| Produzido por José Guilherme Oliveira |
Comunicação apresentada no Encontro de Psicoterapia Somática
- 100 anos de Wilhelm Reich, na Universidade Santa Úrsula (RJ),
em 06/09/97.
Introdução
1) a unidade antitética das manifestações
vegetativas e psíquicas da vida
2) a representação psíquica
do orgânico
3) a representação orgânica
do psíquico
4) conclusão
Hoje, porém, do campo das neurociências e do campo da lingüística começam a surgir dados que estimulam novos desenvolvimentos teóricos no campo da psicoterapia corporal, oferecendo uma alternativa científica ao discurso místico que tende a vigorar nesta área.
É notável que o próprio Reich tenha se manifestado a este respeito ainda na década de 30:
Esta evolução no conhecimento do cérebro permite que hoje se possa afirmar com base em evidências científicas que a distinção entre doenças do ‘cérebro’ e da ‘mente’, entre problemas ‘neurológicos’ e ‘psicológicos’ ou ‘psiquiátricos’ reflete uma ignorância cavernosa ainda predominante na sociedade, nas religiões e na medicina acerca das relações entre a mente, o cérebro e o corpo.
A presente comunicação toma como ponto de partida o artigo ‘Contato psíquico e corrente vegetativa’ publicado por Reich em 1935.2rb Naquele texto, conceitos de capital importância para a clínica reichiana são desenvolvidos, e é a partir de alguns deles que teceremos comentários preliminares à luz de dados oriundos dos campo das neurociências e da lingüística.
Segundo ele, tal vínculo teria origem no fato de que no desenvolvimento natural observam-se dois grandes saltos, que por sua vez dão origem a outros processos graduais:
Tal observação pode, à primeira vista, parecer polêmica, mas hoje tais relações já podem começar a ser identificadas e reconhecidas em campos extra-reichianos.
Damásio, pelo caminho da neurobiologia afirma (ou confirma) que:
Esta idéia encontra-se ancorada nas seguintes afirmações:
Aqui encontra-se a indicação do papel central das experiências corporais como geradoras de ‘inputs’ que irão influenciar, se não determinar, o funcionamento da mente bem como de seus conteúdos, o que resultará num modo característico não só de ver-o-mundo como também um modo de ser-no-mundo.
Como Reich, Damásio também não avaliza a concepção dualística de corpo e alma, presente tanto no pensamento religioso (místico) como no pensamento científico (mecanicista): "A emoção e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos tem descrito há milênios como alma ou espírito humano"7rb, e observa poeticamente que "a alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne."8rb
Damásio propõe que os sistemas dos quais as emoções e os sentimentos dependem em grau crítico, incluem não só o sistema límbico, uma idéia tradicional, mas também alguns córtices pré-frontais, atribuindo importância ainda maior aos setores cerebrais que recebem e integram os sinais enviados pelo corpo.
Emoções e sentimentos, portanto, seriam produtos da excitação (uma função vegetativa, no sentido de Reich) de regiões específicas do tecido neural. A excitação destas regiões se manifesta sob a forma de geração de afetos.
Para Damásio, "a essência de um sentimento (o processo de viver uma emoção) não seria uma qualidade mental ilusória, associada a um objeto, mas sim a percepção direta de uma paisagem específica: a paisagem do corpo."9rb
Em linguagem metafórica, este autor nos diz que a essência das emoções e sentimentos seria o que se pode ver através de uma janela (a autopercepção) que abre diretamente para uma imagem contínuamente atualizada da estrutura e do estado de nossa instância corporal.
Nesta ‘paisagem’ de nós, os ‘objetos’ seriam as vísceras, a nossa estrutura, enquanto o ‘estado’ corporal momentâneo seria a luz, a sombra, o som e os movimentos destes ‘objetos’ constituindo um ponto em uma gama de operações possíveis de nosso conjunto vivo. O sentimento seria, portanto, a ‘vista’ momentânea de uma parte dessa paisagem corporal.
A janela aberta proporcionando a percepção de nosso panorama
corporal atual bem poderia ser a tradução neurobiológica
do conceito reichiano de contato vegetativo, e a perda (por lesão)
ou o fechamento (por inibição neural) desta janela implicaria
no obscurecimento do sentimento de nossa unidade psicossomática,
da integração entre razão, afeto e corpo, o que poderia
corresponder, no segundo caso, ao conceito reichiano de falta de contato,
que examinaremos na terceira seção.
Johnson verificou que a maioria das visões filosóficas tradicionais conferem à metáfora um pequeno papel, quando o conferem, no processo de apreensão do mundo e de nós mesmos.
Lakoff, por sua vez encontrou evidências lingüísticas que demonstravam ser a metáfora um elemento que permeia em grande extensão a linguagem e o pensamento cotidianos; evidências estas que não se coadunavam com qualquer teoria anglo-americana contemporânea do significado (meaning), fosse na lingüística ou na filosofia. Em ambos os campos, a metáfora tem sido tradicionalmente considerada como assunto de interesse menor, periférico.
Na visão tradicional, aquela do ‘espírito objetivo absoluto’, que Reich também combateria e que constituiria a base do que ele chamou de ‘pensamento mecanicista,10N a razão é abstrata e desvinculada do corpo (disembodied).
A corrente tradicional argumenta que a capacidade para o pensamento significativo (meaningful tought) e para a razão é abstrata e não necessariamente enraizada no corpo. Desta maneira, os conceitos significativos (meaningful concepts) e a racionalidade são transcendentais, no sentido que transcendem, vão além das limitações físicas de qualquer organismo. Tais conceitos e a razão abstrata poderiam até estar vinculados à matéria (embodied) em seres humanos, ou em máquinas ou ainda em outros organismos, mas existem abstratamente, independente de qualquer vínculo (embodiment) em particular.
Na nova visão, a razão possui uma base corporal e o significado depende daquilo que é significativo para os seres vivos e pensantes: "A natureza do organismo pensante e seu modo de funcionar no ambiente são de importância central para o estudo da razão." 11rb
Em ambas as visões a categorização é a principal maneira de tornar a experiência dotada de sentido, mas na nova concepção a nossa experiência corporal e a maneira como utilizamos os mecanismos imaginativos são centrais para o modo como construímos as categorias que conferem sentido à experiência.
A visão tradicional é a visão filosófica que remonta à Grécia antiga. Resulta de dois mil anos de filosofia acerca da natureza da razão e ainda hoje é automaticamente tomada não como mera verdade, mas como uma óbvia e inquestionável verdade; uma crença amplamente difundida apesar da enorme quantidade de evidências empíricas em contrário.
A primeira razão para tal hegemonia seria o peso de dois mil anos de tradição filosófica, o que não desaparece da noite para o dia. Todos fomos educados para pensar naqueles termos. A segunda razão é que não havia, até recentemente, nenhuma abordagem alternativa bem elaborada que permitisse preservar o que é correto na visão tradicional ao mesmo tempo em que a modificasse de acordo com os novos dados descobertos.
Qualifica-se tal visão como ‘objetivista’ porque as modernas tentativas de fazê-la funcionar assumem que o pensamento racional consiste na manipulação de símbolos abstratos e que estes símbolos tomam seu significado via correspondência com o mundo objetivamente construído, isto é, independente do sistema perceptual de qualquer organismo. Evidentemente o enfoque objetivista ignora o fato de que os afetos, as paisagens corporais, conferem um colorido, um filtro que se interpõe entre o mundo exterior e a percepção da sua sensação no córtex cerebral.
Dentre os pontos de vista mais especificamente objetivistas temos que:
Para Lakoff as evidências sugerem uma visão muito diversa, não só a respeito das categorias mas da razão humana em geral, e indicam que:
O continente corporal parece, pois, ser de importância decisiva nos processos geradores da linguagem e da razão.
A neurociência dos anos 90 apoia esta hipótese ao revelar que a razão humana não depende exclusivamente das áreas neocorticais, mas de vários sistemas cerebrais que funcionam de forma integrativa ao longo de muitos níveis de organização neural. O resultado da interação entre regiões cerebrais filogeneticamente mais recentes com as mais antigas, desde os córtices pré-frontais até o hipotálamo e o tronco cerebral, irá se manifestar em forma de razão e consequentemente em termos lingüísticos.
"Os níveis mais baixos do edifício neurológico da razão são os mesmos que regulam o processamento das emoções e dos sentimentos e ainda as funções do corpo necessárias para a sobrevivência do organismo. Por sua vez, esses níveis mais baixos mantém relações diretas e mútuas com praticamente todos os órgãos do corpo, colocando-o assim diretamente na cadeia de operações que dá origem aos desempenhos de mais alto nível da razão, da tomada de decisão e, por extensão, do comportamento social e da capacidade criadora. Todos esses aspectos, emoção, sentimento e regulação biológica, desempenham um papel na razão humana", é o que conclui Damásio. 13rb
No garimpo da observação empírica da comunicação Lakoff e Johnson observaram o papel do corpo na linguagem ao identificar que "as experiências básicas da orientação espacial humana, oriundas da percepção visual, dão origem a metáforas orientacionais e que nossas experiências com os objetos físicos, especialmente nossos próprios corpos (grifo meu), constituem as bases para uma variedade extremamente ampla de metáforas ontológicas." 14N
De acordo com estes autores "a metáfora permeia toda nossa vida cotidiana, não apenas na linguagem mas no pensamento e na ação. Nosso sistema conceitual ordinário, em termos do qual pensamos e agimos, é fundamentalmente metafórico em sua natureza". 15rb
A experiência corporal é estruturante da razão e da linguagem não apenas por ser a base física através da qual estamos em contato com o mundo, mas especialmente porque a cada percepção é gerado um afeto correspondente que será qualificador deste registro. O afeto a ser gerado nos parece estar na dependência direta do valor conferido pela cultura ao aspecto vivido/percebido.
Como observa Damásio "...o estado do corpo que é qualificador, quer seja positivo ou negativo, é acompanhado e completado por um correspondente modo de pensamento: de alteração rápida e rico em idéias quando o estado do corpo está na faixa positiva e agradável do espectro, e de alteração lenta e repetitivo quando o estado do corpo se inclina em direção à faixa dolorosa. Nessa perspectiva, emoções e sentimentos são os sensores para o encontro, ou falta dele, entre a natureza e as circunstâncias." 16rb
Não por acaso Damásio fala do estado do corpo ‘inclinando-se’ em direção à faixa dolorosa, pois a base física da estrutura metafórica alegria é em cima e tristeza é em baixo tem origem na base física da postura curvada que é tipicamente a manifestação corporal da tristeza e da depressão, enquanto a postura ereta liga-se a um estado emocional positivo.
Já Reich observava que "a tensão e o alívio psíquico não podem existir sem uma representação somática, pois tensão e relaxamento são processos biofísicos. Até o momento, temos transferido esses conceitos para o domínio psíquico. Isto era correto, exceto que não se trata de uma analogia senão de uma verdadeira identidade, a identidade das funções psíquica e somática. Todo neurótico sofre uma distonia muscular e toda cura se reflete diretamente numa mudança de hábito muscular". 17rb
As metáforas tomam suas raízes na experiência física mas também na experiência cultural, sendo "difícil distinguir a base física da base cultural de uma metáfora uma vez que a escolha de uma base física entre muitas possíveis está na dependência de sua coerência cultural". 18rb
Por exemplo, a alegria/felicidade tende a correlacionar-se fisicamente com o sorriso e um sentimento geral de expansividade. Isto poderia, em princípio, formar a base para a metáfora alegria é larga/tristeza é estreito. Na nossa cultura, entretanto, esta é uma metáfora menor. "Estou me sentindo expansivo" evidencia um outro aspecto da felicidade, diferente daquele que aparece em "Estou me sentindo para cima".
Na nossa cultura, que é eminentemente oral, maníaco-depressiva, a metáfora mais coerente com a cultura é alegria em cima/tristeza ou depressão em baixo. Esta prevalência se deve ao fato desta metáfora ser mais coerente em termos de superestrutura com as metáforas bom em acima/mau em baixo, alto status em cima/baixo status em baixo; mais em cima/menos em baixo; racional em cima/emocional em baixo; controle em cima/submissão em baixo, virtude em cima/depravação em baixo, etc.
É interessante notar que Reich, ao correlacionar prazer com expansão e angústia com contração, o que desembocaria na fórmula do orgasmo, o fez em termos de uma metáfora não coerente com a superestrutura geral da sociedade e esta poderá ter sido uma das razões pelas quais sua hipótese não tenha sido tomada em consideração, pois como Lakoff e Johnson observam "o apelo intuitivo de uma teoria científica tem a ver com a capacidade de suas metáforas atingirem a experiência do outro".19rb Como a proposta de Reich era uma proposta de afirmação da genitalidade e do coletivo e não do reforço da cultura pré-genital e narcisista, sua proposta foi amplamente ignorada ou pior, violentamente rechaçada.
A origem metafórica estaria corporalmente determinada por ser a linguagem (um produto do psiquismo) uma usina conceitualizadora de fenômenos que emergem do organismo vivo (da própria experiência de estar vivo e em relação com o ambiente externo e o com o ambiente do próprio corpo) e, tal como os anéis do tronco de uma árvore, guarda em seu núcleo as modalidades de um modo precedente de funcionamento, a partir do qual estabelecerá um novo registro conceitual que irá influenciar a percepção, a linguagem e a própria experiência de nossa corporalidade, tal como Reich intuíra ao abordar a representação psíquica do orgânico:
"A linguagem, assim como a percepção da conduta, apresenta inconscientemente o respectivo estado fisiológico e não o faz de forma figurada senão que de maneira imediata...Essa peculiar vinculação entre a percepção do estado vegetativo e sua formulação lingüistica merece um estudo detalhado." 20rb
Voltando a Lakoff e Johnson: "Os conceitos que governam nosso pensamento não são apenas aspectos do intelecto... Nossos conceitos estruturam o que percebemos, como nos colocamos no mundo e como nos relacionamos com os demais. Assim, nosso sistema conceitual desempenha um papel central na definição de nossas realidades diárias. Se estamos certos ao sugerir que nosso sistema conceitual é extensamente metafórico, então o modo como pensamos, o que experienciamos e o que fazemos a cada dia são essencialmente metáforas". 21rb
Pela perspectiva de Damásio "poder-se-ia dizer, metaforicamente, que a razão e a emoção ‘se cruzam’ nos córtices pré-frontais ventromedianos e também na amígdala. Além disso, o comprometimento do complexo de córtices somatossensoriais no hemisfério direito, onde se representa o corpo e suas paisagens viscerais também compromete o raciocínio e a tomada de decisão bem como as emoções e os sentimentos e, adicionalmente, destrói os processos de sinalização básica do corpo." 22rb
Isto parece responder a questão com que Reich se deparara:
Se coloca então uma outra questão: de onde se extrai a energia necessária para a função de proibição do mundo exterior? Reich argumenta que "somente o conteúdo da proibição deriva desse mundo (externo), enquanto sua energia - sua catexia - provêm das reservas de energia do próprio indivíduo." 25rb
À luz do conhecimento atual sobre a mente e seu substrato neural, pode se reivindicar um papel determinante para as funções do córtex pré-frontal na ocorrência desta posterior dissociação de Eros e a conseqüente formação do par antitético Eros e Thanatos.
Além disso, quando Reich menciona a energia necessária para a instauração da contraparte inibitória do impulso, pode se imaginar que tal energia nada mais seja do que aquela consumida na manutenção da atividade da rede neuronal pré-frontal. A entrada em ação da rede pré-frontal implica necessariamente em um aumento do consumo de energia biológica,26N que se faz às expensas das reservas energéticas do indivíduo.
A partir da dissociação do impulso original, Reich identifica dois modos de contato com a realidade: o contato vegetativo imediato (CVI) e o contato substitutivo, ou pseudocontato (CS). Reich não é capaz de conceituá-los com clareza, fazendo apenas uma distinção em termos clínicos e observando que "a dificuldade está no fato de o contato substitutivo também se basear na energia vegetativa." 27rb
Em termos puramente energéticos isso será explicado posteriormente como o resultado de uma alteração do movimento energético. O risco de nos contentarmos com uma explicação de ordem puramente energética traz consigo o perigo de repetirmos o erro cartesiano pelo avesso, ou seja, menosprezando o corpo e seus sistemas não em função de um ‘razão superior’ transcendental que exclui o corpo mas em termos de uma ‘energia superior’ transcendental que também acaba por excluí-lo do processo.
É minha opinião que não se pode levar em consideração a hipótese energética caso se considere os fenômenos da víscera cérebro (que possui uma função integrativa bem definida no organismo) como destituídos de uma funcionalidade no universo do corpo. Supor que a hipótese energética nos exime de considerar o funcionamento do aparelho neural, seria o mesmo que supor que o órgão vivo mais complexo do universo é um mero intruso, um apêndice sem função em nosso organismo.
Por isso, retomando a tese reichiana da unidade psicossomática como algo indissociável e sem preponderância de um dos aspectos sobre o outro, como se daria esta alteração da função ‘contato’ em termos psicofisiológicos?
Poder-se-ia hipotetizar que o CVI corresponderia a um estado de contato ‘puro’ entre um organismo vivo e sua realidade externa imediata. Isto pode ser considerado válido para todos os organismos vivos que não tenham atingido o segundo salto no desenvolvimento natural ou seja, a formação da mente. A meu ver, somente organismos sem mente seriam capazes de basear constantemente sua existência em termos de CVI.
No caso humano a questão se torna tremendamente complexa, pois não somos seres exclusivamente pulsionais. A perda do CVI no ser humano estaria na relação direta de sua existência enquanto ser social e simbólico, ao mesmo tempo criador, prisioneiro e carcereiro da norma cultural.
O câmbio de função do impulso tem início no ser humano possivelmente por volta do final do segundo/terceiro ano de vida e provavelmente está ligado ao fenômeno da corticalização pré-frontal. Certas áreas cerebrais, ao assimilarem uma regra social pela via da experiência corporal do vivido (através dos sentidos e com repercussões sobre a homeostase do meio interno ao organismo) complexificam a rede neural e instauram nesse organismo uma nova ordem de vicissitudes gerada pelas demandas da cultura que, ao dele apropriar-se, passa a significá-lo, inscrevendo a cultura no corpo. O corpo culturalizado é portanto o corpo ‘encouraçado’. Trata-se agora de um corpo revestido, no âmago e na superfície, no centro e na periferia.
Ao descrever a função psíquica da couraça Reich observa que "ela se forma como conseqüência do câmbio na estrutura do ego que necessita fazer frente às restrições libidinais requeridas pela sociedade, por um lado, e o domínio da estase de energia resultante no organismo, por outro." 28rb
Deste encontro entre o impulso biológico e sua contraparte culturalizada resulta uma representação dispositiva, um padrão típico de disparo da rede neuronal que se exterioriza como uma configuração gestáltica que nós reichianos denominamos de estrutura caracterial. Não pode pois haver uma estrutura caracterial sem a existência de um mundo interno. Igualmente, no caso humano, não nos é possível voltar a alcançar o estado de CVI, podendo apenas aspirarmos a atingir algo que dele se aproxime: as sombras das coisas vistas pelos prisioneiros da caverna de Platão e, eventualmente, alguma luz.
O organismo humano agora tem de dar conta de duas ordens pulsionais, uma orgânica propriamente dita29N (instintiva, CVI) e outra, a do organismo agora sob a pressão normatizadora de seu movimento natural em função da cultura que o significa (CS).
A entrada da norma cultural na cena somática submete o organismo a esta ordem, interfere em seu funcionamento e ao inscrever-se no corpo gera uma nova (des)ordem corporal30N cuja perpetuação só é possível às expensas de uma homeostase patológica da economia da energia; homeostase esta que se mantém ativa através das descargas neuronais de circuitos geracionais estabelecidos a partir da experiência vivida.
A rede neural complexificada, ao criar uma imagem interna do evento originalmente vivido modifica a fisiologia de toda a nossa instância corporal via circuitos que ligam o córtex pré-frontal à amígdala e desta ao hipotálamo e núcleos suprassegmentares do sistema nervoso autônomo localizados no tronco cerebral.
A partir do que se observa na clínica, poder-se-ia pensar que o CS fosse a expressão de alguma atividade disfuncional do cerne anatômico de medo/ansiedade. "O espectro afetivo medo/ansiedade é entendido como um estado psicobiológico intrínseco, ligado à sobrevivência do indivíduo, que opera incessantemente e se expressa simultaneamente a níveis psicológico, comportamental e fisiológico." 31rb
Isto está de acordo com a proposição de Navarro acerca da importância do medo na gênese dos bloqueios caracteriais: "A emoção primária de conseqüências negativas é o medo...o medo é a base de cada patologia como elemento determinante e/ou desencadeante da condição de contração como mecanismo de defesa" . 32rb
A caracterialidade pode ser compreendida como a resultante gestáltica de uma estratégia de ‘coping’ (enfrentamento de uma situação geradora de estresse) que ativa os sistemas neurais que elaboram um estado central de medo e coordenam os padrões ‘espécie-específicos’ de comportamento defensivo.
Quem quer que tenha experiência clínica em psicoterapia corporal pode imediatamente reconhecer na aparência e no comportamento dos pacientes que chegam ao consultório nuances variadas de inibição comportamental, que é o primeiro degrau na escala dos comportamentos defensivos.33N Tais estados são, grosso modo, o que conhecemos como estruturas de caráter. Todos estes comportamentos defensivos são acompanhados por marcadas mudanças neurovegetativas e neuroendócrinas que, em se tornando crônicas, formarão o terreno para as doenças.
A cada vivência se imprime uma valência afetiva resultante da ativação de áreas do circuito límbico (especialmente a amígdala cerebral). A amígdala parece funcionar como uma interface emocional-cognitiva. Ela recebe aferências:
Em relação às suas eferências, a amígdala comunica-se diretamente com o hipotálamo e a substância cinzenta periaquedutal (PAG), que controlam as manifestações comportamentais, autonômicas e neurohumorais da defesa. A amígdala também influencia a atividade motora somática através de conexões diretas (com o nucleus accumbens) e indiretas (retroalimentação de áreas associativas corticais, que se conectam com os sistemas motores piramidal e extrapiramidal).
Segundo Machado34rb "do ponto de vista funcional, o sistema piramidal é responsável pelos movimentos voluntários... Já o sistema extrapiramidal tem por função básica a realização de movimentos automáticos, a regulação do tônus e da postura assim como, através do cerebelo, a coordenação dos movimentos. Há evidências de que os centros suprassegmentares do sistema nervoso autônomo (SNA) influenciam o neurônio motor, principalmente através da formação reticular35N e de fibras retículo-espinhais".
Estas evidências parecem esclarecer o mecanismo neurofisiológico subjacente ao aforismo reichiano:
Vários feixes de fibras ligam o hipotálamo e o sistema límbico a núcleos da formação reticular do tronco encefálico. As conexões do sistema límbico com o mesencéfalo são importantes, pois através delas impulsos integrados no sistema límbico são levados à formação reticular do mesencéfalo, de onde, segundo se admite, projetam-se sobre as vias eferentes do tronco encefálico e da medula, desencadeando as respostas periféricas que caracterizam as diferentes reações emocionais.
Vale aqui lembrar que a formação reticular só foi identificada em 1949 por Moruzzi e Magoun, o que nos ajuda a entender a ênfase desmesurada concedida por Reich ao sistema nervoso autônomo (SNA) na gênese e manutenção do processo de encouraçamento caracterial. Na verdade, todo o processo de dissociação do impulso original, perda de contato, encouraçamento muscular e conseqüente bloqueio afetivo, etc. estão na dependência do sistema nervoso central (SNC) e os nossos conhecidos fenômenos da simpaticotonia e parassimpaticotonia são apenas a expressão periférica de algo que na realidade se passa no SNC.
No caso dos humanos, além dos mecanismos cerebrais comuns a todos os mamíferos, desenvolvemos capacidades específicas de linguagem e pensamento em função do marcante desenvolvimento das chamadas áreas da linguagem nos lobos frontal, temporal e parietal e pelo superdesenvolvimento do córtex pré-frontal.
Como resultado deste desenvolvimento, estímulos simbólicos - verbais ou não-verbais - processados nestas áreas neocorticais podem ser enviados às estruturas límbicas relacionadas à emoção. No caso do medo/ansiedade um ‘segundo sino de alarme’ é ativado por ameaças simbolicamente codificadas que nas sociedades humanas civilizadas tornam-se a mais prevalente fonte de ansiedade.
Além disso, sabe-se que a ansiedade influencia o processamento cognitivo, resultando daí uma interação de ‘mão dupla’ entre cognição e afeto.
A fixação de estímulos prazerosos ou de situações originalmente neutras que ao longo da vida do sujeito tenham sido consistentemente associados à apresentação de estímulos de punição ou suspensão de recompensa (por ex. a repressão da sexualidade infantil) estaria na base do mecanismo da substituição do CVI pelo CS.
A mesma experiência seria vivida com outra carga afetiva na medida em que se tenha fixado um comportamento do espectro medo/ansiedade no conjunto das estruturas límbicas. Esta fixação de um padrão de ansiedade passa a permear toda e qualquer função de contato do indivíduo, seja consigo mesmo, seja com o mundo externo, promovendo uma sutil distorção da percepção, uma vez que a mudança se dá no que Damásio chama de ‘sentimentos de fundo’, estados do corpo que ocorrem entre as emoções; ou seja, a paisagem visceral corporal que está na base do sentimento da própria vida, na sensação de existir, constituindo o elo de continuidade da nossa experiência de vida, aquilo que nos permite uma identidade que se mantém no tempo e que possui uma história pessoal.
Para Damásio, sem os sentimentos
de fundo "o âmago de nossa representação do eu
seria destruído".37rb
Ou, considerando a questão do ponto de vista reichiano, esta representação
do eu seria substituída por outra, o pseudo-eu da defesa
narcisista, segundo Navarro.38rb
O CS pode ser entendido como um sentimento de fundo substitutivo.
O CS é a expressão viva do traço de caráter
e tem necessariamente que ser rígido e estereotipado, nos diz Reich,
uma vez que se forma no sentido de reprimir o movimento original.
Ao observar que o CS é a própria expressão ‘viva’ do traço de caráter, Reich parece querer dizer que ele é atual e está dinamicamente mantido, que não é algo estático, não é uma cicatriz por assim dizer.
Ora, tal forma de contato parece ser a expressão dinâmica
e atual de uma determinada paisagem corporal, de influência determinante
na geração de uma certa metáfora psíquica a
partir da qual as realidades interna e externa ganham um significante.
Na geração desta metáfora primordial estão
implicados aspectos intelectuais, afetivos e corporais em igual medida
e intensidade, já que nenhum destes aspectos é refratário
à influência dos demais.
A estrutura caracterial, como produto e fonte do CS, é a matriz de uma metáfora histérica através da qual nos vemos bem como ao mundo. Mudar aspectos da caracterialidade é mudar a metáfora substitutiva que se interpõe entre nós e o mundo, entre o poço de nossos desejos e a nossa possibilidade de realizá-los ou não e por que modos e meios.
A psicoterapia corporal reivindica seu lugar no campo das psicoterapias afirmando-se como um método imanente e não transcendente, podendo assim reconhecer a unidade psicossomática que constitui a essência do ser humano.
A partir desta perspectiva, utiliza estímulos que remetem à
evocação das paisagens corporais ligadas a diferentes etapas
evolutivas do processo de amadurecimento da personalidade. Ao proporcionar
a autopercepção de variadas paisagens corporais, favorece
o reconhecimento de padrões cognitivo-comportamentais de crenças
disfuncionais, tornando possível a continuidade do amadurecimento
da personalidade a partir de suas bases neurobiológicas e lingüísticas.