O R G O N izando
HISTÓRIA DO CONCEITO DE ÉTER
por José Guilherme Oliveira
Trabalho apresentado em
-
Seminário Comemorativo do Centenário de Wilhem Reich - UFRJ
- novembro/1997
- Homenagem a Wilhelm Reich - CeReich/UERJ
- dez/97
© 1997 - Direitos Autorais
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da citação fora do contexto não venha a ser deturpado
ou passível de má interpretação.
Sinopse & Abstract / Introdução
/ História / Conclusão
/ Bibliografia
SINOPSE
Apresentamos aqui um breve histórico
do desenvolvimento do conceito de éter, desde os gregos clássicos
até a atualidade, visando contribuir para o esclarecimento do conflito
sobre a existência deste meio sutil, que foi defendida por Reich
mas que é negada em muitos meios acadêmicos. Apontamos alguns
fatos que demonstram a presença de uma questão ideológica
que dificulta a produção de um consenso científico.
Das teorias mais recentes, apresentamos algumas que parecem coerentes com
a perspectiva reichiana. |
ABSTRACT
We present here a brief history
of the concept of ether, from the classic Greeks to actuality, in order
to bring a contribution to ease the conflict over the existence of such
a subtle medium, which was defended by Reich but condemned in many an academic
environment. We point to some facts that show there is an ideological question
present that upsets the achievement of a scientific consensus. Of the recent
theories on ether, we present some that seem consistent with the reichian
understanding. |
INTRODUÇÃO
Como eu tive uma formação anterior na área de ciências
"exatas" (que termo mais ultrapassado!), quando comecei a ler Reich, fiquei
surpreso ao perceber que a sua conceituação de orgone se
fundamentava em um meio etérico. Por tudo que eu havia aprendido
até então, este era um conceito que havia sido abandonado
pela física desde a Teoria de Relatividade de Einstein.
Comecei a investigar um pouco esta questão, e fui me dando conta
que esta era uma visão ideológica, que tem sido questionada
por inúmeras teorias alternativas à corrente dominante na
física. E fui descobrindo que há na Física Contemporânea
conceituadas teorias coerentes com a perspectiva reichiana.
A HISTÓRIA
Gregos / Newton / Eletromagnetismo
/ Einstein / Reich / Coutney
Baker / David Bohm
Os Gregos
O conceito de éter tomou corpo na Grécia, tendo especial
importância a obra de Pitágoras. Para os gregos era um éter
de movimento e ubiqüidade.
“Éter é palavra de origem grega: aithér, que significava,
primitivamente, uma espécie de fluido sutil e rarefeito que preenchia
todo o espaço e envolvia toda a terra (ubiqüidade: o estar
em toda a parte a todo o tempo).
Os gregos, fazendo uso da linguagem, compuseram esse termo, provavelmente,
a partir de aeí ("sempre"), e de theîn ("correr");
aquilo que sempre corre, o que está em perpétuo movimento.”
Newton (sec. XVII)
Desde os gregos, a crença em um éter foi pouco questionada
por muitos séculos, sendo fundamental entre os alquímicos.
No sec. XVII, a teoria gravitacional de Newton, trouxe uma primeira
dúvida, pois falava de uma ação à distância
sem a necessidade de um meio interveniente. Mas seria isto mesmo?
Vejamos
um texto do próprio Newton:
"É inconcebível
que a matéria bruta inanimada possa (sem a mediação
de algo mais que não é material) operar sobre outra matéria,
e afetá-la, sem contato mútuo... Que a gravidade seja inata,
inerente e essencial à matéria, de modo que um corpo possa
atuar sobre outro à distância, sem a mediação
de algo mais, por meio do qual e através do qual sua ação
ou força possa ser transmitida de um para outro, é para mim
um absurdo tão grande que acredito que nenhum homem dotado, em assuntos
filosóficos, de qualquer qualidade competente de pensar, possa jamais
nele incidir." 1
Além disso, no seu estudo da luz, Newton falava de uma luz fenomênica
(a estudada pela Ótica), mas também de uma luz numênica,
de características que vão lembrar em alguns pontos algumas
facetas do orgone.
Eletromagnetismo (sec. XIX)
O eletromagnetismo, desenvolvido principalmente por Maxwell e Faraday,
trouxe contribuições fundamentais como o do conceito de campo.
Os campos tinham o éter como o meio de sua propagação,
mas o eletromagnetismo prescindia do movimento deste éter e passou
a tratá-lo como um éter estático.
Na
década de 1880, o experimento de Michaelson-Morley tentou medir
a velocidade da Terra, correspondente aos seus movimentos planetários
e galácticos, nesse meio. O fato de não ter encontrado nenhum
movimento significativo veio a servir de base para a Teoria da Relatividade
de Einstein, e foi interpretada como uma prova contra a existência
de um éter que serviria de um referencial absoluto no universo.
Entretanto, Morley continuou seus experimentos com Müller, e este
mais tarde, em 1925, mediu um movimento para a Terra no éter que
é coerente com o seu deslocamento galáctico, hoje conhecido.
Um fator determinante foi a questão da altitude, o experimento foi
feito no topo de uma montanha. Esta condição é coerente
com a visão reichiana do envoltório orgonótico da
Terra, que é mais denso à medida que se afasta da superfície.
Einstein e a Teoria da Relatividade (1905)
Para Einstein, o éter existe, mas é o próprio espaço-tempo.
No entanto, esse éter nem é estático nem tem movimento,
pois se o movimento é um deslocamento no espaço ao longo
do tempo, como o próprio espaço-tempo poderia se deslocar
em si mesmo? O conceito deixa de fazer sentido:
"O
espaço é dotado de qualidades físicas; neste sentido
existe um éter. Um espaço sem éter é impensável,
pois nele nem haveria propagação de luz, nem a possibilidade
de medida, nem portanto intervalos de distância ou tempo. Mas esse
éter não é dotado com a qualidade de um meio ponderável,
consistindo de partes que evoluem no tempo. A idéia de movimento
não é aplicável a ele."
Einstein também conseguiu equacionar o problema da constância
da velocidade da luz, uma questão que permeia a maioria das teorias
sobre o éter.
Reich (anos 40 e 50)
Para Reich, o éter é um oceano de energia cósmica,
de onde despontam unidades de energia orgone, como as cristas de ondas
nesse oceano. São as propriedades deste éter que vão
determinar às ações à distância, como
a gravidade.
O espaço estaria cheio desta energia, deixando de ser um espaço
vazio. A Terra, ao se movimentar neste éter, teria em volta de si
um envoltório orgonótico, que é arrastado junto com
ela.
Mas
Reich percebe uma característica fundamental da energia orgone,
que a distingue das outras formas de energia (e que prenuncia a questão
da organização da complexidade encontrada mais recentemente
em Winiwater2 e Prigogine): a energia
orgone flui do sistema menos carregado para o mais carregado, ao contrário
das outras formas de energia. É a partir desta propriedade
que se configura a sua característica neguentrópica relacionada
com a construção da vida e da complexidade.
Uma outra perspectiva original de Reich neste tema, é a sua observação
de uma possibilidade de uma percepção direta do orgone.
"A importância da
estrutura do observador é explicada pelo fato de que é a
própria energia orgone nos órgãos do sentido que reage
aos fenômenos externos do orgone."
Coutney Baker (1987)
Coutney Baker propõe uma releitura da física a partir de
uma perspectiva do funcionalismo orgonômico. Questiona o conceito
de energia da física como sendo uma mera abstração
contábil sem um significado que a caracterize como uma entidade
real. Vai propor uma abordagem centrada em um meio etérico, tomando
por base um modelo de éter proposto em 1931 por Fernando Sanford.
Sanford via o éter como um meio imperfeitamente elástico,
de cujas alterações decorriam a massa e a carga das partículas.
As forças seriam efeitos de uma reação do éter
para reduzir as tensões decorrentes dessas heterogeneidades.
Para Baker, os impulsos de energia seriam pacotes condensados do éter,
essa energia seria primária e teria um significado concreto. Seria
aquela entidade que daria origem ao movimento. Os conceitos de espaço
e tempo seriam decorrentes de uma resistência ao movimento, pois
sem resistência, qualquer movimento seria instantâneo, e não
haveria nem distância nem duração, já que os
objetos poderiam estar simultaneamente em múltiplos lugares.
Eu prefiro fazer a seguinte reorganização desses pressupostos:
-
O éter é um meio contínuo imperfeitamente elástico:
é dotado de elasticidade e resistência.
-
É constituído de energia livre, essa liberdade gera heterogeneidades
no tempo e no espaço. No tempo: movimento; no espaço: tensão,
estrutura. Toda heterogeneidade é fonte de informação.
-
A resistência suporta a heterogeneidade e possibilita a estrutura
(espaço).
-
A elasticidade minimiza a heterogeneidade e suporta o movimento (tempo).
Baker caracteriza algumas propriedades de um éter visto como um
oceano de energia orgone, básicas para se entender a natureza essencial
da energia.
-
O meio orgonótico é um continuum: não existe ação
à distância.
-
Há neste meio duas tendências opostas: uma de auto-atração
(contração), outra de expansão, juntas elas geram
a pulsação.
-
O meio tem uma densidade variável, como se observa nas concentrações
de energia orgone, que flui da menor para a maior.
-
Ele é fonte de movimento espontâneo, que toma as formas de
ondas, helicóides, fluxos e pulsações.
-
O meio cria e suporta estruturas, como formas de movimento estruturados
e caóticas. Esse movimento arrasta a matéria, que seria um
movimento congelado.
-
O meio é elástico. Ele transmite energia e a armazena em
campos.
-
O meio suporta tensões, possibilitando a existência de diferenças
de potencial.
-
Ele porta informação.
-
O meio é diferente do espaço. É o tempo de trânsito
da energia que permite a apreciação do espaço.
-
É uma referência para o movimento. O movimento em relação
ao éter faz sentido, mas relação ao espaço
não.
David Bohm (1980)
A física quântica tem se mostrado ao longo deste século
um referencial teórico extremamente confiável, mas se a aplicabilidade
das suas equações está cada vez mais comprovada, o
que elas significam é passível de múltiplas interpretações.
Mesmo a interpretação de Copenhagen, feita nos anos 20, só
perdura até hoje após ter sofrido muitas emendas, e fala
de uma visão subatômica probabilística, não
determinista. Bohm produziu uma nova interpretação deslocando
o indeterminismo da partícula para a informação que
a guia.
Seria um universo cheio de energia, muito mais um plenum que um
vazio, que ele vem denominar de holomovimento. Dentro desta visão
ele mergulha nos fenômenos de sincronicidade e vem nos falar de um
universo indivisível, onde a informação do todo está
em todas as partes, e se tudo move permanentemente. A questão da
informação é básica para Bohm, tudo no universo
é organizado por dois tipos de ordem: e a ordem implicada
(ou implícita, envolvida), e a ordem explicada (ou explícita,
desenvolvida). Tudo no universo pulsa entre essas duas ordens, a explicada
é a que se forma pela discriminação a partir do todo,
a implicada é a que se inscreve no todo a partir do individual.
O plenum transporta a ordem implicada. As ordens explicadas podem ter diferentes
níveis de complexidade, a ordem implicada existente no holomovimento
e tem um nível de complexidade e uma dimensionalidade infinitas.
O que nós vislumbramos como dualismos -- vivo/inanimado,
corpo/mente -- são apenas diferentes projeções desse
holomovimento em ordens mais simples.
A consciência se aproxima da ordem implicada: imagine-se ouvindo
uma melodia, a primeira nota é ouvida e vai deixando um vestígio
na mente que se liga à próxima nota dando uma continuidade
à música, a nova nota deixa um outro vestígio e assim
sucessivamente. Cada nota ao deixar vestígios está se envolvendo
em um complexo, se inscrevendo em um todo. A explicitação
a partir dessa ordem mais implícita seria a rememoração
ou a reorganização em uma nova idéia.
Sob esta perspectiva, o movimento deixa de ser uma relação
entre algo que existe e algo que não existe mais, pois o passado
deixa vestígios na ordem implicada, que continua existindo e passa
a relacionar duas entidades existentes no presente, um vestígio
e um acontecimento.
Eu vejo nesta teoria, não só uma produção
de resultados bastante compatíveis com os da orgonomia, mas algo
que pode em muito enriquecê-la. O holomovimento eqüivale a um
oceano de energia cósmica de uma dimensionalidade infinita, do qual
percebemos projeções, como as unidades de energia orgone:
as cristas das ondas do oceano, como dizia Reich. É um conceito
de "éter" coerente com os progressos da ciência contemporânea,
que resulta numa visão da unidade corpo-mente, e que traz em si
uma possibilidade de entendimento dos fenômenos neguentrópicos
-- como os que ocorrem com a energia orgone -- a partir da inserção
das ordens explicadas numa ordem implicada universal.
CONCLUSÃO
Além das teorias sobre o éter aqui apresentadas, dezenas
de outras foram encontradas na bibliografia citada, indicando que, se ainda
não dispomos de um conhecimento que precise um entendimento comum,
há cada vez mais indícios que a ciência vem se aproximando
desta realização. Procurei apresentar alguns exemplos que
se revelaram coerentes com a perspectiva orgonômica e/ou que pudessem
enriquecê-la. É um momento semelhante ao do início
do eletromagnetismo, onde aos poucos as diversas hipóteses foram
convergindo para um saber mais sólido.
A percepção de que há pressupostos ideológicos
por traz de alguns saberes que se revelam contraditórios, de que
há uma questão paradigmática que neste caso se reflete
numa polaridade entre uma herança mecanicista e uma visão
holística, é um passo para que se possa desenredar as oposições
existentes hoje. Esses conhecimentos distintos são apenas projeções
reduzidas de uma mesma ordem implicada, mas onde cada saber reflete um
aspecto distinto a ser integrado em um entendimento mais completo.
NOTAS
1 citado por Sheldrake
2 vide Bourgignon
BIBLIOGRAFIA
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[Contém referências
a dezenas de outras teorias.]
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da vida: conhecimento, amor e trabalho.
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