O R G O N i zando

Psicoterapia Corporal
e Orgonomia 
desde Wilhelm Reich

PROJETO TOQUE - TOQUE

Darcio Valente Rodrigues*

I.                  O que é o Projeto Toque-Toque.

O Projeto Toque-Toque foi desenvolvido principalmente a partir da obra clínica e social de Wilhelm Reich, algumas idéias sobre comunidade terapêutica e terapia comunitária, vários dados científicos acumulados principalmente pelo IPT, importante centro científico de Miami, e das mais puras e simples observações sobre a importância do toque.

Nosso objetivo mais básico é preventivo e busca levar a crianças carentes a possibilidade de maior contato físico, porque é principalmente a partir dele que a criança vai desenvolver percepção de si mesma e do outro, amor próprio, capacidade de amar e ser amada, noção de limites, possibilidade de convívio social saudável, etc., podendo-se afirmar que a sua falta contribui grandemente no aparecimento de problemas de ordem física e emocional nas crianças. (Veja no final do artigo “Algumas Informações Relevantes”).

Objetivos diretamente ligados a este objetivo mais básico são a terapêutica comunitária do sistema no qual a criança está inserida, e a terapêutica tanto das crianças quanto dos adultos que com ela se relacionam na comunidade em questão. É interessante notar que na realidade o trabalho mostra-se igualmente terapêutico tanto para as crianças como para os voluntários que com elas trabalham.

Neste ponto, cabe lembrar, que por questões principalmente de ordem prática, o Projeto Toque-Toque não trabalha diretamente com os pais ou responsáveis pelas crianças. Possíveis resultados positivos neste sentido ocorrem de forma natural a partir do convívio com as crianças assim como através de palestras, filmes, e aulas abertas a toda a comunidade.

Outro importante objetivo do trabalho é ajudar a formar pessoas aptas a trabalhar com crianças. Para atingir este objetivo, o voluntário participa de grupos de estudo e supervisão, tem acesso a biblioteca especializada, recebe apostilas, assiste a palestras, filmes, aulas práticas e teóricas. Note-se que apesar de ser basicamente um trabalho voluntário, as pessoas que dele participam têm um retorno consistente e imediato em termos de aprendizado, formação profissional, motivação e convívio social, etc..

O Projeto Toque-Toque será implantado em áreas materialmente carentes, com crianças de 0 a 4 anos de idade, especialmente em creches e orfanatos particulares ou patrocinados, não acarretando custos para estas instituições.

Numa primeira fase 3 planos piloto serão implantados em creches com as seguintes características:

1)               Creche dia patrocinada.

2)               Creche dia particular.

3)               Creche orfanato.

Os planos piloto serão implantados em ordem de dificuldade, ou seja, na ordem acima mencionada.

Para a escolha das creches piloto algumas características serão levadas em conta, a saber: abertura para o trabalho por parte da direção da creche, espaço físico razoavelmente adequado, além das outras características já antes mencionadas.

Para cada plano piloto, assim como para as futuras creches, é feito um ‘plano específico de trabalho’ em cima das características específicas da creche a ser trabalhada.

O 1º plano piloto já foi implantado e o trabalho tem sido motivador, apresentando até o momento bons resultados. O 2º plano piloto deve começar a ser implantado ainda este ano, e o 3º no primeiro semestre do ano que vem.

Finda a implantação e aprovação dos planos piloto, começaremos a fase dois que dependerá, no entanto, de ajuda financeira, pois os supervisores devem ser pagos por seu trabalho. Apesar de ser um trabalho basicamente voluntário, o projeto não pode se dar ao luxo de perder supervisores já preparados, coisa passível de ocorrer por motivos óbvios, como a obtenção de um emprego período integral por exemplo.

A fim de obter recursos para financiar o projeto, várias medidas estão sendo tomadas e toda ajuda será bem vinda.

II.               Como Funciona o Trabalho nas Creches.

O trabalho nas creches funciona em dois níveis, o grupal e o individual.

O trabalho em grupo é feito principalmente nos subgrupos de crianças, nos locais onde elas normalmente ficam, por exemplo: nas classes, no berçário ou em um pátio aberto. Procurando sempre auxiliar a pessoa responsável pelas crianças (recreadora, professora, enfermeira, etc.), interagindo com ela no sentido de troca de experiências e informações, e ajudando nas tarefas e atividades. Os assistentes voluntários têm muito a aprender com estas pessoas e vice versa.

Quanto ao relacionamento com as crianças, tanto nos grupos quanto no atendimento individual, quero frisar uma característica específica do nosso trabalho, que é a atenção com relação à oportunidade de naturalmente introduzir o ‘toque’, a partir principalmente da necessidade da criança. Um fato muito comum em creches quando da chegada de algum adulto é as crianças virem mostrar um machucado (real ou imaginário). Neste momento, as crianças em geral estão querendo, além de uma atenção especial, ser tocadas. Por trás desta atitude existe sempre alguma dor, seja ela física ou emocional, na verdade ambas, existe uma identidade funcional entre elas. Quando dizemos que alguém nos toca profundamente estamos querendo dizer que esta pessoa nos toca emocionalmente, que ela chega no fundo do nosso Ser.

Na realidade a maioria das crianças por não estarem ainda muito encouraçadas, consegue se desinibir com facilidade em relação a tocar e ser tocada, neste sentido algumas técnicas de grupo podem ser utilizadas como por exemplo um círculo de crianças onde uma faz massagem nas costas da outra.

O trabalho individual é feito com um assistente dando atenção especificamente a uma criança por um período de trinta minutos em geral, duas vezes por semana na maioria dos casos. Isto pode ser feito numa salinha nos moldes convencionais de atendimento individual, ou num salão com outras duplas criança-assistente. O importante é que o assistente esteja com a atenção basicamente centrada naquela criança, naquele espaço de tempo, o que é de inestimável valor para a compreensão do que estaria ocorrendo com a criança, em geral muito carente de atenção individualizada.

A partir do trabalho coletivo e/ou de sugestões do pessoal da creche vai ficando claro quais crianças precisam de atenção especial.

É interessante frisar que o trabalho individual é feito em rodízio de assistentes, ou seja, a mesma criança é atendida por mais ou menos cinco assistentes alternadamente. As razões desta medida são várias mas, a principal é o fato de que trabalhamos com voluntários, e o voluntário pode estar disponível hoje e amanhã não. Como ficaria esta criança se usássemos o método tradicional de atendimento já que são crianças com vários níveis de abandono? Desta forma a criança faz vínculo com o grupo de trabalho e não com uma única pessoa. Além disso, temos a vantagem de pontos de vista diferentes sobre a mesma criança. É fato que as crianças, assim como os adultos, comportam-se de forma diferente com pessoas diferentes (fato aliás bastante negligenciado), mostrando assim, diferentes facetas de sua personalidade. Mais importante ainda é o fato de que muito do tipo de neurose predominante se reproduz pela falta de alternativas de relacionamento saudável, estando a criança presa em estreitos círculos de relacionamento, coisa possível de acontecer também dentro de uma situação terapêutica individual.

Na supervisão os assistentes trocam idéias e impressões a respeito de uma determinada criança, formando assim uma visão mais ampla a respeito da mesma.

Utilizamos também um caderno para cada criança, contendo uma ficha com dados pessoais relevantes, inclusive situação familiar, condições financeiras e de moradia. A cada atendimento o assistente registra de forma breve o ocorrido, afim de que no próximo atendimento outro assistente possa estar informado do que estaria sendo trabalhado com a criança.

Realizamos mensalmente uma reunião geral com o pessoal do projeto e o da creche. Nesta ocasião são discutidas questões práticas e de relacionamento.

Para finalizar, vale frisar que todo o trabalho é feito de forma simples e prática, procurando descomplicar ao máximo questões já tão complicadas por si só.

III.            Como Funciona o Trabalho com os Grupos de Voluntários

Os grupos de voluntários serão recrutados basicamente de cursos universitários, principalmente da área de ciências humanas, quero lembrar no entanto que qualquer pessoa interessada que tenha disponibilidade de tempo pode participar.

Após o primeiro contato com o pessoal do projeto o voluntário passa por um período de integração de um mês, onde é acompanhado por uma pessoa do projeto para pouco a pouco ir inteirando-se do trabalho. Neste primeiro mês o voluntário permanecerá nos grupos, sempre acompanhado pela pessoa que estiver fazendo sua ‘integração’, participando também das supervisões e dos grupos de estudo. Ao término deste período, e após ter-se inteirado do andamento dos processos individuais, sentindo-se à vontade poderá participar dos atendimentos individuais. Caso a pessoa não se sinta à vontade, poderá permanecer nos grupos, acompanhada ou não, do assistente que fez sua integração.

Dentre os assistentes voluntários, as pessoas que tiverem formação necessária, mantiverem um nível de freqüência às aulas e às supervisões, estiverem basicamente a par do trabalho realizado e apresentarem uma funcionalidade na realização do mesmo, poderão ser escolhidas como supervisores, assumindo então a direção e supervisão de trabalho em outra creche, sem no entanto deixar a creche original, e passando a receber pelo trabalho de supervisão.

O supervisor dá supervisão ao grupo, coordena as reuniões e o grupo de estudo. A supervisão e as reuniões têm o objetivo de resolver questões técnicas e operacionais, procurando dissolver as angústias relacionadas ao trabalho.

O grupo de estudos concentra-se principalmente na obra de Wilhelm Reich e seus seguidores, todo o embasamento psicanalítico, técnicas de terapia infantil e massagem para crianças, procurando manter uma visão eclética e uma atitude aberta com relação às várias áreas de conhecimento.

Após quatro anos de participação com uma freqüência mínima de 75% das aulas, supervisões e trabalho nas creches, o voluntário recebe um certificado de participação no projeto. Caso tenha a formação universitária necessária poderá complementar seus conhecimentos e obter certificado de formação em terapia reichiana.

Caso no futuro o projeto venha a ser implantado em outras localidades (já existem planos de implantação em São Paulo), o supervisor que estiver apto para tal e que tenha o desejo e a intenção de fazê-lo, será então designado coordenador regional.

IV.            Conclusão

O acentuado caos social em que nos encontramos tem suas raízes nas distorções culturais e em cada indivíduo em particular, preservando-se de geração em geração através da educação inadequada realizada em condições gerais desfavoráveis. O Projeto Toque-Toque busca intervir no ponto onde estas forças se encontram, a criança em contato com a cultura distorcida e desfavorável ao seu desenvolvimento natural.

É durante a gestação e nos primeiros anos de vida que os mais graves problemas de toda ordem se instalam. Quanto mais cedo estes problemas forem detectados e trabalhados, melhor o prognóstico de tratamento e maior a possibilidade de uma vida mais saudável e natural para a criança e para as futuras gerações.

Quanto a nós mesmos, quem melhor do que as crianças para nos mostrar o caminho de volta ao ser natural.

Apêndice

Algumas Informações Relevantes

1.                 O toque é uma necessidade primária, é tão necessário quanto a comida, a vestimenta ou o abrigo.

2.                 A pele é o maior órgão do corpo humano. Corresponde a 18% do nosso peso corporal e cobre aproximadamente 1,7 metros quadrados.

3.                 Pesquisas com crianças altamente privadas de toque mostram que importantes setores de seus cérebros ficaram quase inativos, interrompendo áreas inteiras de desenvolvimento.

4.                 Uma vez que a massagem, tal como a cocaína, estimula a produção de endorfinas, a falta de toque pode levar a comportamentos drogadictos.

5.                 Voluntários acima de 60 anos receberam três semanas de massagem, depois foram treinados para massagear crianças. Dar massagem provou-se mais benéfico do que receber.

6.                 A massagem melhora a capacidade de concentração de crianças autistas.

7.                 Existem aproximadamente 5 milhões de receptores de toque, 3 mil numa única impressão digital, que enviam mensagens para o cérebro.

8.                 Um simples toque, mão no ombro, na cabeça, pode reduzir o ritmo cardíaco e baixar a pressão sangüínea. Mesmo pessoas em coma profundo podem apresentar melhoras no ritmo cardíaco quando se segura suas mãos.

9.                 O toque também estimula o cérebro a produzir endorfinas, o supressor natural da dor no corpo, o que explica por que um afago de mãe na criança que ralou o joelho o faz ficar melhor.

10.           É comprovado que bebês definham e morrem com ausência de toque. É bastante provável que o mesmo ocorra com os mais velhos.

Bibliografia:

A Magia do Toque – George Howe Colt

Análise do Caráter – Wilhelm Reich

Shantala – Frédérick Leboyer



* Darcio Valente Rodrigues é psicólogo pela PUC-SP-1975, psicoterapeuta reichiano, com clínica em São Paulo e Rio de Janeiro, ministra e coordena grupos de estudo e formação, é um dos fundadores da Associação de Terapia Corporal do Rio de Janeiro - APCRJ, e elaborador e coordenador do projeto Toque Toque. Tel. SP: 815-6119

                                                               RJ: 538-2612

 

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