proporcionais
à gravidade do transtorno, os abusos e traumas são de origem sexual.
O que Freud conceituou a respeito da neurose traumática em
Além do princípio do prazer pode ser aplicado a alguns mecanismos
psíquicos de funcionamento do transtorno de personalidade. "Podemos,
acredito, atrever-nos experimentalmente a considerar a neurose traumática
comum como conseqüência de uma grande ruptura que foi causada no escudo
protetor contra os estímulos. Assim, por um lado, a violência mecânica
do trauma liberaria uma quantidade de excitação sexual que, devido à falta
de preparação para a ansiedade, teria um efeito traumático, mas, por outro
lado, o dano físico simultâneo, exigindo uma hipercatexia narcisista do
órgão prejudicado, sujeitaria o excesso de excitação.Além do
princípio do prazer - 1920
A teoria da sedução de Freud pode explicar outros tipos de
transtorno de personalidade. Numa primeira cena, chamada de sedução, a
criança sofre uma tentativa de abuso ou um abuso sexual por parte de um
adulto, sem que esta nela dê origem a qualquer excitação sexual; uma segunda
cena, muitas vezes aparentemente anódina, e passada depois da puberdade,
vêm evocar a primeira por qualquer traço associativo. É a recordação da
primeira que desencadeia um afluxo de excitações sexuais que excede as
defesas do ego.
. Em Ferenczi encontramos no seu conceito de identificação
com o agressor uma grande ajuda para entendermos os mecanismos básicos
do transtorno de personalidade. "A personalidade ainda fracamente
desenvolvida reage ao brusco desprazer, não pela defesa, mas pela identificação
ansiosa e a introjeção daquela que a ameaça e a agride. Uma parte da personalidade
deles, o seu próprio núcleo, permaneceu fixado num certo momento e num
certo nível, onde as reações aloplásticas ainda eram impossíveis e onde,
por uma espécie de mimetismo, reage-se de maneira autoplástica. Chega-se
assim a uma forma de personalidade feita unicamente de id e superego,
e que, por conseguinte, é incapaz de afirmar-se em caso de desprazer;
do mesmo modo que uma criança, que não chegou ainda ao seu pleno desenvolvimento,
é incapaz de suportar a solidão, se lhe falta à proteção materna e considerável
ternura . Confusão de línguas entre adultos e crianças 1932.
Essa personalidade feita de id, daí a necessidade de ações,
atuações constantes e de superego, vindo daí o grande oportunismo, a capacidade
de compreensão social, a facilidade de manipulação, de regressão está
cada vez mais numerosa.
É quase toda a personalidade construída em torno de vários
e repetidos traumas. Junta-se a isso a falta de amor. ...A perda
de amor a partir do objeto se torna um novo perigo e muito mais duradouro
e determinante de ansiedade.Inibições, sintomas e ansiedades
- 1926.
O trauma é constituinte da personalidade de quem tem esse
tipo de transtorno. Ele faz parte dela. Sem ele o que existiria seria
o vazio sentido como sintoma. A perda de amor objetal duradoura traz a
impossibilidade de gerar sentimentos como a confiança, a fé em si mesmo
e funções da percepção como a empatia e a auto estima. Nossa tarefa enquanto
psicoterapeutas é a de construtores em cima de uma terrível e sólida ruína
que não pode ser simplesmente destruída, mas sim desconstruída e reconstruída
aproveitando tijolo por tijolo. Para isso a EMDR pode nos ajudar bastante,
desconstruindo tijolo por tijolo dessa personalidade. Foco por foco, permeada
por uma atitude terapêutica protetiva e limitadora.
O trauma central, como é constituinte da personalidade e
faz parte dela, deve ser abordado assim que ficar evidente e tratado.
O vazio, a falta de amor, de ternura, a impossibilidade de empatia diminuem
à medida que o trauma central é desconstruído, assim como a hipercatexia
narcísica que o dano físico traumatizante produz.
A nossa quarta hipótese situa o trauma como uma das mais
importantes ferramentas na construção de cisões na personalidade, que
seriam as psicoses.
De acordo com Ferenczi, i o choque é equivalente à aniquilação
do sentimento de si, da capacidade de resistir, agir e pensar com vistas
à defesa do Si mesmo. Também pode acontecer que os órgãos que asseguram
a preservação do Si mesmo abandonem ou, pelo menos, reduzam suas funções
ao extremo.
A conseqüência imediata de cada traumatismo é a angústia.
Esta consiste num sentimento de incapacidade para adaptar-se a situações
de desprazer. Ferenczi - Obras Completas - Vol. IV - Reflexões sobre
o trauma.
Os traumas que ajudam na formação das psicoses são os primitivos
e aqueles de ordem do cotidiano. São maus-tratos físicos, crises de ira,
repreensões severas por qualquer motivo. Isso acontece juntamente com
o impedimento de qualquer expressão por parte da criança. Ela tem de ficar
contida. A princípio a contenção vem de fora até se dissociar, se cindir.
Quando a cisão acontece ela já está contida de dentro. Esses fatos vão
gerar sempre uma sensação de angústia, insegurança e inadequação. O afeto
mais sentido será o medo. Não existirá também ansiedade sinal. A percepção
é altamente contaminada. Nos transtornos de personalidade, por exemplo,
a percepção é distorcida. Na maioria das vezes a pessoa enxerga o que
quer. Nas psicoses tudo é focado pela ótica do medo. Não se sabe de onde
vem o próximo susto.
Para Freud o medo exige um objeto definido de que se tenha
temor. Nos transtornos delirantes e esquizofrenias paranóides há uma escolha
do objeto do medo. Assim, a ilusão é de controle. Sabe-se de onde vem
o medo. Isso é para impedir o susto que, também segundo Freud, é o nome
que se dá ao estado em que alguém fica quando entra em perigo sem estar
preparado para ele: a ênfase é dada ao fator da surpresa.
Dependendo de quanto e quando foi negativamente surpreendida,
a psicose assume seu grau mais elevado. "As impressões dos traumas
primitivos, dos quais partimos, não são traduzidas para o pré-consciente
ou são rapidamente devolvidas pela repressão para o estado de id. Seus
resíduos mnêmicos, nesse caso, são inconscientes e operam a partir do
id . Moisés e o monoteísmo 1939.
Se o desenvolvimento acontece sob o signo do trauma não há
qualquer proteção contra o retorno das situações de ansiedades traumáticas
originais. "Toda pessoa tem, com toda probabilidade, um limite além
do qual seu aparelho mental falha em sua função de dominar as quantidades
de excitação que precisam ser eliminadas". Além do princípio do
prazer-1920.
Nas psicoses, essa função do aparelho psíquico não existe.
Como Freud nos mostrou, as bases do aparelho psíquico são construídas
ao longo da infância e início da adolescência. Se essa criança é submetida
a constantes situações traumáticas, ela tem de se preparar para resistir
a esse estresse constante. Ela se prepara então com mecanismos falhos
e defesas primitivas. Mecanismos como o controle, adequação de respostas
satisfatórias nas relações objetais, mais elaboradas, não existem.
Os tratamentos que relatam sucesso nos falam de reconstrução,
organização de afetos.
Desde a escola inglesa de psicanálise, desde Jung, e outros,
tem-se notícias de sucesso no tratamento das psicoses. Todos eles nos
falam de reconstrução, organização de afetos, possibilidade de êxito num
longo tempo de tratamento. Um dos nossos desafios com EMDR é o de usá-la
e adequá-la também para abreviar o tratamento das psicoses.
Bibliografia
Freud, Sigmund - Obras Completas, Rio de Janeiro,
Imago Editora, 1969.
Ferenczi, Sándor - Psicanálise I, II, III e IV,
São Paulo, Martins Fontes, 1991.
Ferenczi, Sándor - Diário Clínico, São Paulo,
Martins Fontes, 1990.
Reich, Wilhelm - Análise do Caráter, Lisboa,
Martins Fontes, 1972.
Shapiro, Francine - Eye Movement
Desensitization and Reprocessing, New York, 1995.
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