| Produzido por José Guilherme Oliveira |
Veja também: Orgone e Funcionalismo Orgonômico, um artigo de Nicolau Maluf comentando esta obra.
A descoberta por Reich do orgone abriu uma perspectiva de integração do conhecimento humano, que no momento atual está tão especializado e fragmentado. Reich viu no orgone uma energia cósmica, primordial no sentido em que os fenômenos físicos e biológicos se originam de processos funcionais dessa energia. Esta possibilidade integradora depende não só do desenvolvimento da orgonomia enquanto ciência, mas é uma tarefa multidisciplinar abrangendo o desdobramento de todo o conhecimento científico.
No Experimento ORANUR, primeiro relatório (1947-1951), Reich analisa as relações entre a energia orgone e a energia nuclear. Capaz de um inspirado pensamento indutivo, Reich tenta justificar suas conclusões como se elas fossem fruto de um método hipotético-dedutivo. Ele parte para uma série de experimentos para comprovar o que já havia vislumbrado, mas seu conhecimento incipiente de física o levou a justificativas precipitadas ou errôneas que comprometeram a aceitação do seu trabalho pela comunidade científica. Entretanto, boa parte do que ele percebeu indutivamente estava correto ou muito próximo da verdade. Neste trabalho pretendemos retificar algumas proposições de forma a resgatar o essencial e facilitar a retomada de uma trilha de integração do saber.
Vamos analisar um dos principais conceitos propostos por Reich como
decorrentes das observações deste experimento:
A energia orgone (OR) é uma energia cósmica primordial
livre de massa que precede a matéria, em oposição
a uma energia nuclear (NR) secundária que sucede a matéria.
Só energia?
Em primeiro lugar, a partir das propriedades organizadoras do orgone, podemos percebê-lo como um PFC (princípio de funcionamento comum) entre energia e informação, como uma entidade dinérgica que engloba energia e conhecimento, capaz de ativamente fazer uso de sua energia de acordo com o significado que ela porta, promovendo atos sobre o mundo que percebemos como organizadores. Essa perspectiva é fundamentada em teorias mais recentes da física, que endereçam a questão da informação ativa, e incorporam uma física da ordem (do conhecimento / da consciência) à física da matéria.
A energia nuclear e a energia OR são mesmo antitéticas?
Uma segunda questão se refere ao próprio conceito do que seja energia nuclear. A energia nuclear propriamente dita é a energia que mantém unido o núcleo do átomo, é a energia de ligação do núcleo. Mas tanto Reich quanto o linguajar comum, falam da energia nuclear para se referir à energia liberada durante uma ruptura do núcleo, justamente quando ela deixa de ser nuclear e se torna a energia da radioatividade. Essa energia liberada assume diversas formas, uma parte é energia eletromagnética (raios X, gama, etc) outra parte é a energia cinética de partículas que são expelidas do núcleo no processo (pequenos núcleos, elétrons, neutrinos, etc).
A liberação da energia do núcleo pode se dar através de processos de fissão e de processos de fusão [ligação de dois núcleos menores em um maior]. Os experimentos com a fusão têm indicado uma energia "limpa", não poluente. O Sol e as estrelas são grandes reatores de fusão. O mais provável é que o embate da energia radioativa com o orgone se dê através de alguma peculiaridade do processo de fissão, e não com a energia do núcleo em si.
A oposição OR-NR é constatada nos efeitos provocados pelo embate entre as duas sobre a organização dos seres vivos (doenças da radioatividade), e também através do contador Geiger-Müller percebemos um grande aumento da contagem ao se colocar material radioativo em um ambiente orgonótico..
Podemos avançar se entendermos melhor o que é a radioatividade da fissão do átomo. No núcleo de um átomo há duas forças presentes: a força nuclear forte e a força eletromagnética. Havendo no núcleo partículas de carga elétrica semelhante (protons), a força eletromagnética entre elas é de repulsão, é uma força disruptiva neste contexto. É a força nuclear forte que vai se opor a essa separação e permitir que a matéria se organize em elementos mais complexos. Sem ela, o único elemento do universo seria o hidrogênio, por ter um único próton.
Entretanto, a força nuclear forte não é uma força fusional. Ela é topologicamente auto-reguladora, causando uma extrema atração a distâncias curtas (2 a 3 diâmetros de partícula), mas repelindo a distâncias ainda menores. Ao contrário da força gravitacional, que permanentemente busca juntar as massas em uma fusão, a força nuclear forte busca mante-las próximas, sem fundi-las - não é uma força de união mas uma força agregadora. É a força que mantém o núcleo do átomo coeso, ela implica em uma enorme energia de ligação.
Próximas, mas não coladas, elas tem entre si espaço para que oscilem a velocidades relativísticas. Se, em algum momento, a distância entre elas aumenta para além de um certo limiar, a força nuclear, que é de curto alcance, perde o embate para a força eletromagnética e o efeito de disrupção prevalece, com a fissão do núcleo. A energia de ligação dessas partículas escapa sob a forma de radioatividade.
O que Reich demonstrou indubitavelmente foi um enorme aumento tanto da contagem do Geiger-Müller quanto das reações fisiológicas, quando se coloca material radioativo em um ambiente altamente orgonótico. Ele interpretou que isso não seria decorrente de um aumento da radioatividade, mas o efeito de uma reação da energia orgone sob uma forma mais excitada — o ORANUR. Se ainda não conseguimos precisar exatamente o que é uma excitação energética, podemos ao menos perceber que é um termo que envolve noções de ordem.
Esse fato se torna mais compreensível se aventarmos aqui a possibilidade de uma cooperação entre a força nuclear forte e a energia orgone. O poder organizador do orgone poderia estar sendo usado no sentido propiciar uma nova ordem no estado de oscilação das partículas que tentasse minimizar a probabilidade de disrupção. Esse investimento adicional se reflete na energia orgone sob a forma de uma superexcitação (ORANUR) que é detectada pelo contador Geiger-Müller. Se as condições orgonóticas prevalecem após algum tempo e estabilizam o núcleo do átomo, o investimento estabilizador pode diminuir e a radiação detectada cai.
Se na tentativa de estabilizar o núcleo do átomo (ou outro processo físico gerador de ORANUR), a energia orgone mudasse de sintonia, como se ajustasse seu idioma para empreender um diálogo com outra realidade, isso seria uma alteração a nível da sua organização, da sua ordem interna, da informação que a energia porta. Transposta para um outro ambiente orgonótico, essa nova ordem poderia ser incompatível, por exemplo, com a organização do ser vivo. A confusão gerada entre as duas ordens levaria a um adoecimento do organismo justamente nas suas fragilidades, ou seja, nos pontos onde a sua organização interna é mais fraca e sujeita à confusão.
Quem vem primeiro, energia ou matéria?
O terceiro ponto a comentar na proposta de Reich é sobre a precedência ou sucessão da energia OR e da energia nuclear à matéria.
Não creio que apenas a energia orgone apenas preceda a matéria, mas que também possa sucedê-la, ou então o orgone não seria reciclável. Reich fala nas unidades de energia orgone sendo devolvidas ao oceano cósmico primordial.
Se a energia nuclear é a que propicia a formação de novos elementos químicos, e não o produto de uma fissão radioativa, então não podemos dizer que ela suceda a matéria. A física contemporânea remete a sua origem à transdução de uma energia eletromagnética numa energia de ligação. Quanto à precedência entre energia eletromagnética e matéria, observamos que:
A luz é uma energia eletromagnética que sucede a matéria, ela é emitida em um salto orbital de órbita pelo elétron. A proposta de Reich de que a luz só é um efeito de luminação orgonótica não resiste a algumas simples argumentações: o espaço sideral não é azul, as sombras se formam em linha reta orientada pelo sol, e a noite é escura. É provável que a luminação do orgone dependa ou de uma interação com a matéria ou da interação entre dois sistemas orgonóticos, e que essa luminação seria uma transdução da energia OR em uma energia eletromagnética.
A radiação cósmica de fundo a 3°K é uma energia eletromagnética que precede a matéria pois nunca se inscreveu nela. Independente de usarmos o modelo do Big-Bang, onde ela decorre da sopa primordial, ou de admitirmos que ela é emitida continuamente por um oceano de orgone cósmico, ela precede a matéria.
Precedendo ou sucedendo a matéria, a energia eletromagnética é a mesma forma de energia. Se
A presença de elementos radioativos em ambientes orgonóticos leva a uma superexcitação deste em ORANUR, que produz um aumento na radiação ambiente, conforme apontado por Reich. Se percebermos o orgone como uma entidade dinérgica envolvendo energia e organização, verificamos que são as características organizacionais as responsáveis pela produção desta superexcitação. E os efeitos do ORANUR sobre a saúde se fazem justamente aonde a organização do ser vivo é mais frágil.
Vimos aqui um pequeno exemplo de como esse entendimento das características
organizacionais do orgone abre uma imensa perspectiva para o estudo das
relações entre energia orgone e a forma como o universo se
organizou, possibilitando uma maior integração entre as diversas
áreas do saber humano.
Bohm, David; Hiley, B.J. - The Undivided Universe. Routledge, London, 1993.
Capra, Fritjof - (1975, 1983) O Tao da Física: um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. Cultrix, São Paulo, 1992.
Charon, J. E. – (1977) O Espírito este Desconhecido. Melhoramentos, São Paulo.
Doczi, György - (1981) O Poder dos Limites: Harmonias e Proporções na Natureza, Arte & Arquitetura. Editora Mercuryo, São Paulo, 1990.
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