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Orgonizando
(Orgonizing)

Produzido por José Guilherme Oliveira

O Paradigma Reichiano e
a Formação de Terapeutas: Algumas Reflexões

por Antônio Ricardo Teixeira

Conteúdo

Apresentação / Psicoterapias / O Psicoterapeuta
O Paradigma / O Orgonoterapeuta e o Paradigma Reichiano
A Formação / Conclusão / Bibliografia

APRESENTAÇAO

Este texto reúne algumas reflexões sobre a identidade e a formação do terapeuta reichiano, conforme minha visão particular, resultado de alguns anos de prática como "formador "de terapeutas, terapeuta, aluno e cliente. Utilizei também alguns textos e artigos de autores que auxiliaram na reflexão do tema, listados ao final.

Embora não acrescente nada de novo aos conteúdos aqui discutidos, tento ordenar e situar o orgonoterapeuta no universo das psicoterapias, marcando algumas diferenças básicas quanto ao entendimento dos modelos teóricos referenciais e quanto aos aspectos pessoais necessários à prática da psicoterapia e da orgonoterapia.

Tal diferenciação tenta marcar a mudança de paradigma proposta por W. Reich para o entendimento do Homem e sua relação com a Natureza tanto quanto na forma de explicar e intervir sobre o adoecimento psíquico e somático.

Procuro mostrar as diferenças entre psicoterapia, psicoterapia que utiliza técnicas corporais e orgonoterapia, com a finalidade de melhor referendar aos candidatos à formação terapêutica e contribuir para a diferenciação explícita dos campos conceituais possibilitando a construção de um modelo interdisciplinar de intervenção terapêutica.

Penso que tal modelo pode ser construído desde uma reflexão profunda quanto às bases paradigmática que estruturam teorias e modelam as técnicas terapêuticas, principalmente levando-se em consideração as descobertas de W. Reich.

Certo de que a colocação do problema não esgota sua abrangência, sei que muito ainda há para ser pensado e discutido antes de considerar o tema concluído. No entanto, neste texto, dou mais importância aos aspectos pessoais, técnicos e teóricos envolvidos no treinamento de terapeutas reichianos, dentro das condições atuais em que se encontram as psicoterapias e das possibilidades humanas disponíveis no contexto social em que nos encontramos.

Tento aqui situar minha visão do pensamento reichiano, como penso que pode se processar uma formação desta natureza e o que deve ser esperado dos alunos quanto a seu investimento pessoal/profissional.

Tais idéias podem ser consideradas uma base contratual que define possibilidades e limites, procurando evitar, se possível, os engodos das idealizações e expectativas irreais projetadas no processo de formação.

PSICOTERAPIAS

Desde Freud, com a teoria do inconsciente explicando a origem e os mecanismos do adoecer psíquico, a humanidade assiste ao desenvolvimento de várias formas de tratamento psicológico a que chamamos de psicoterapia. "Psicoterapia, em sentido genérico, é todo tratamento mediante o qual uma pessoa treinada, utilizando meios psicológicos, auxilia outra a resolver seus problemas" (Cordioli, A. V.. 1993).

Os problemas em questão variam desde as crises situacionais, desencadeantes de sintomas brandos ou graves até problemas mais sérios como a cisão com a realidade (esquizofrenias). Crônicos ou agudos, os candidatos a uma psicoterapia são pessoas que, independente de seu nível de instrução, profissão, classe social ou da natureza de sua problemática, estão em busca de soluções para seus males.

Das diversas modalidades de tratamento existentes, encontramos aquelas que tem se mostrado mais eficazes e as que se perderam na inadequação de seus métodos. As que se mantêm, estão baseadas no sucesso do estabelecimento de um vínculo terapêutico onde cooperação se alia a recursos técnicos e habilidades pessoais do terapeuta, visando alcançar os objetivos propostos.

De um modo geral, todas as modalidades psicoterápicas tentam adaptar o indivíduo ao seu meio, desde que tal adaptação seja favorável ao seu bem estar. Esta perspectiva se baseia na capacidade humana de se controlar aplicada às tendências destrutivas e ao desenvolvimento de aptidões para o crescimento pessoal que se aplicam às relações sociais, à criatividade e ao amor.

"A atuação do terapeuta visa sempre o alívio e adaptação de seu paciente, mediante um processo terapêutico, dentro da técnica mais adequada aos seus próprios recursos pessoais" (Cardoso, E. R. G. 1985).

O amor, a criatividade e o trabalho são metas de realização pessoal que garantem a qualquer indivíduo um lugar social satisfatório e que permitirá que este seja reconhecido como um indivíduo saudável, principalmente se estiver suficientemente desenvolvida a capacidade de lidar com conflitos evitando-os ou solucionando-os.

Uma psicoterapia será tão mais eficiente quanto for capaz de libertar seu cliente de seu sofrimento e propiciar desenvolvimento pessoal. Tais objetivos são gerais e estarão sempre circunscritos ao momento histórico, ao contexto social e ideológico do cliente e do terapeuta e à visão de Homem que permeia todas as intervenções.

É importante assinalar que as teorias e técnicas desenvolvidas nos últimos 100 anos derivam da tentativa de se compreender os comportamentos desadaptados relacionados ao sofrimento humano e solucioná-los. A solução passa, sempre, pelo direcionamento do ego para o mundo, seja no nível dos afetos, da inteligência ou da criatividade.

Na construção, elaboração e utilização de técnicas psicoterápicas visando a diminuição do sofrimento estão sempre implícitas perguntas de ordem filosófica, tais como: o que é o ser humano?; porque existimos?; a vida tem alguma finalidade?; porque o Homem sofre?; o que é viver plenamente?; etc. Questões estas que transcendem aos limites do cotidiano levando as pessoas a refletirem a sua condição em níveis cada vez mais amplos. A profundidade que se alcança neste caso, através das psicoterapias, depende da base ideológico/filosófica da Escola psicológica em questão e do grau de comprometimento patológico. Ou seja, o que se está tratando e como se vê aquilo que se trata.

Podemos considerar 3 tipos de visão do Homem que, em maior ou menor grau, permeiam as posições dos psicoterapeutas. São as visões ingênuas, as pessimistas e as otimistas do Homem sobre si mesmo e a Natureza. As visões ingênuas são as que estão mais a serviço da ideologia dominante, as que se preocupam apenas em remover os sintomas e tornar o indivíduo produtivo e adequado à sociedade. Procuram simplificar, ao máximo, a problemática, adotando medidas superficiais para questões profundas e realmente difíceis. Propõem técnicas de relaxamento, calmantes, exercícios, etc., sem se preocupar em examinar mais a fundo os conflitos e buscar soluções duradouras e significativas. As visões pessimistas são as que vêem o Homem como um ser basicamente angustiado e infeliz, tendo que lutar constantemente contra uma Natureza hostil e cruel. Tal visão valoriza a luta pela felicidade mas considera que esta virá das fontes externas de satisfação que se possa conquistar. Nas visões otimistas ou positivas do ser humano encontramos a seguinte posição: a essência humana é positiva e quer meios favoráveis para se realizar. Tais meios deverão ser dados pelo próprio ego concomitante à organização social a que pertence o sujeito. A crueldade da Natureza não é negada, tampouco a necessidade de que se lute para ser feliz. Mas tal felicidade não virá exclusivamente das aquisições e conquistas no mundo externo, embora estas também tenham sua importância, mas da possibilidade de se libertar e manter ativa a essência humana, desde suas raízes mais profundas.

Poucas abordagens psicoterápicas enfatizam este aspecto e dão uma base experimental para demonstrar a tese de que a essência humana é positiva. Embora a maioria considere que o ser humano pode dominar suas tendências destrutivas e valorizar os aspectos positivos, poucas reconhecem e compreendem a natureza desta essência. É preciso uma mudança de paradigma para se compreender este enfoque.

As psicoterapias em geral estão voltadas para os aspectos sociais, eróticos ou criativos do Homem, enfocando a sua produtividade nestes campos. Embora muitos avanços tenham sido feitos na busca de melhores resultados, principalmente nas psicoterapias que se baseiam na relação terapêutica (transferência) como principal instrumento de transformação, ainda assim estamos diante de um cenário fragmentado e pouco cônscio de si mesmo. Como diz Cardioli, "Na verdade, embora se conheça muito mais atualmente sobre os processos que ocorrem na intimidade do paciente durante uma psicoterapia, estamos ainda longe de chegar a um consenso sobre o que faz com que ocorram as mudanças que se observam tanto ao nível da simples redução de sintomas agudos como ansiedade e depressão, como alterações mais profundas e duradouras da personalidade".

Creio que tal consenso só pode vir de uma mudança de paradigma que leve a perceber as múltiplas dimensões de interação do humano. Esta mudança vem da busca de um sentido mais profundo para a vida que, segundo Pierrakos, vem "ganhando impulso" nas últimas décadas.

Podemos concluir que as psicoterapias têm se esforçado no sentido de se tornarem eficazes na redução ou eliminação do sofrimento humano. Isto se considerarmos que o principal problema do ser humano é não sofrer. Mas, se além de não sofrer queremos também o resgate da nossa essência, teremos então que considerar que os objetivos e métodos propostos pelas psicoterapias em geral não são suficientes.

O PSICOTERAPEUTA

Segundo Cardioli, "O exercício correto da psicoterapia exige não apenas o conhecimento, ainda que profundo, de uma determinada técnica; deverá o terapeuta possuir um conjunto de qualidades pessoais como sensibilidade, empatia, interesse autêntico, respeito aos valores éticos e pessoais, flexibilidade, boa capacidade de relacionamento e de comunicação. Tais características exigem, para o seu aprimoramento, longos anos de supervisão e, habitualmente, de terapia pessoal".

Vemos por esta definição que os psicoterapeutas não são seres extraordinários dotados de poderes mágicos, embora os bons terapeutas saibam que também os leigos podem realizar ações terapêuticas desde que reunam, dentro de si, condições pessoais favoráveis. Mas, para o psicoterapeuta, o terapeuta que existe dentro dele necessita de conhecimento teórico, técnico e desenvolvimento de suas aptidões.

É consenso entre os psicoterapeutas que os melhores resultados obtidos numa psicoterapia são uma função direta do relacionamento terapeuta-cliente. Mesmo nas modalidades que não lidam com o fenômeno da transferência, o relacionamento clínico tem que ser favorável. E, as condições pessoais do terapeuta são fator determinante, como cita Elenir Cardoso (1985) quando se refere ao que diz Wolberg: "A pessoa do terapeuta é a variável mais importante no processo terapêutico, sendo que sua personalidade e experiência atuam sobre o resultado. O terapeuta eficiente possui qualidades que inspiram, no paciente, esperança, fé, confiança, gosto e liberdade para responder. Genericamente falando, o terapeuta é honesto, sincero, tem capacidade para reagir às pessoas, confiança no que faz, firmeza nas abordagens, é autêntico, tem compreensão empática. Evidentemente, segundo estas características, cada terapeuta reagiria de maneira diferente às diferentes pessoas". Vemos portanto que, para se tornar um bom terapeuta é necessário que se leve em consideração o ser humano que se é.

Outros autores dão ênfase também às seguintes qualidades: liberdade pessoal do terapeuta, simplicidade, criatividade, auto conhecimento, intuição, capacidade de escuta, maturidade, conhecimento, talento, auto crítica, ambigüidade, honestidade, etc. E ainda a importância de que o terapeuta tenha "fontes de satisfação e segurança, para que não use o paciente como sua própria fonte de segurança" (Fromm-Reichmann).

Outro aspecto importante a ser superado pelo terapeuta é a tendência idealizada de seu papel social. O leigo pode ter 2 tipos de imagem idealizada: a de que o terapeuta é um farsante que inventa soluções e a fantasia de que o terapeuta é alguém com poderes mágicos, que tem resposta para tudo e vive sem angústia. Tais fantasias se originam do temor da dependência levando o indivíduo a desconsiderar qualquer possibilidade de ajuda real ou da atribuição à figura do terapeuta de um ideal de ego perfeito e infalível. Os terapeutas são responsáveis pela superação em si mesmos e nos demais (leigos) destas tendências ilusórias. Como diz E. Cardoso: "A imagem profissional e idealizada pode tornar-se não só a visão do leigo, mas a própria defesa do terapeuta para esconder sua insegurança, impedindo-o de observar-se e ao outro em sua atuação". Muitos desapontamentos quanto aos terapeutas e suas teorias são decorrentes de idealizações não elaboradas.

Qualquer indivíduo que se enquadre dentro de padrões mínimos de normalidade, tenha dentro de si as qualidades pessoais necessárias e se esforce para aprender teorias e técnicas, além de buscar, sempre, seu desenvolvimento pessoal, estará apto a ser um bom terapeuta.

É muito importante frisar a necessidade de que todo terapeuta passe, ele mesmo, por um processo terapêutico dentro da abordagem por ele escolhida. Além do que, como afirma Masud Khan: "...poucos diriam que alguém busca a formação analítica simplesmente para adquirir uma habilidade para ajudar a cura dos outros, sem que haja uma necessidade básica de cura de si mesmo".

O PARADIGMA

Imaginemos dois grupos de astrônomos conversando sobre o movimento dos astros. Um deles ainda pensa que a Terra é o centro do universo, o outro já sabe que não é. Certamente terão muita dificuldade de se entender. Imaginemos agora dois grupos de psiquiatras discutindo sobre a loucura e suas origens. Um deles conhece as idéias de Freud que, com a descoberta do inconsciente , nos mostra que o Homem não é senhor absoluto de sua vontade. O outro ainda não conhece esta idéia. Podemos deduzir que suas discussões serão atravessadas pelo desentendimento , pois não se conhecerão as referências teóricas de ambos, reciprocamente. Cada um tentará explicar a loucura segundo seu próprio referencial, e podemos estar certos de que faz uma enorme diferença considerar ou não a existência do inconsciente.

Estes e outros exemplos nos mostram que o conhecimento que tenta explicar os fenômenos está sempre referido a algo a que chamamos de paradigma. Os paradigmas vão sendo modificados a medida em que avança o conhecimento e torna-se possível encontrar novas explicações para os eventos de um determinado campo de investigação.

Até nossos dias o Homem vem se esforçando para provar verdades que foram intuídas ou hipóteses que surgiram da análise objetiva dos fatos. Chamamos a este intento de Ciência, e, através dela procura-se respostas para a multiplicidade de fenômenos da Natureza. Uma das formas científicas de se tentar validar uma conclusão ou hipótese é através do uso de aparelhos. Hoje não se discute mais se a Terra é redonda ou não pois muitos navegadores, usando seus barcos, puderam contornar o planeta, e também podemos voar pelo espaço sideral e constatar que a Terra é redonda e não é o centro do universo. Temos uma base experimental para sustentar nossas afirmações.

Temos então que alguns paradigmas são comprováveis cientificamente e outros não. E o fato de não o serem não os invalidam como paradigmas, pois um paradigma pode agir como crença, dogma ou verdade absoluta sem que nenhuma base experimental lhe seja dada. Sabemos que não há nenhuma máquina capaz de provar a existência do complexo de Édipo na mente humana, pois este é apenas dedutível por uma operação mental a que chamamos de análise. É a análise da fala que remete a conclusões sobre a estrutura mítica do funcionamento mental. São modelos conceituais (metapsicologia) que servem como paradigma ao psicanalista.

Quando eu tinha 18 anos ouvi uma estória inesquecível. Atualmente ela me tem sido trazida à memória por diversas fontes. Trata-se da estória dos cegos e do elefante. Seis cegos que pediam esmola numa estrada queriam muito conhecer o elefante. Um dia, um viajante lhes deu a oportunidade de realizarem seu desejo e levou-os ao encontro do elefante. Pôs um dos cegos segurando a tromba, outro a cauda, o terceiro a orelha, o quarto a pata, o quinto a barriga e o sexto segurou as presas. Cada um deles dizia que sabia, agora, como era um elefante e suas opiniões eram dadas pela definição das partes que seguravam, o que os fazia discordarem entre si. Relembro esta estória pois se encaixa muito bem com o uso que fazemos dos nossos paradigmas, principalmente se os tomarmos como verdade única sobre fatos, eventos ou fenômenos. Sempre estamos nos arriscando a tomar o todo pela parte, principalmente quando estamos diante de uma nova descoberta. Se a medicina descobre a existência de um vírus na depressão, por exemplo, vemos imediatamente a tendência de procurar meios para eliminar tal vírus para que não mais haja depressão, como se fosse sua única causa. É portanto errôneo não correlacionar, ou seja, não ouvir os outros cegos para tentar montar um quadro mais completo possível do elefante. No conhecimento atual essa tendência tem o nome de Holismo.

Enquanto terapeuta das questões psicoemocionais, sempre tentamos entender, as vezes de modo intuitivo, outras de modo formal, qual é o paradigma que baseia o funcionamento mental de nossos clientes para entendermos o que explicaria seu sofrimento. O papel da mulher na sociedade do início do século fazia com que o fenômeno da histeria tivesse conotações bem diferentes das que se tem hoje, sobre o mesmo fenômeno.

Nossos paradigmas estão determinando nossas ações e modos de conduzir nossas vidas, quer de modo consciente ou não. E, para melhor entendermos o outro, é importante compreendermos sua base referencial.

O ORGONOTERAPEUTA E O PARADIGMA REICHIANO

A Orgonoterapia foi assim nomeada por W. Reich desde que este descobriu a existência de um tipo de energia em nossos organismos, diferente do que se entendia até então como energia vital. Chamou-a de orgon e estudou suas propriedades. Postulou, então, uma base energética para o funcionamento psíquico e orgânico. Desenvolveu um método terapêutico baseado nas novas descobertas a que chamou de orgonoterapia. Tal método pressupõe conhecimentos específicos de como se estrutura o psiquismo humano, sua correlação com o corpo e com as propriedades desta energia. Procurou compreender mais profundamente duas tendências básicas de funcionamento: o funcionamento encouraçado e o funcionamento desencouraçado. No primeiro Reich encontra a fonte dos distúrbios psíquicos, somáticos e sociais e no segundo, a fonte da criatividade, inteligência em favor da vida e do amor.

O paradigma reichiano se define por uma autêntica fé na vida, desde que esta encontre meios para se realizar. Reich apostava na esperança de que as sociedades do futuro serão capazes de construir a verdadeira civilização humana, onde o sistema social não se oporá as leis da natureza que se manifestam no homem desde a sua concepção em fase embrionária. A vida seria preservada pelas regras sociais desde o seu surgimento até o último suspiro de cada ser vivente e tal preservação se daria pela compreensão clara de todas as necessidades básicas do humano nas principais fases de desenvolvimento, desde a infância. Atualmente, quase 50 anos após sua morte, suas idéias vem sendo postas em prática por famílias e escolas que perceberam a importância de se minimizar os efeitos danosos de um sistema educacional autoritário.

Embora saibamos que as mudanças sociais propostas pelos melhores pensadores da vida só são absorvidas ao longo do processo histórico, e levam muitos anos para serem integradas ao cotidiano das pessoas, podemos dizer que Reich, com seu pioneirismo, demonstrou que tão cedo não veremos uma sociedade tão boa e justa para se viver, porém, podemos em muito melhorar nossa qualidade de vida desde já.

A partir do conhecimento das leis de organização e funcionamento da vida, Reich propõe uma mudança de paradigma que permite ao homem se reconhecer não somente pela sua inscrição social (profissão, função familiar, capacidade de liderança, etc.) mas também por sua relação com a natureza. O conceito de cerne biológico nos permite estarmos abertos para uma relação com a vida onde as prioridades são determinadas pelo contato com a essência de cada um. Cabe, neste ponto, recorrermos ao entendimento das funções energéticas diferenciando as autênticas expressões da vida das manifestações distorcidas do funcionamento humano (couraça).

Devemos então considerar que o orgonoterapeuta é alguém que se instrumentaliza na busca do entendimento do ser humano em suas expressões mais autênticas, não somente subordinadas a suas demandas adaptativas. Não nos atemos à despatologização, embora esta tenha sua sagrada importância, mas, acima de tudo, procuramos compreender as expressões que emanam do cerne biológico de cada um, quando este quer e pode se manifestar. Reich tenta nos mostrar que nossa relação com a vida não se limita a nossa inscrição sócio cultural, mas também que somos parte da natureza que vem se organizando antes da cultura. O que temos a fazer é aprender a filtrar nossas percepções de tal modo que possamos discriminar as origens de nossas demandas tanto quanto de nossos clientes incluindo em nosso enquadre nossas próprias sensações.

"Trata-se exclusivamente de resguardar a integridade do aparelho sensorial, nosso instrumento de pesquisa. Esta condição não é um "dom" nem um "talento", mas o resultado de um esforço contínuo, um exercício ininterrupto de autocrítica e autocontrole... Sem um sistema sensorial perfeitamente límpido e sem os meios de desanuviá-los quando apresente opacidades irracionais, é impossível alcançar as profundezas da estrutura caracterológica do Homem e descrever objetivamente os processos da Natureza". ( W. Reich - "Éter, Deus e o Diabo")

O Orgonoterapeuta é, portanto, alguém que busca conhecer a linguagem da vida no sentido mais profundo que se possa alcançar. Seu "aparelho sensorial" é seu instrumento de investigação. Isso significa que sua capacidade de contato é essencial para determinar os rumos do processo terapêutico, que deve ser também tomado como um espaço de investigação, embora para muitos terapeutas esta seja uma tarefa que não tomam para si. Buscam apenas obter os resultados clínicos esperados, empenhados apenas em ajudar seus clientes. Porém, mesmo assim, considero inerente ao método terapêutico a atitude investigadora, mesmo que esta não se transforme em trabalhos publicados que contribuam para os avanços da teoria e da técnica.

Diferenciar o orgonoterapeuta de um psicoterapeuta ou mesmo de um psicoterapeuta que utiliza técnicas corporais requer o entendimento de uma fina, porém significativa linha divisória que separa estes campos de intervenção.

Do ponto de vista das qualidades pessoais de cada um, creio que não há grandes diferenças entre o que se espera de um psicoterapeuta sério e de um orgonoterapeuta. Acrescentaria somente ao segundo que tenha suficiente entendimento e clareza quanto aos efeitos da repressão sexual na estruturação de seu caráter e que se sinta suficientemente livre de conflitos de identidade sexual. Tal condição é fundamental para compreender e ajudar os clientes a lidarem com suas angústias genitais, principalmente quanto a preconceitos e apreensões.

O segundo ponto que considero importante ressaltar é que, enquanto o psicoterapeuta pode estar representando um papel, que tem sua importância na recuperação de seu cliente, o orgonoterapeuta, pelo entendimento das questões do ponto de vista energético, está cumprindo uma função. E para tal, sua capacidade de contato é o que requer maior prioridade. Deve ter sido suficientemente terapeutizado para lidar com intensas manifestações emocionais , que numa psicoterapia comum podem ser evitadas. Compartilhar as sensações e emoções do cliente enquanto alguém que está se abrindo para sentir a vida dentro de si, o que na maioria das vezes não é tão fácil quanto possa aparecer.

A dissolução de uma couraça requer sensibilidade, paciência, tolerância e habilidade no trato com os diversos modos de manifestação das defesas caraterológicas, além de aceitação dos limites impostos por situações externas ao contexto relacional ou mesmo do próprio cliente quando prefere não avançar no processo. O medo da sociedade é um dos problemas mais difíceis de solucionar pois requer a reconstrução do superego quando este assume formas extremamente rígidas.

O outro ponto importante refere-se ao modo de pensar do terapeuta. Reich baseou suas investigações e conceitos teóricos numa forma de pensar a que chamou de pensamento funcional. Tal técnica de raciocínio inclui e considera as sensações do investigador diante de seu objeto de estudo e se define por algumas regras quanto às funções existentes no vivo. Considera as formas de pensar tradicionais como principal obstáculo ao avanço do conhecimento pois se baseia no funcionamento encouraçado que determina duas formas típicas de pensar: a forma mística e a forma mecanicista. Para Reich, só é possível sair desta dualidade pelo resgate do funcionamento do vivo dentro de si, e pela compreensão das regras deste funcionamento. Devemos então, a parti daí, compreender a saúde como resultado de um funcionamento integrado da energia e da matéria orgânica que se expressará sobre a forma da pulsação conjunta.

Talvez o principal efeito danificador do encouraçamento seja a dissociação da consciência de si mesmo como parte integrante da Natureza. Tal dissociação pode levar à resignação, tanto quanto ao anseio místico de recuperação do contato perdido e a necessidade de ordenação mecânica das manifestações da natureza. Para Reich, o desencouraçamento deve ser visto como o ponto de partida para que se modifiquem as formas de pensar que destorcem a relação do Homem com a Natureza.

Para o terapeuta de base orgonômica, o entendimento desta diferença é fundamental para a orientação de sua prática. Temos aqui uma mudança de paradigma que incorpora noções desenvolvidas pelo homem ao longo da História, que se mostraram incompatíveis, mas que em Reich podem se integrar, desde que sejamos capazes de reconhecer a inconveniência de certos modos de pensar que nos foram dadas pelos esforços incompletos do Homem na tentativa de compreender a si mesmo e a Natureza.

No meu entender, a perspectiva reichiana permite que se lance um olhar multidisciplinar sobre o Homem e seu adoecimento, que se visto de forma mística, conduzirá ao dogmatismo. Se tomado de forma mecanicista, cairá no ecletismo caótico, incoerente e performático, de eficácia duvidosa.

Vemos aí que todo orgonoterapeuta, sem exceção, não escapará de uma revisão autocrítica e reordenadora de sua própria forma de pensar, uma vez que vivemos e fomos educados dentro do modelo mecânico místico, perpetuado pela civilização judaico cristã ocidental. Acredito que a maior resistência em aceitar o paradigma reichiano se deve a dificuldades em aceitar a necessidade de se tomar criticamente as formas de pensar que estão incrustadas e automatizadas em nosso modo de vida. Esta é, sem dúvida, uma das tarefas mais árduas que se pode dar ao ser humano pois significa, muitas vezes, reconhecer o desencontro que há entre o que realmente somos como parte da Natureza e a imagem de nós mesmos que queremos ver sempre reafirmada no espelho de nossas atitudes, o outro.

Tal diferenciação entre o psicoterapeuta e o orgonoterapeuta não significa que o segundo deva descartar as teorias do primeiro, principalmente porque a orgonoterapia nem sempre é indicada pois, dependendo do grau de comprometimento de cada cliente, é necessário que se utilize outro tipo de intervenção até que este possa responder favoravelmente à orgonoterapia. O orgonoterapeuta bem instrumentalizado saberá diferenciar os casos em que sua técnica deve ser adiada em favor de algo mais adequado para seu cliente. Se estiver capacitado, ele mesmo poderá intervir neste sentido. Caso contrário, deverá encaminhar seu cliente a um colega para realização da tarefa exigida.

Uma das características mais favoráveis a um bom terapeuta é a humildade. Ser capaz de reconhecer seus limites tanto no que concerne a sua técnica quanto a sua própria pessoa significa possibilidade de crescimento legítimo e amadurecimento pessoal e profissional. É bom saber que não passamos de seres humanos tentando construir e preservar algo melhor, sem deixarmos de ser uma ínfima parcela do universo, disposta a assumir aquilo que propaga.

Gostaria de citar também a importância de que cada um procure assumir sua verdadeira identidade, pois é fundamental que se possa "ver com seus próprios olhos o que está diante dos seus olhos". Conhecer a forma como conhecemos nos permite flexibilizar o contexto ao invés de, simplesmente, reproduzir a partir dos modelos que internalizamos. O olhar rígido verá rigidez onde deveria ver apenas rigor.

A orgonoterapia, tal como foi concebida por Reich, resume-se em poucas técnicas utilizadas com sensibilidade, arte e habilidade por parte do terapeuta, somadas à aceitação e cooperação do cliente, cujo empenho pessoal é fundamental. Somamos a isto as condições pessoais de ambos. Sabemos que nem todos os organismos encontram-se preparados para lidar com a intensidade energética que pode se mobilizar. O orgonoterapeuta deve então estar preparado para discriminar aqueles que podem responder favoravelmente à técnica daqueles que precisam de outro tipo de intervenção.

Seu objetivo é o estabelecimento da potência orgástica, entendida como principal mecanismo de auto regulação do organismo saudável. Expressa-se pela total capacidade de entrega aos movimentos involuntários no orgasmo e requer condições específicas, tanto ao nível do ego quanto do corpo. Requer desidentificação dos traços neuróticos de caráter, amadurecimento do ego e flexibilidade neuromuscular. Pode ser vista como um estado de amadurecimento geral da pessoa que permite o relacionar-se bem consigo mesma e com o mundo. Não significa ausência de conflitos nem mesmo de angústia. É apenas uma condição que permite a manutenção da saúde geral do organismo, tanto quanto a transcendência do eu aos papéis sociais estabelecidos.

Enquanto nas psicoterapias estamos empenhados na resolução do conflito e definimos nossa técnica de acordo com a natureza do problema, as possibilidades do cliente e os recursos do terapeuta, na orgonoterapia buscamos o estabelecimento de uma condição permanente de funcionamento que é inerente à natureza humana e foi chamada por Reich de potência orgástica, aspecto básico do caráter genital.

Como a potência orgástica requer meios específicos para sua realização, é preciso considerar a existência de tais condições em cada cliente. Neste ponto, podemos considerar a orgonoterapia como um passo a mais na evolução terapêutica proposta por Freud. Ou seja, a psicanálise é uma modalidade terapêutica que se propõe a estabelecer uma mudança estrutural caracterológica, sendo que difere da orgonoterapia quanto à técnica e quanto a importância do estabelecimento da potência orgástica, tal como é definida por Reich.

O funcionamento da energia orgone e o conceito de potência orgástica já estão referidos a outro paradigma, diferente do conceito de libido (freudiano). O conceito de libido é uma abstração compreendida metapsicologicamente, enquanto que a energia orgone é uma energia física tangível, demonstrável experimentalmente. Manifesta-se no corpo através das sensações e seus efeitos são compreensíveis pela leitura corporal, ou seja, linguagem das expressões não verbais, posturas, atitudes, etc. que combinados com as verbalizações, dão uma visão de conjunto do funcionamento geral do indivíduo.

A utilização de técnicas corporais nas psicoterapias é de grande ajuda pois agiliza a resolução de conflitos e melhora o estado geral de funcionamento. Desbloquear emoções reprimidas, aumentar a capacidade respiratória e o contato consigo mesmo através do corpo é de grande ajuda na obtenção de insights essenciais para o sujeito na busca de seu entendimento pessoal. São passos importantes do processo de desencouraçamento que, aplicados à psicoterapia, ampliam suas possibilidades, assim como dramatizações, técnicas projetivas e imaginação ativa também são recursos de grande valor, se corretamente aplicados.

Porém, esta melhora geral do funcionamento, pode não se traduzir por uma mudança estrutural. Isto pode ocorrer por várias razões, como por exemplo: o cliente dar-se por satisfeito com os resultados obtidos até então; existência de temores inconscientes mascarados pela forma de viver do indivíduo ( causa mais comum); falta de condições físicas e problemas externos desfavoráveis ( família, trabalho, etc. ) e, o que considero principal, o terapeuta não ter suficiente entendimento do paradigma que sustenta a ação terapêutica capaz de efetuar tal transformação.

A FORMAÇÃO

Todo terapeuta que busca melhor qualidade para o seu trabalho sabe da importância de tentar resolver seus conflitos pessoais, principalmente no que se refere à sua identidade pessoal. Deverá buscar ser capaz de estar nitidamente situado diante de seu cliente, tratando de ser ele mesmo, pois nunca poderá pensar com a cabeça de outro ou sentir e agir como se não fosse alguém independente. Os que tentam imitar seus terapeutas, supervisores ou professores estão fadados ao fracasso pois estão negando seu próprio eu, base para a manutenção da autonomia. Na verdade, refletem um conflito de identidade que deve ser tratado terapeuticamente tão logo se evidencie.

Este é um dos aspectos essenciais a ser considerado no processo de formação em questão pois todo terapeuta, assim como o autor de uma idéia nova ou de uma obra de arte, deve estar preparado para assumir a autoria de suas intervenções. Precisa autorizar a si mesmo a exercer sua individualidade no processo que conduz, buscando superar a onipotência que pode lhe conferir uma autonomia por formação reativa e não pela assunção de seu próprio eu. Subjaz, neste caso, o medo da autoridade e a angústia de castração.

Esta é uma condição básica para o entendimento e aplicabilidade do paradigma reichiano pois submissão ou reatividade a figuras de autoridade não combinam com potência orgástica.

Toda autonomia reativa está baseada no medo e pode conduzir a conflitos desnecessários, luta pelo poder ou atitudes que só trazem prejuízos ao processo de crescimento dos que querem ser bons terapeutas.

Ninguém é capaz de dar autonomia a outro. A autonomia é uma conquista individual que começa na relação com a família de origem. Aqueles que ainda não se libertaram de sua dependência familiar, tem dificuldades de se posicionar de modo independente diante do mundo adulto. Carregam sua necessidade de dependência para todas as relações que envolvam figuras de autoridade. No processo de aprendizagem tendem a considerar seus professores, não como referência para a construção de seu saber, mas sim como substitutos dos pais, a quem se mantêm ligados por carência ou por amor. Tendem a confundir a boa acolhida que possam ter dos seus professores com adoção, e, quando percebem que ali também não encontram as figuras parentais idealizadas, desapontam-se consigo mesmas e com os demais, tendendo a verem-se sempre fracassadas. Tal desapontamento pode levar ao ódio, tanto quanto ao desespero de não terem sido capazes de conquistar o amor de seus pais e sua permissão para serem eles mesmos.

Podemos encontrar a mesma posição em que m ocupa o lugar de "mestre". Os "mestres" são aqueles que se põem no lugar dos pais libertadores, idealizando a si mesmos e oferecendo-se como agentes de libertação do outro ( pais bonzinhos! ). A verdadeira autonomia não se dá . É uma conquista de cada um, por si mesmo. Estes "mestres" tem enorme dificuldade de reconhecer a autonomia dos "discípulos" ou por acharem que eles dependem de sua proteção ou por desejo de dominação. Tais "mestres" podem se ocultar atrás de máscaras libertárias que, no fundo, são prisões.

Isto não invalida a quantidade e a qualidade do conhecimento que possam ter, e mesmo sua habilidade enquanto técnicos. Porém, a relação de troca ou transmissão deste saber pode estar permeada por um pacto mútuo, inconsciente ou não, onde os lugares de aluno e professor estão revestidos de uma idealização recíproca. Creio que a solução para este difícil problema, o da idealização, está em não se preocupar em saber apenas o tema de estudo, mas também procurar saber de si mesmo nesta relação. Esta é uma atenção que ambos devem ter pois, enquanto humanos, nunca estaremos livres totalmente da ilusão, fonte dos enganos que geralmente cometemos quando atribuímos, uns aos outros, nossas esperanças, desejos e temores. Só o despertar da consciência pode nos livrar dos engodos que criamos com a finalidade de não ver o quanto dependemos de nós mesmos para crescer. Um processo terapêutico pode se estender por anos a fio se o cliente e o terapeuta não trabalharem juntos na construção da independência pessoal do cliente.

O mesmo pode acontecer numa relação de ensino. A transmissão do conhecimento sempre tende a colocar o que não sabe, ou sabe menos, no lugar de dependência. E, se aquele que aprende se acomoda ou se submete, estará instaurada uma relação de aprendizagem carregada de fantasias de inferioridade e de onipotência. Seu final tenderá a ser trágico se ambos não se protegerem, através da autocrítica, e cada um assumir o seu lugar sem maiores pretensões.

O terapeuta que está se preparando para lidar com emoções reprimidas, ansiedade e temores não pode nunca se esquecer de si mesmo, pois, por mais poderoso que seja seu instrumento técnico, sua posição diante do cliente tem que ser fundamentalmente autêntica. Seu treinamento requer desenvolvimento da sensibilidade e autodomínio, pois sempre estará aberto, sensível e sob controle. Não é concebível que sua formação se dê sem uma passagem profunda por sua própria terapia, que deve vir a ser sua maior fonte de apoio no desenvolvimento de sua segurança pessoal. O desenvolvimento da competência não se dá sem uma base pessoal sólida, que se constrói, sempre em relação ao outro. É no jogo relacional que se desenvolvem os meios de se lidar com as questões humanas, envolvendo paixões, desejos, temores, etc.

A formação, conforme esta proposta, se utiliza dos próprios alunos que, dramatizando sessões, vão reproduzindo as situações de conflito e descobrindo soluções possíveis dentro das técnicas em estudo. Requer do aluno suficiente flexibilidade para experimentarem-se enquanto clientes e terapeutas tornando-se assim, os principais agentes do processo. Seus professores, além de transmitirem o conhecimento em questão, orientam e supervisionam a ação desenvolvida, auxiliando no entendimento dos elementos transferenciais envolvidos e no melhor uso da técnica.

Colocando-se, sempre, no lugar do cliente, o aluno estará treinando-se para refletir criticamente a posição de seu cliente, sua intervenção e os efeitos de sua ação. Não poderá ser um receptor passivo do conhecimento pois seu aproveitamento será uma função direta de seu próprio empenho pessoal, que juntamente com sua abertura e senso crítico traduzir-se-ão como liberdade para agir. Tal liberdade se conquista na medida em que se adquire confiança para experimentar o novo, o desconhecido, aquilo que não está prescrito.

Esta proposta de formação passa por três momentos distintos porém interdependentes: O primeiro é o da transmissão do conhecimento, onde são passados os conceitos teóricos que embasam esta prática. Requer dedicação ao estudo e reflexão crítica. O segundo é o da transmissão da técnica que envolve dramatização de sessões entre os alunos, para o desenvolvimento da sensibilidade e das aptidões. Tem-se aí a possibilidade de se ampliar a capacidade de contato, o senso crítico e de se adquirir conhecimento de técnicas e de como usá-las. O terceiro momento é o do crescimento pessoal, que depende da terapia pessoal do aluno e de sua própria disponibilidade para se modificar.

Vemos que o essencial para a aprendizagem é a dinâmica relacional. Partimos aqui da premissa de que, quanto mais livres de idealizações é a relação professor aluno, mais proveitoso será para ambos o processo em questão. Enquanto nos mantemos presos a um ideal de nós mesmos que buscamos alcançar ou ver nos outros, principalmente nos que representam o conhecimento, não somos capazes de nos modificarmos com o conhecimento, nem tampouco de intervirmos de forma modificadora. A forma de nos protegermos destas fantasias é pelo exercício crítico, pela tomada de consciência de nossa eterna falibilidade. A idéia que temos das coisas do mundo pode ou não corresponder a elas. Só a reflexão crítica é capaz de nos permitir adotar posições maduras diante dos fatos que nos cercam. Terapeutas incapazes de reconhecerem a si mesmos são inaceitáveis dentro de qualquer abordagem, principalmente diante do que propõe Reich. Desencouraçamento, potência orgástica, auto-regulação, são objetivos que só podem ser alcançados através do empenho pessoal, que, tanto na utilização da técnica quanto na análise do processo requer reflexão crítica profunda e amadurecida. Caso contrário, infantilizaremos a teoria vendo-a como um ideal fantasioso de prazer que só pode levar à idolatria ou ao desapontamento.

Portanto é fundamental que o processo de formação não seja a simples transmissão dos conceitos, que podem ser tomados como dogma ( religiosidade ) ou o ensino puramente técnico que fará desta a bengala de uma prática capenga.

Somente pela análise crítica dos erros e acertos cometidos poderemos aprimorar nossa ação, dando-lhe o respaldo necessário para que se cumpra como pretendido. O profissional da transformação não pode estar adormecido para este fato.

CONCLUSÃO

Embora saiba que o tema não esta esgotado, creio ter citado os principais elementos concernentes ao processo de formação como um todo. Sua abrangência seria maior se dedicasse mais algumas linhas a questões como: A particularização do processo de formação, ou seja, a importância de se considerar cada aluno em sua especificidade quanto a nível de conhecimento, condições pessoais, etc., ou aprofundasse na diferenciação do paradigma reichiano, refletindo sobre sua essência ou suas implicações sociais e na relação com o conhecimento em geral. Mas, procurei aqui me ater apenas a considerar os aspectos gerais do processo, principalmente aqueles que envolvem as idealizações ( mistificações ) do papel do terapeuta reichiano e suas implicações na relação de aprendizagem.

A desmistificação do processo de formação pretende mostrar que, nela, os indivíduos ( terapeutas ) não adquirirão o que não possuem. Sua autonomia, sua inteligência e sua sensibilidade poderão ser estimuladas ou desenvolvidas dentro de uma dinâmica favorável, porém nunca lhe serão dadas. O mesmo vale para o conhecimento teórico e técnico, que só poderão ser incorporados ao indivíduo por ele mesmo.

A responsabilidade dos professores é igualmente pesada no processo pois são, pela natureza de seu papel, co-autores do sucesso ou do fracasso. Principalmente se reivindicarem para si uma representação imaginária que não poderão corresponder. São responsáveis pela transmissão correta e coerente do conhecimento, pela reflexão crítica como um exercício e pela supervisão da prática realizada pelos alunos. São também transmissores de sua experiência no que tange a erros e acertos. Enquanto professores não somos juizes ou carcereiros e, muito menos, heróis libertadores. Somos apenas fomentadores de um processo que, se não for tomado por cada um de forma independente não funcionará, simplesmente.

"Há que se cuidar do broto prá que a vida nos dê flor" ( M. Nascimento e F. Brandt ).

BIBLIOGRAFIA

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_______________ Energia, Caráter y Sociedad - número 16 - 1991

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3 - Capra, F. O Ponto de Mutação - Ed. Cultrix

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5 - Khan, M. Masud Psicanálise: Teoria, Técnica e Casos Clínicos - Ed. F. Alves

6 - Pierrakos, John Energética e Essência - Ed. Pensamento

7 - Raphael, Chester Some Questions and Answers About Orgonetherapy - The Wilhelm Reich Museum

8 - Reich, W. Éter, Deus e o Diabo

9 - Reich, W. A Função do Orgasmo - Ed. Brasiliense

O autor:

Antônio Ricardo Teixeira é psicólogo, psicoterapeuta reichiano e coordenador do CeReich onde forma terapeutas.


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