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O R G O N izandoProduzido por José Guilherme Oliveira |
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O que podemos fazer para resgatar as nossas funções naturais, essas funções que são legítimas e torná-las disponíveis para poder desenvolver uma maturação mais positiva? Parte da base da nossa saúde energética, incluindo a saúde biopsíquica e social, depende de um trabalho de prevenção que tenha início na gravidez e que possa assegurar à criança condições e meios para que ela busque o necessário e possibilite o seu organismo liberdade para desenvolver-se e autoregular-se. Entendemos saúde energética como um processo de equilíbrio entre os movimentos de tensão e carga e os movimentos de relaxamento e descarga energética do nosso corpo. Tensão é a expressão psicológica da sensação física de contração muscular do nosso organismo. Relaxamento é a expressão psicológica da sensação física de expansão muscular do nosso organismo. A saúde energética requer contração da musculatura, carga energética e contenção, quanto uma capacidade de relaxamento muscular, requer descarga energética e entrega. Reich diz que, “a nossa tarefa é capacitar o animal humano para que ele aceite a própria natureza que existe dentro dele, e, que deixe de escapar dela e goze o que tanto teme.”
Há muito, nos interessamos pela saúde do biossistema e por uma educação mais natural, e por isso observamos e questionamos a condição que a maioria das pessoas vivem e se submetem a viver. Compartilhávamos com o pensamento de que para resolver a pressão do dia a dia que altera o nosso biorritmo e evitar os males da cidade grande fosse solução mudar para o campo. Está claro, hoje, que não adianta fugir da onde estamos, o que o nosso organismo precisa é ganhar mais liberdade energética para poder agir, reagir, metabolizar e se expressar. A nossa realidade é a nossa carga de energia disponível. Podemos colaborar para que essa realidade bioenergética, que é a integração do corpo biológico e energético, possa cada vez mais estar disponível para que a vida flua com qualidade.
Acreditamos que uma pedagogia das ciências naturais se faz necessário para um trabalho de prevenção à educação natural. A prevenção precisa estar ligada a saúde e educação como meios importantes para o livre desenvolvimento da capacidade de autoregulação do organismo, assim, poderá ajudar a criança a superar as suas dificuldades de descarga bioenergética e emocional.
Ser educador é uma função importante que precisamos desenvolver para trabalhar com a saúde energética. Tudo que o educador expressa é fundamental e de grande responsabilidade para com o outro e consigo, na recuperação da verdadeira função de ensinar. Tudo o que temos para ensinar é aquilo que vivemos na experiência, no vivo. Temos como compromisso natural interno comunicar o que sentimos. É pela expressão do nosso sentimento, que integramos o sistema cognitivo com o nosso sistema energético. Portanto, uma boa educação depende do grau de saúde energética do educador. Ser educador é poder expressar-se não só pela quantidade de conhecimentos e técnicas que se tenha adquirido, mas também pela maneira como ele se abre para o contato afetivo e como usa a sua energia.
A partir do conhecimento das leis naturais do funcionamento da vida,
do conhecimento das leis sociais e do sistema, poderemos nos desenvolver
dentro de um respeito ao movimento natural do funcionamento da natureza
humana. É de responsabilidade do educador ajudar o outro a se desenvolver,
e como educadoras do funcionamento natural da vida
acreditamos que colaborar com o processo de prevenção
pode ajudar o Ser a não se corromper nas suas funções
naturais.
Segundo o princípio da ciência da lei da vida, uma prevenção de base energética deve ocorrer desde o momento da concepção, pois o princípio da lei natural e suas funções começam desde este momento. Reich diz, “que a criança vem ao mundo com uma determinada carga de energia libidinal ou vital e o sistema a molda, condiciona, adapta de acordo com os seus interesses.” Assim precisamos sentir e compreender a linguagem do corpo energético, do bloqueio, das nossas resistências e de como funcionamos.
A saúde energética é a contrapartida funcional da doença, ela depende de como se dá o movimento energético básico da vida, que é a nossa capacidade de pulsação expressas nos movimentos de expansão e contração. Para Reich, a formula da vida está nos movimentos de tensão-carga-descarga e relaxamento. Qualquer alteração desta função de vida no nosso organismo vai gerar doença no corpo biológico, psicológico, educacional, social e o corpo cósmico.
Consideramos que o estresse familiar e a maneira de como a família esta organizada afetivamente será a primeira interferência no desenvolvimento mais natural de todo o seu sistema bio-psicosocial. E, se a família for incapaz de satisfazer as necessidades biológicas e afetivas da criança, ela sofrerá alterações no seu biorritmo natural, que consequentemente interferirá na integração de suas funções naturais básicas .
O período em que a família desempenha a maior influência para todo o desenvolvimento e saúde energética da criança é até os seus primeiros seis anos, a criança os tem como sua maior referência de vida. O desconhecimento do funcionamento da lei da vida, vai criar um atalho no que é um tratamento saudável para a criança. Ao invés de suas necessidades biológicas serem satisfeitas, de acordo com a demanda do seu organismo, num ambiente de compreensão e relaxamento, ela passa a se adaptar a uma necessidade da lei social de regulagem moralista e antinatural. Assim, perdemos o contato com o que realmente somos, endurecemos em nosso movimento funcional natural, bloqueamos nossa energia, nosso corpo físico, emocional e enrijessemos o nosso modo de olhar e sentir a vida.
O mecanismo de afastar a criança do seu mundo natural pode começar desde a vida intra-uterina, onde a mãe gesta o seu bebê num útero encouraçado, que fisicamente apresenta uma tensão muscular crônica do movimento e psicologicamente se traduz num útero sem contato ou um contato ansioso. Isto quer dizer, que o campo dentro do útero é limitado na sua potencialidade funcional de gerar e dar amor. Decorrente desta limitação pode haver conseqüências como aborto fisiológico espontâneo, parto prematuro e até criar pré disposições para psicoses e biopatias. Portanto, quando ocorre o encouraçamento intra-uterino também ocorrerá o controle do movimento natural da vida pela falta de contato e calor bioenergético e emocional do ecossistema materno. Ao nascer, o bebe continua sofrendo encouraçamento pela ignorância de alguns profissionais de saúde que os recebem de forma encouraçada e com isso tendem a inibir aspectos de movimentos mais livres da motricidade e do metabolismo.
A educação encouraçada, transmitida por educadores encouraçados, nos transforma em pessoas com a percepção alterada da realidade e da vida. E com isso, perdemos a capacidade de sentir as nossas correntes energéticas pelo corpo, de conhecer como pulsamos no nosso ritmo natural e portanto a nossa verdadeira liberdade e a alegria de viver. A nossa liberdade mais íntima é o contato com o nosso ritmo. E para isso precisamos sentir o que é nosso.
A vida é permeada de trocas e entrelaçamentos. Olhar para os nossos bloqueios e as dificuldades do educador, que neste período é a mãe, é fundamental para que o Ser humano possa viver. É fundamental que ele tenha desde o seu início uma gravidez saudável e comece o seu ciclo de vida com uma boa condição energética e afetiva, para se desenvolver.
O nosso cerne, que é o centro do corpo energético é a parte mais íntima que temos, é a nossa essência, nossa fonte viva. É o que temos de mais precioso para o posterior contato com o mundo, e se no início, a criança for bem nutrida de afeto, de um contato caloroso e saudável e de alimentos que realmente satisfaça as suas necessidades biológicas e energéticas, desenvolveremos uma base energética forte e traremos conosco a condição de confiança para usar este potencial que é nosso. Este potencial é a nossa fonte de contato e quando nos tornamos capazes de senti-lo, isto se torna um pré-requisito imprescindível para todo o processo de virmos a Ser na nossa individualidade. Isto quer dizer, o contato com a nossa fonte e com os nossos sentimentos é condição fundamental para confiarmos em nós mesmos e sairmos das relações de dependência na vida. Deste modo, poderemos sentir, pensar, agir do jeito que pulsamos e sermos naturais no nosso modo de escolher e viver.
Acreditamos, que, para que cada um tenha a consciência de plantar sementes no campo social e se abrir para colaborar na formação de multiplicadores e compreender o sentimento da formula da vida, precisamos ter uma base afetivo-energética desde o começo da vida. Sem essa base estaremos sempre preocupados e envolvidos com as nossas necessidades de sobrevivência e de proteção e preocupados com a construção da nossa segurança básica. Seremos incapazes de colaborar para que o Ser humano possa sentir a sua potência e com isso livre para ser um cidadão do mundo.
A nossa cultura tem idealizado o que é a vida a nossa sociedade
se tornou doente e nós também. A saúde também
é vista de forma idealizada e nos estamos nos desviando do caminho
do que é saudável. Segundo Reich, “Saúde é
poder adoecer e recuperar o melhor da gente,” e se não sentirmos
profundamente este par funcional de adoecer e poder se curar, andaremos
em círculo atrás de nos equilibrar com a direção
cega, o coração fechado e a mente estressada. É do
estresse que estamos falando. Temos pouca consciência de como somos
estressados. Neste momento a vida se impõe para reconhecermos esta
condição precária de saúde energética
que estamos vivendo. Sem um foco do que é a saúde energética
e a realidade dela, navegaremos, interferiremos no movimento do outro e
seremos um peso para a sociedade se responsabilizar. É da nossa
responsabilidade encontrar o caminho da saúde e do equilíbrio
do nosso corpo, da nossa mente como também termos a base para nos
alinhar e compreender o plano mais sutil da energia e com isso, desenvolvermos
uma consciência mais ampla. Pensamos que deste modo, poderemos
começar a nos abrir e começar a trabalhar a favor da
nossa própria natureza.
Para pensarmos o caráter, Reich introduz o termo couraça para explicar como construímos as nossas defesas. Começamos a nos defender e endurecer para a vida, as vezes, desde o início da gestação. E com isso também, vamos formando a nossa couraça, que pode dar início na gestação e, que geralmente termina no final da puberdade que é um período do início da afirmação da identidade sexual e social. A couraça é a nossa armadura que criamos a nível muscular e psicológico, que nos permite uma ação mais reativa ou afetiva. O útero como ecossistema materno sofre ameaças, tanto pela condição do sistema biológico da mãe, como pela condição familiar e a sócio-cultural.
A mãe na função de primeira educadora transmite visceralmente para o bebê o seu afeto e também a sua adrenalina, isto quer dizer, a sua reatividade, os seus medos em relação a vida. Deste modo, estas duas correntes energéticas, mãe e bebê, se relacionam desde o início sob uma multiplicidade de condições energéticas, que a partir dos movimento de contração e expansão se delimitará, posteriormente a forma que a musculatura desta criança pulsará e se organizará. É a partir do encontro energético com a mãe que o caráter vai começar a aparecer. A musculatura está ligada a condição energética da nossa pulsação e para a formação do caráter precisamos de musculatura, quando enrijecemos a nossa musculatura, enrijecemos também o que está ligado a nossa condição energética.
Ao introduzirmos os conceitos de condição energética, caráter, musculatura, cerne, pulsação biológica, metabolismo etc. Temos como referência, o sistema neurovegetativo e neuromuscular, para explicar como funciona o metabolismo energético e afetivo do corpo. Estes dois sistemas regulam a economia energética do nosso organismo. O sistema neurovegetativo é responsável pela digestão, circulação do sangue, respiração, sexualidade e emoções. O Sistema neuromuscular regula os movimentos voluntários e involuntários da musculatura. Assim, para funcionarmos nos nosso movimentos de pulsação precisamos do equilíbrio desses dois sistemas acima.
O bebe sofre estresses durante a gestação, no nascimento e após o nascimento. A partir deste estresse ele vai ganhando o seu próprio ritmo de pulsar. Segundo Reich, o movimento vai delimitando a forma e do jeito que pulsamos vamos delimitando a nossa forma corporal e com isso o nosso caráter. Cuidar da condição energética do educador e da criança desde o nascimento é cuidar também da condição em que o caráter vai se formar. Se pudermos construir uma base energética mais saudável, onde o Ser possa ter a liberdade de preservar as suas funções naturais estaremos criando a base para a saúde energética do educador.
Quando bloqueamos a nossa base energética bloqueamos também na nossa base psicológica e criamos uma couraça psicológica, que vem pelo medo da angústia de sermos ameaçados por um mundo hostil e ignorante, que é parte do nosso ambiente desde o nascimento. A couraça psicológica se forma pela insatisfação das nossas necessidades internas e externas de sermos correspondidos e acolhidos. Estamos sempre aquém daquilo que é a necessidade de segurança e conforto para o recém-nascido. Devido a uma cultura que desconhece as leis naturais da vida e se rege através de leis autoritárias e repressivas nos afasta do movimento natural de prazer da vida e nos leva a desenvolver estruturas de violência e ódio pela vida.
Em conseqüência de vivermos estruturas antinaturais, tanto energéticas , psicológicas como culturais, vamos perdendo o contato com a saúde do nosso ser mais íntimo e com isso o contato com as nossas sensações, os nossos sentimentos. Sentimos pouco o que pensamos, ficamos mais racionais e nos afastamos do nosso meio ambiente.
O caráter está baseado, por um lado, no modo de como foi transmitida a educação afetiva e moral e por um outro, no jeito de como reagimos a isto pelo nosso modo de viver. Contudo, ele tem uma função necessária de nos protegermos na nossa relação com o mundo. Segundo Navarro a nossa caracterialidade é uma defesa e uma forma de proteção, é através dela que achamos o nosso jeito de nos expressarmos na vida. Nós expressamos pelo nossos gesto, hábitos, posturas corporais e atitudes e isto está ancorado na nossa musculatura. O que vale considerarmos para entendermos o que é saúde energética é como integramos o nosso caráter, ou seja, o nosso modo de sentir, agir e reagir com a nossa natureza mais íntima, que chamamos de cerne, de modo que um colabore com o outro dentro de um campo coeso e integrado.
A educação tem a função bio-social
e se faz necessário que o educador trabalhe com a sua própria
couraça para poder ter uma melhor qualidade de contato, estar mais
aberto para o mundo, para as suas intuições e ter um canal
de comunicação clara e sensível. É bem importante
que ele se abra para a criança, que se coloque no lugar dela e perceba
como a criança o vê.
O cuidado maior na educação moralista tem centrado no
conhecimento cognitivo e muito pouco se preocupou com a transmissão
energética do educador para a criança. O que
significa esta transmissão? É a carga emocional,
afetiva, moral, política e social do educador que ele transmite
para a criança. Cada educador vai transmitir aquilo que traz da
sua neurose e da sua essência. Ex.: se o educador é
controlador e raivoso ou deprimido e queixoso vai transmitir sua raiva
e o seu controle ou sua fraqueza e carência. De que maneira
isto pode vir? Através da sua manipulação e
possessividade ou pelo seu medo do fracasso e baixa estima. Pensar
o educador, no que ele transmite energéticamente, é básico
para a educação mais natural. Em outras palavras, um educador
com uma forte ambivalência e destrutividade fixada a nível
caracterial, que se manteve escondida por uma máscara social, irá
de qualquer maneira transmitir os seus desequilíbrios energéticos
à criança. A criança tem um campo energético
bastante aberto para se referenciar em seu mestre.
A criança com uma base de contato afetivo frágil, desde o seu primeiro campo educacional, que é o útero da mãe e o comportamento desta durante a gestação, receberá deste campo os bloqueios e as carências energéticas. Quando a criança chega no campo familiar e coletivo e encontra um educador encouraçado, fatalmente ela receberá a transmissão dos bloqueios deste sem alguma consciência da diferença do que é o outro diferente dela, pois estará fusionada nas defesas dos seus educadores e com esta base ela também desenvolverá um eu mais fraco ou ausente se afastando do próprio cerne. O sentido do eu ligado a defesa, é a defesa do educador. E quando a nossa referência é somente a nossa defesa construiremos uma base mais limitada, inconsistente e dependente do referencial do outro. Somos fortes, potentes e vitalizados quando temos a nossa referência a partir do nosso centro energético.
A nossa referência deveria vir a partir do contato que pudermos fazer com o nosso cerne, é o nosso contato mais genuíno, . O cerne a nível biológico está ligado ao nosso sistema neuroendócrino e neurovegetativo, que são responsáveis pelas nossas sensações biológicas. Resgatar as funções educativas também implica resgatar as nossas sensações biológicas corporais, que desde cedo perdemos e com isso bloqueamos os nossos sentidos. As nossas defesas estão ligadas ao caráter e a nível biológico estão ligadas ao nosso sistema neuromuscular e a nível psicológico ao nossos comportamentos.
A integração do nosso temperamento, que é mais próximo ao cerne, e do caráter é que vai dar a qualidade de expressão do nosso modo de Ser e de Fazer. Sabemos que a relação e a comunicação que temos com a nossa sociedade é mais pelas nossas defesas, e com isto negamos o movimento do cerne. Isto é, quando temos um movimento que vem mais do nosso íntimo, daquilo que sentimos profundamente como verdade, somos incentivados a não expressá-lo, pois, com certeza não vai corresponder com a demanda do sistema. Vamos nos sentir inadequados com as nossas verdades e desta forma, é melhor nos adequarmos ao que esperam da gente, assim nos afastamos do que é mais importante para cada um.
O começo da construção de uma base verdadeira do sentir está em resgatar as nossas funções naturais dos órgãos do sentido, precisamos aprender a respeitar aquilo que olhamos e sentimos, cheiramos e sentimos, escutamos e sentimos e, etc. Precisamos sentir profundamente as coisas para reconhecer o que realmente o nosso organismo necessita e com isso não nos perdermos no movimento do outro. O desejo perdeu a sua função natural de Ser e se tornou um objeto imposto pela nossa sociedade que enaltece a quantidade de consumo de Ter. Ter, muitas vezes, o que não precisamos e sermos impulsionados a ter aquilo que não agüentamos carregar e muitas vezes não podemos cuidar e nem mesmo consumir.
Somos estimulados na nossa vaidade e com isso ficamos confusos e nos perdemos . Sem o foco em nós mesmos, não podemos colaborar para a saúde energética, passamos a acreditar numa identidade do eu quero ao invés do que eu preciso. Assim, a nossa referência de busca passa a ser baseada nas nossas defesas e com isso separa o sentir, do pensar e do agir como também nos afasta do cerne e cria uma separação entre o Ser e o Fazer. Dentro do nosso movimento natural deveria vir integrado o fazer a partir daquilo que sentimos e sermos aquilo que faz sentido para nós.
Com essa educação onde não se olha para o educador, a criança encontra um terreno propício para se distanciar da sua própria natureza. Vai buscar a referência fora de si e toma como modelo a patologia do educador, fazendo disso os seus modelos de viver. Passa a viver com medo da vida, das mudanças, e das possibilidades de fazer transformações fundamentais para seu autodesenvolvimento. Se afasta do que é uma vida saudável e fica sem base para interiorizar um eu que possa torna-la forte e potente para afirmar uma identidade madura. É difícil desenvolvermos os nossos potenciais e seguirmos o nosso caminho sem nos misturarmos com a potência do outro, quando ficamos distantes da nossa essência.
É vital trabalhar a saúde do educador e ajudá-lo a encontrar o seu jeito de sentir e de pulsar, tanto nas suas defesas como nos seus movimentos mais integrados com a sua natureza. É importante o educador reconhecer o que é seu a partir da sua própria referência e ter consciência do que tem e é saudável transmitir. O educador precisa ter a humildade para respeitar as suas limitações e seus medos, sem negar seus bloqueios e as suas qualidades. Aprender pela dificuldade do educador é humano e funcional e quando este tem a honestidade de mostrar e expressar aquilo que sente e aquilo que sabe e não sabe, pode estar também neste momento educando.
O processo de aprendizagem na educação deveria ocorrer
juntos, educador e educando se ajudando mutuamente, integrados e comprometidos
em serem produtivos com a vida e colaborando para que as suas qualidades
espirituais de ser integrado, honesto, verdadeiro, humilde e humano se
desenvolvam e com isso essas qualidades possam encontrar as suas
próprias funções que lhe são destinadas.
Muitas vezes, quando estamos ensinando temos estas sensações
que estamos sendo guiados e nem nos damos conta de onde saiu tudo aquilo
que dissemos, parecemos guiados por uma força maior que veio
e transmitiu o recado. Através do contato com as nossas qualidades,
também sintonizamos com as leis dessas qualidades e
com isso não precisamos fazer mais algum esforço, pois,
as leis trabalham por nós.
Uma educação saudável depende da qualidade deste
contato.
A nossa organização social e educacional impõe-se à lei natural e com isso cria uma oposição entre cultura e natureza. As nossas funções naturais são regidas pelas leis da energia, ou seja, pela lei do que é vivo e funciona na sua potencialidade. Os processos reais da natureza são livres, variáveis e imprevisíveis. A liberdade da natureza assusta o nosso jeito mecanicista e antinatural, assim nos desviamos destas leis e criamos uma perversão com a nossa própria natureza. Segundo Reich, isto é a patologia, nos afastamos da natureza e ficamos doentes. Ficamos com medo de viver uma realidade mais natural e usufruir dos recursos que a natureza nos oferece.
Se pudermos observar os movimentos da natureza, poderíamos saber muito mais sobre nós mesmos, no entanto, seguimos um caminho oposto, o da contração. Ficamos com medo da intensidade da vida e nos distanciamos da condição natural que o nosso organismo tem: poder se auto-regular, adoecer e saber se curar. Quem de nós, que em algum momento da vida não experienciou o medo da intensidade da natureza, quando indo para o campo em completo silencio, ouvindo o som dos animais , da natureza e da noite, não ficou assustado com o tamanho movimento de expansão, acabando se defendendo pela contração, e assim ficando com medo. É a partir deste mesmo princípio que nos distanciamos da natureza do nosso corpo.
Estamos vivendo um momento de abertura e acreditamos ser possível, criar uma educação mais natural onde a função educativa possa se expressar e se revelar para a construção de um mundo melhor. Reich diz, que somos redes de transmissão do nosso patrimônio energético, transmitimos os nossos bloqueios e a nossa potencialidade, se queremos contribuir precisamos compreender melhor as nossas funções biológicas e afetivas. É de uma responsabilidade enorme o lugar que educador ocupa na vida do educando. Ainda diz Reich, que não temos o direito de dizer as nossas crianças como construir o futuro e o tipo de mundo que elas devem construir, já que nós nos mostramos incapazes de construir o nosso presente. O que podemos fazer é dizer às nossas crianças aonde e como falhamos. Equipá-las com o tipo de estrutura de caráter e vigor biológico que as capacitaria para tomar as suas próprias decisões e construir o seu próprio futuro.
O campo de atuação da prevenção energética é amplo, quando temos uma atitude mais afetiva na escolha de como vamos viver a vida, beneficiamos o nosso organismo. Para que o organismo possa viver de forma saudável ele precisa se aproximar da sua natureza biológica, amolecendo o que está rígido. O controle sobre a nossa natureza é sempre uma submissão, a nossa cultura nos submete, pois parte dela ainda é dominada pela cultura judaico cristã, que valoriza a guerra, a manipulação e a hierarquia do poder. Justificamos esta agressão à nossa natureza para dominar o Ser humano espontâneo, mesmo que seja em nome do conhecimento.
Dependemos do afeto e adoecemos quando este é negado em qualquer
momento da vida. Na origem do humano existe a solidariedade e a agressão,
que são instantes da convivência e não da finalidade,
como acontece na cultura que gera violência, isto é, a agressão
deixa de ser um meio saudável e natural de expressão para
ser a meta a ser alcançada a qualquer custo. A prevenção
se baseia na recuperação da nossa origem e é a onde
encontramos os movimentos para fazer a cultura a favor da natureza e assim
ganhamos a possibilidade de promover encontros mais humanos. O encontro
considerado mais humano, é o respeito pelas diferenças,
e isso nos dá a referência para a vida. Deste modo,
quando começamos a respeitar o outro encontramos a dimensão
ética da convivência humana. É a partir deste lugar,
que poderemos criar uma nova base para construirmos uma sociedade mais
natural em que possamos estar juntos e sermos diferentes, reconhecendo
as diferenças sem a necessidade de dominar o outro. Temos exemplos
da sociedade atual em que a crítica e a perfeição
são atitudes reforçadas como tentativa de dominar o movimento
livre e natural do outro e com isso submete o outro a condição
de dependência e fraqueza ao invés de tratar a critica
e a necessidade de perfeição como uma fraqueza da sociedade,
que se vê ameaçada pela imprevisibilidade do controle sobre
a potência e a vitalidade natural, quando esta se expressa
em seu pleno vigor. E com isso o feitiço vira contra o feiticeiro
e a cultura contra a natureza.
Portanto se faz necessário pensar a prevenção
energética desde o período pré-natal que é
período durante a gestação, momento fundamental para
a aquisição de uma base mais consistente e para compreendermos
a nossa estrutura energética e as nossas defesas.
É a partir das leis da natureza e de como ela funciona, que podemos compreender a nossa estrutura energética e emocional. É a partir da nossa natureza que vamos compreender o campo das nossas resistências. Sentir o que aconteceu a partir do bloqueio dar-nos-á a base para estabelecermos a relação funcional do nosso organismo. Dependendo das condições internas e externas e de toda a complexidade do nosso sistema de energia é que vamos viver os nossos bloqueios e resistências. Cada pessoa tem a sua especificidade para bloquear e também a sua riqueza para contribuir.
É importante considerar o nosso campo energético de começo de vida para compreendermos como nós organizamos a nossa energia. O período embrionário e fetal determinam as condições essenciais para o equilíbrio da nossa vida futura. Um ambiente intra-uterino com uma boa carga de energia é decisivo na qualidade do desenvolvimento do feto. O feto para desenvolver precisa de uma grande carga energética. O embrião está encapsulado na parede do útero e ligado pelo cordão umbilical à mãe, que o alimenta. Desta fusão biológica, ele absorve o que a mãe tem, não só da alimentação, mas também da situação afetiva dela, que será a base para o crescimento. Se a mãe de condições negativas alimentá-lo pela sua carência, medo e estresse será destes alimentos que criaremos a nossa base e também a nossa patologia. Uma mãe com pouca energia suga a energia do embrião, podendo levá-lo até a morte. Uma mãe energéticamente carente, com bloqueios que impedem o livre fluxo de energia e com tendências a desenvolver tumores, anemia, etc., o excesso de carga do feto vai ocasionar uma debilidade maior, o útero fica mais espástico e contraído, faltando oxigenação, levando-o a morte. Uma mãe vitalizada, pouco estressada, com mais calor, pode colaborar com a qualidade de nutrição intra-uterina e a condição emocional e energética dela será decisiva para o desenvolvimento da afetividade e a qualidade de contato que esta criança vai ter na vida. Desta forma, os problemas de uma má ou boa gravidez vai também depender da flexibilidade e contato da situação caracterial e biológica da mãe. A situação caracterial é o comportamento da pessoa e a forma como ela se defende no mundo. A situação biológica é a sua saúde física e energética.
Outra etapa importante é o nascimento, às vezes o choque do nascimento pode ser um estresse, portanto uma experiência bastante desagradável, que pode criar um caminho de defesa que será seguido como um padrão de ser. Uma defesa vivida de começo de vida como o estresse do nascimento, da amamentação e do desmame, como também, a entrada no campo familiar e no social criará um modo particular de se repetir esta mesma defesa na vida, criando assim uma cronicidade do movimento e perpetuando a patologia. Segundo Reich, a patologia é uma disfunção provocada pelo estresse em um determinado período de desenvolvimento ligado ao movimento de resposta ao nosso medo. E como consequência construímos as nossas bases de defesa na periferia nos separando do nosso núcleo primordial que se torna carente e esvaziado de energia.
Na vida o que temos que afirmar é um eu forte para não
nos misturarmos com o movimento do outro. O encontro afetivo da mãe
com o bebê é fundamental na formação do eu,
para que ele possa ir descobrindo a diferença entre ele e o mundo.
Quando é possível estabelecer a diferença entre a
boca e o peito, pode se dizer que está criando uma boa base para
à afirmação do eu no futuro. A relação
com o peito é fundamental, significa não só o alimento,
mas também à afetividade e o contato com o mundo. Se ele
tiver um bloqueio e uma tensão muscular na boca, vai também
viver uma forte ambivalência de amor e ódio pela mesma pessoa
e pela falta de identificação. Um bloqueio a nível
oral pode gerar sentimento de desnutrição e falta provocado
pela frustração de não preenchimento. Por um outro
lado, esse estresse oral pode provocar uma ambivalência no
sentido deste período o bebe se ver frente ao sentimento de querer
mastigar e se independente e de querer não mastigar e se manter
dependente dentro do seu crescimento. A ambivalência vivida neste
período se repetirá nos outros níveis de desenvolvimento
e determinará os nossos caminhos de dependência, buscando
no outro essa falta de referência e correrá o risco de viver
uma vida toda seguindo o caminho do outro, ou alienará nos movimentos
das exigências diárias, da educação repressiva
e moralista.
A prevenção energética reivindica que a
mãe tenha condições favoráveis para cumprir
sua função natural de nutridora e faça a sua transmissão
energética afetiva a partir da necessidade do bebê.
A educação é determinante neste momento, pois é
o começo da formação do eu. Navarro diz, que o bebê
nasce com um eu que existe, mais ainda não é. Quer
dizer, um eu ainda não afirmado. O bebê, precisa dos
anticorpos do leite materno e do contato afetivo para dar continuidade
no processo de afirmação do eu. Um trabalho de prevenção
durante a gestação e durante o período após
o nascimento, colaborará para a prevenção da couraça
da criança. O papel do educador neste começo de vida é
fundamental e pode colaborar para que ela tenha uma boa circulação
de energia no seu corpo, sinta-o livre, tenha a respiração
mais regulada ligada ao contato com as suas sensações e emoções
e possa pulsar, evitando que ele tenha frustrações
fortes, a ponto de refletir determinantemente em seu corpo.
Segundo Philippe Arriès, a preocupação que a educação e a saúde tem com o campo da família e o social se centrou na criança, fazendo dela o foco de todo o investimento de afeto. Sem medir os gastos, os pais renunciam os seus projetos, criando uma grande expectativa e exigência em relação aos seus filhos. Neste investimento não se ensina reciprocidade, se dá tudo, se sacrifica e não se pede nada em troca. As necessidades das crianças viraram uma grande empresa, que para elas tudo se prioriza, sem pensar qual seria a repercussão que este tamanho investimento poderia acarretar no mundo psicoafetivo delas. A criança se sente inútil e distorce sua função natural de desenvolvimento de autonomia e independência. Assustada com o tamanho investimento e incapazes de correspondê-lo, se sentem culpadas, fragilizadas sem condições de contato para a construção de um eu forte. Surge assim um eu fraco sem estrutura, reforçado só no seu papel social e impedido de afirmar-se na sua potência. Isto pode levar a uma imaturidade do caráter e em consequência a irresponsabilidade por si mesmo e pelo outro. Ensinar as nossas crianças a não se desviarem do que elas sentem pode leva-las a um contato maior com a sua realidade afetiva e social, dando mais sentido a própria vida.
Reich, quando pesquisou a fórmula da vida, observou que toda a excitação não descarregada virava agitação e se desdobrava em angústia e, ou ansiedade, que chamou de neurose. Ele nomeou este movimento de neurose, onde o prazer está vinculado a culpa. Por outro lado, o movimento de prazer e a satisfação dele nos dá a condição de restabelecer as nossas funções naturais e também a capacidade de carregar e descarregar energia dentro do próprio equilíbrio do organismo, onde ele pode se auto-regular. Uma reportagem da revista veja sobre os macacos da raça “Bonobo” nos chamou à atenção o modo como essa sociedade animal se relacionava e buscava os seus próprios meios de se auto-regular. Esta é a única espécie animal que não existe relação direta entre sexo e reprodução. Eles fazem mais amor do que filho. O sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade destrutiva. A facilidade de obter alimentos desestimulou o movimento da agressividade dos machos e incentivou a aliança entre as fêmeas. Desta maneira os vínculos mais duráveis se estabeleceram entre as fêmeas, que passam grande parte do tempo em atividades sociais ou brincadeiras sexuais. As fêmeas lideram a comunidade dos “Bonobo” e são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. A qualquer desequilíbrio entre elas ou com os machos, a chave da vida da comunidade é sempre sexual, provocando um comportamento de reconciliação.
A insatisfação sexual pode nos levar a violência e nos afastar do contato afetivo que inicialmente buscamos como tentativa de vida e de prazer. A constante frustração do prazer nos leva a sentimentos de revolta e a agressividade podendo gerar distorções de comportamentos sexuais e até mesmo as aberrações: como crimes, abusos sexuais e pornografias. Muitas vezes estas distorções são vistas como liberação da energia sexual e é fato que a mídia estimula tipos de pornografia como exemplos de liberdade. Na verdade é uma falsa liberação, e parece significar mais uma dissociação da afetividade e da sexualidade. Sendo a masturbação sexual um contato biológico de prazer e descarga , esta tem a intenção de buscar o prazer e descarregar a excitação natural do organismo. O movimento de auto satisfação deveria ser natural porque ele tem a função de ligar o biológico ao afetivo.
Um outro fator importante é podermos incluir a sexualidade natural infantil para o processo de identidade do corpo biológico e para a base da auto-estima da criança. A educação e a cultura reprimem a função natural de descoberta do prazer, da satisfação e da expansão, nos dirigindo mais para uma regulagem moralista dos nossos instintos. A masturbação é um movimento natural e acontece em função do instinto biológico da espécie, ela traz em si uma potência de carga e descarga de excitação biológica. Quando essa é impedida ou alterada na sua natureza de autoregulação, perdemos o contato com o nosso meio natural bloqueando a descarga energética gerando o estresse.
É nossa a responsabilidade de buscar o prazer e a satisfação sexual como uma busca fundamental da saúde energética. Ao invés disso, o social doente, nos pressiona a trilhar um caminho de medo e culpa do prazer estimulando assim as nossas defesas contra a nossa potência natural. Nós nos tornamos pessoas alimentadas pelo poder e pela violência como um jeito de compensar a falta de potência.
A consequência do estresse da educação repressiva cria o medo do castigo e a culpa do prazer, que vai servir como base de referência nesta nossa realidade doente. Com essa realidade vamos desenvolver uma reação de sobrevivência expressa pelo ódio em relação a tudo o que é vivo e espontâneo. E com isso aparece uma necessidade de controlar e manipular os movimentos mais livres e imprevisíveis da vida. Ex. a necessidade de controlar o futuro, controlar a morte, o orgasmo etc.
As nossas defesas mais arraigadas nos levam a confundirmos os valores naturais do nosso desenvolvimento biológico natural e com isso passamos a alterar o nosso jeito de funcionar. Assim, os nossos valores naturais, como a atitude de colaboração e realização profissional são alterados e substituído pela atitude de competição e carreirismo. Dentro deste prisma, existe a distorção dos valores humanos que são essenciais para uma base saudável de troca: Dignidade para Orgulho, Potência para Poder, Individualidade para Egoísmo, Cooperação para Competição... etc., assim o papel do professor precisa ser visto e reconsiderado de que lugar ele vem sendo construído. Se é de um lugar de sua vaidade e orgulho, sem um contato mais afetivo, ele vai colaborar com um encouraçamento e a desconexão do Ser. Se for de um lugar mais integrado ao seu íntimo, onde o seu desejo de compartilhar o conhecimento e o saber é natural e espontâneo vai colaborar para o resgate da espontaneidade e alegria associada a um eu mais forte afirmado na sua potência de ser. O pensar funcional ligado a função educativa é olharmos para nós e para o outro, sentido primeiro para depois pensar e compreender.
É da nossa responsabilidade tentar interromper este círculo e acreditarmos como educadoras do funcionamento da vida, que uma boa educação precisa de medidas educacionais terapêuticas. A educação ligada ao desenvolvimento infantil sem considerar o auto desenvolvimento do educador não adianta mais, precisamos de um olhar clínico, isto é, cuidar da saúde energética do professor e do aluno. Na educação temos que respeitar a curva do movimento de cada um, a do educador e a do educando. É muito diferente olhar a educação, o profissional de ajuda e o educando do ponto de vista da energia. Este modo de olhar oferece mais condições para se respeitar a individualidade de cada um, para se fazer contatos que nutra os dois lados e assim aprendermos que a troca e o conhecimento acontece dentro do campo da energia, isto é, não é autoritário, só um lado se beneficia, e o outro se submete.
A mãe também precisa de ter uma certa humildade com a criança para fazer contato, e se for possível fazer um contato afetivo haverá a troca. A criança também se abre para se desenvolver, e quando isto ocorre o campo energético fica potente e tem fluidez . Atualmente, em algumas escolas, ainda se confunde problema emocional com a limitação da capacidade de inteligência da criança. Dentro desta perspectiva não existe criança burra, com limitação para aprender, mas sim criança com bloqueio energético que impede o contato com a aprendizagem. Quando a educação tenta impor o conhecimento por medidas repressiva essas próprias medidas rouba a energia vital da pessoa e os nossos recursos naturais disponíveis para aprendermos ficarão também reprimidos. Temos como exemplo uma criança quando forçada a controlar suas funções esfincterianas antes do pleno desenvolvimento dos seus reflexos esfincterianos e dos seus movimentos peristálticos que costumam não se completar antes dos quatro anos de idade, está reagirá com ressentimento, podendo recusar-se no futuro a fazer qualquer coisa que exija dela alguma força, pois bloqueou sua pélvis provocando um dano bioenergético, e provavelmente desenvolverá um comportamento de atitude de um não para a vida. No futuro poderá ter dificuldades de sentir sensações de prazer, pois limitou sua função natural. Desta maneira poderá se repetir em outras situações como na aprendizagem do comer, do andar, do ler, escrever etc. , que quando forçados precocemente podem alterar o ritmo natural da criança criando processos de ansiedade e angústia em relação a aprendizagem. Assim, bloqueamos os órgãos do sentido e nos tornamos endurecidos na nossa percepção da realidade e perdemos os nossos recursos de defesa biológica, ficando um vazio do contato. A partir daí o que resta é nos deixarmos ser tragados pela repressão e com isso perdermos o nosso propósito e o contato com o que realmente somos e podemos contribuir.
Compreender o nosso temperamento e caráter é fundamental para uma nova educação, nós somos a base, transmitiremos o que somos e se a educação estiver mais fundamentada no desejo que na necessidade, iremos reforçar mais as nossas defesas, pois o processo da educação está identificado com a couraça e ligada ao nosso sistema de defesa. Entendemos aqui, como desejo o movimento de defesa estimulado pela sociedade de consumo, que é Ter, como referencia de vaidade e poder, exp., ter dinheiro, ter sucesso, ter prestígio etc. E entendemos como necessidade os movimentos biológicos, que é Ser, saber quando precisa de nutrição, sede, calor, sexo, e devem ser preenchidos. Na maioria das vezes negamos as nossas necessidades e portanto o contato com o nosso temperamento. Segundo Navarro, para se ter um caráter é necessário ter um Eu, o caráter é o caráter do Eu, quer dizer que uma pessoa só tem o caráter se ela tiver um Eu afirmado. A formação do eu começa no período intra-uterino, ele existe, mas ainda não é, temos todo um percurso dentro do nosso desenvolvimento para afirmar este Eu, para vir a Ser a si mesmo.
E, se a educação, pelo estresse que ela impõe, nos afastar do nosso caminho natural que é vir a Ser um Eu afirmado, forte e potente, capaz de sentir a vida, fazer escolhas e contribuir para o equilíbrio do planeta, ficaremos doentes, tristes e deprimidos, impedidos de colaborar e criar um campo para a expressão do Ser e do Fazer. Segundo Navarro, o estimulo ao nosso “self control” ,rigidez psicológica e muscular, reforçado por certo tipo de educação e cultura nos impede de ter uma conduta de humildade, humanidade e humor e poder se abandonar a si mesmo e ao outro.
Não é fácil tomar o caminho da consciência e da saúde energética, isto implica olharmos não só panoramicamente a vida, mas enxergá-la dentro do nosso eixo de dentro para fora e de fora para dentro. Implica em sentir, escolher e dar uma direção para a verdade que pulsa dentro da gente, abrir nossa consciência para sermos protagonistas das nossas próprias vidas. A visão deveria estar ligada a perspectiva de saber Ser, e quando emancipamos a importância de Ser então seremos independentes, não mais alienados ao desejo do outro. A função educativa deveria servir como recuperação de uma base em que se possa ter mais confiança em si, naquilo que está vivo, como condição primordial para expressão do nosso potencial. É preciso educar e proporcionar saúde energética ao educador antes de tudo, focá-lo na motivação da sua escolha na vida, conscientizá-lo do que é ser profissional de ajuda.
Ser um profissional de ajuda é antes de tudo aprender a respeitar a si mesmo, respeitar o que se passa lá dentro no seu íntimo e não seguir reativamente só o movimento da defesa, este, que estimula a auto-imagem e o poder. O educador sofre muitas vezes por seu movimento defensivo, por construir uma auto-imagem que muitas vezes não combina com a sua necessidade verdadeira. Ele se torna um educador autoritário e competitivo, não cooperativo como o movimento de necessidade ao desenvolvimento de um Eu potente na criança.
Ensinar as nossas crianças a não se desviarem do que elas sentem pode levá-las a um contato maior com a sua realidade afetiva e social, dando sentido a própria vida. Devemos levar em conta, uma série de áreas e funções, que são esquecidas no processo da educação atual, isto é, sensibilidade e qualidades também são propostas de desenvolvimento curricular, que deveriam ser consideradas em qualquer programa educacional e não só o processo do intelectivo. A estrutura da educação engloba, não só a relação com o cortical que é inteligência cognitiva, como outra natureza de conhecimento que seria a nossa intuição, empatia, sonhos, experiências com o corpo sutil, que é a relação com a energia do corpo não físico, que também chamamos de corpo etérico ou aura e a relação dos órgãos viscerais, que são os nossos sentidos.
A função educativa, aquela que nos integra com a nossa própria natureza, considera fundamental a nossa condição natural de focar a realidade dos nossos sentimentos. Também colabora para um melhor centramento do encontro consigo, dando condições de reconhecer a diferença do eu e não eu, base essencial para se relacionar com o outro sem se misturar com o movimento dele. Aprender a viver com o outro e não mais para o outro.
Diz Reich, que a chaga psíquica que deu origem as ditaduras e
ao câncer e a toda a forma de encouraçamento nos mantém
seres com medo do prazer e da vida e de qualquer pulsação
e função sexual natural. A rigidez biológica, o moralismo,
negação sexual e a religião que prega contra a vida
natural, se espalhou e contaminou tudo o que é vivo no mundo.
Pensamos que um dos veículos responsáveis por esta doença
é a educação doente e compulsiva que repete este movimento
através de um pensamento mecanicista guiados por valores moralistas
e anti-sexuais da vida. Vemos isto se repetir nos sistemas educativos abertos
que se dizem preparados para o acolhimento do movimento do cerne. É
uma contradição quando isto efetivamente ocorre, quer dizer,
o movimento do cerne aparece, o sistema não tem como acolher, pois
ele não reconhece este nível de expressão. A pessoa
fica discriminada porque isto vai apontar uma falha no método e
o que ocorre normalmente é ela tornar-se bode expiatório
e consequentemente é eliminada do grupo. Neste ciclo aparece
a velha atitude autoritária, que controla e limita tudo aquilo que
não pode compreender e solucionar.
A verdadeira educação deveria seguir o princípio
da nossa lei natural interna. Não existe nada idealizado e perfeito,
a nossa realidade é pequena e simples e para nos re-ligarmos e recuperarmos
a nossa natureza, muitas vezes é um pouco penoso. Apesar de
toda a nossa couraça da qual nos defendemos do nosso cerne somos
potentes no íntimo e estamos tentando fazer o melhor que a gente
pode. O princípio da vida, com certeza é mais amplo
e mais profundo do que qualquer princípio educativo, o princípio
da vida nos dirige a finalidades preventivas altamente natural. O princípio
educativo vindo de uma couraça rígida, que é o que
encontramos em toda a miséria emocional não dá mais
para nos guiar. A prevenção do encouraçamento é
o aspecto principal para uma nova educação. Desencouraçados
temos o poder para mudar as instituições e ideologias e com
isso a solução para os nossos problemas. Para uma nova educação
o princípio é amar o vivo e trazer o homem de volta à
natureza, é esta a nossa “ terra prometida.”
* Federico Navarro, neuropsiquiatra, fundador da Escola Européia de Orgonomia, sistematizou a metodologia clínica em Vegetoterapia caracteroanalitica e orgonomia baseada nas idéias de W. Reich.
* Philippe Arriès, historiador com ampla pesquisa sobre a criança e a família com grande contribuição para o pensamento contemporâneo.
Reich, W. The Cancer Biopathy, Farrar, Saraus Nd Giroux, NY 1973
Reich, W. Éter, Deus e o Diabo
Reich, W. Children of the Future
Navarro, F. Caracteriologia Pós-Reichiana Summus editorial
Navarro, F. Somatopsicodinâmica das Biopatias, Relume Dumará
Serrano, X. La Pedagogia Orgonômica. Valencia l985.