Atenção a si e psicoterapia corporal: efeitos das auto-estimulações somatossensoriais sobre a atenção e suas implicações para o corpo, as emoções e a cognição.
Sinopse
A psicoterapia corporal emerge da clínica fundada por Wilhelm Reich a partir da psicanálise. Reich defendia uma perspectiva científico-natural para o desenvolvimento da teoria da libido, postulava que o foco da clínica deveria orientar-se para a estrutura do caráter mais do que para os sintomas, e desenvolveu técnicas específicas nesta direção: a análise do caráter e, posteriormente, a vegetoterapia caractero-analítica. Após analisar a cortina de fumaça política que encobriu as verdadeiras motivações da expulsão de Reich da Associação Psicanalítica Internacional, segue-se o exame comparativo das posições de Reich e Freud no âmbito do desenvolvimento da teoria e da clínica psicanalítica nas décadas de 20 e 30, enfatizando-se o modo como ambos os autores enfrentaram o problema da atenção e as implicações das respectivas posições ao entendimento das relações entre a consciência e o inconsciente. A seguir descreve-se a evolução da clínica da psicoterapia corporal inaugurada por Reich, passando pelas contribuições de Navarro até o novo paradigma da psicoterapia neurodinâmica (PN), cujos princípios clínicos e teóricos, em desenvolvimento por Xavier e Haldane, são apresentados pelo autor. A atualidade da neurobiologia do conhecimento sugere um importante papel para a experiência corporal na produção do sentido de Si (Self), suas implicações na experiência das emoções e dos sentimentos e revelam como estes afetam as atividades cognitivas superiores, a atenção e o campo de trabalho global da consciência. Os processos cognitivos superiores, por sua vez, afetam os agenciamentos emocionais e somáticos, configurando-se um processo de causalidade circular, porém assimétrica. O estudo da plasticidade neuronal ligada à formação de memórias autobiográficas e suas repercussões sobre a memória operacional sugerem que a neurodinâmica da atenção, das emoções, do sentido de Si e dos processos cognitivos superiores permite a reavaliação crítica da teoria reichiana da formação dos traços de caráter em termos neurodinâmicos, com o autor propondo que o inconsciente da subjetivação é formado por uma ‘membrana psíquica’ instaurada pelos traços de caráter e constituindo um terceiro nível de seletividade na rede neuronal. A análise qualitativa de alguns fragmentos clínicos sob a perspectiva da psicoterapia neurodinâmica (PN) é utilizada para demonstrar o efeito-moldura engendrado pela estrutura caracterológica em relação a vários aspectos da neurobiologia do conhecimento tais como o funcionamento da atenção, a formação de memórias inconscientes através da plasticidade sináptica e o conjunto da organização da subjetividade em termos da neurodinâmica relacional entre os aspectos emocionais e cognitivos da rede neurônios. O autor demonstra, qualitativamente, a validade da inclusão de experiências corporais no ambiente clínico enquanto um dispositivo de agenciamentos de causalidade ascendente que oferecem uma nova via de acesso para a clínica da subjetividade. Estima-se que os ‘proto’-resultados deste estudo prospectivo inicial contribui ao balizamento do campo para futuras pesquisas qualitativas e quantitativas que podem ajudar a construir a ponte que supera o ainda abismo do hard-problem.