Funções energéticas:
Fundamentos para estratégias clínicas
revisado em agosto/2001
José Guilherme Couto de Oliveira
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venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.
apresentado na II Jornada Reichiana
Universidade Santa Úrsula / CRP-05
Resumo
Neste trabalho utilizo um referencial de análise sistêmica
aplicado aos conceitos da orgonomia e da psicoterapia. De forma a embasar
teoricamente uma escolha de uma estratégia clínica a ser adotada conforme
o estado e a dinâmica energéticos do paciente, pretendo aqui analisar
as funções energéticas que um organismo pode assumir
na sua relação com o seu meio ambiente. As formas como a energia cósmica
livre de massa pode se ligar à matéria e ser investida em
um organismo vão constituir a sua estrutura, defesa, metabolismo
e expressividade. O desequilíbrio entre elas vai condicionar o
caráter e o sintoma, e serve como referencial para o projeto terapêutico.
Conteúdo
Da energia
Ao estudar as formas de deterioração da matéria (os bions), Wilhelm
Reich inicialmente descobre uma energia biológica, que ele denomina de
orgone.
No decorrer de sua obra, ao perceber na atmosfera e nas galáxias
fenômenos com uma dinâmica semelhante à do orgone biológico, este conceito
vai evoluindo para o de uma energia cósmica primordial livre de massa
da qual a energia biológica, o envoltório de energia orgone atmosférica da
Terra e todas as demais funções do universo seriam derivadas.
Portanto, ao falar de energia orgone, devemos distinguir
entre a energia orgone cósmica primordial livre de massa e as suas
manifestações ao se ligar à matéria, como a bioenergia e o orgone
atmosféricos.
Da entropia[1] ou indisponibilidade energética
Reich percebeu um caráter organizador na energia
orgone que a distingue das demais energias, que têm uma tendência entrópica
de caminhar para uma desorganização e uma homogeneidade. O conceito de
organização geralmente envolve a percepção de um significado, pois quando
não se percebe um sentido na heterogeneidade, a diversidade é vista
como acaso ou como caos, não como ordem.[2] Reich chegou
mesmo a reconhecer um comportamento prenhe de significado na energia orgone:
"[The basic antithesis of OR and NR] (...) had
brought into sharper focus many seemingly insignificant assumptions
regarding cosmic orgone energy functions such as, for example, its 'meaningful'
behavior, which distinguished it from any kind of purely mechanical
functioning such as electricity or magnetism. From the cosmic OR energy
ocean all other functions emerge through variation." [REICH,
The Oranur Experiment – First Report, cap. VI, p.326]
Entretanto, a partir deste caráter organizador (neguentrópico) da energia
orgone, e pelo fato dela fluir do menor para o maior potencial, o que
aumenta a heterogeneidade gerando diversidade, ele conclui que a energia
orgone invalida a segunda lei da termodinâmica (2ªLT), o “princípio da
entropia”[3] – Todo o sistema em equilíbrio,
deixado a si mesmo, tende à homogeneidade.
Posteriormente, Prigogine ao estudar as estruturas dissipativas, conclui
que o processo organizador não é incompatível com a 2ªLT, o que ocorre
é que um sistema pode se organizar repassando o adicional de entropia
para o seu meio ambiente. Portanto, mesmo os sistemas orgonóticos seguem
as leis termodinâmicas, pois um sistema orgonótico não pode ser nunca
considerado um sistema em equilíbrio deixado a si mesmo; no entanto há
um aumento entrópico envolvido, ainda que seja repassado para fora do
sistema.
Se analisarmos recorrentemente o que ocorre com a entropia nos processos
organizadores, tomando cada meio ambiente como um novo sistema até atingir
o âmbito do universo, percebemos que a organização ocorre evolutivamente
em todos os níveis, o próprio universo está evoluindo. Portanto, para
onde estaria indo o excesso entrópico gerado a cada transformação? Esse
excedente está vinculado à própria expansão do universo. Pois ao se expandir,
o espaço se torna menos concentrado, mais difuso, portanto mais entrópico.
É a expansão do espaço que ao absorver a entropia possibilita a organização
da matéria. Este é um corolário básico de ampla aplicação, para o
qual devemos atentar em nosso trabalho clínico cotidiano.
Da ligação da energia à matéria
O conceito reichiano de oceano de energia cósmica ganhou
uma nova credibilidade recentemente com os desdobramentos da física quântica,
pois ele equivale ao conceito de holomovimento – uma ordem implícita
do universo de imensa energia subjacente a todas as suas ordenações explícitas,
como a matéria e as energias eletromagnética, gravitacional, nuclear,
térmica, cinética, etc.
Segundo esta perspectiva quântica, em primeiro lugar, a
consciência é uma espécie de portal entre o universo objetivo (a
ordem explícita) e o holomovimento (a ordem implícita que corresponde
ao oceano de energia orgone livre de massa), portanto tornando ainda mais
pertinente o estudo dos processos orgonóticos na clínica. E em segundo,
haveria uma pulsação básica no universo, entre o explicitar-se e o implicitar-se,
desde o nível das partículas mais elementares, até os seres vivos ou os
aglomerados galáticos.
Todo processo expressivo é um processo de explicitação
de uma ordem pré-existente (uma ordem até então implícita).
Todo processo dissociativo é uma cisão numa ordem mais explícita,
que impede a discriminação desta ordem. O processo dissociativo vai reforçar
um processo fusional em um nível mais implícito.
No seu processo de explicitação (que equivale a dizer onde
ou como a energia livre de massa é investida na matéria),
a energia orgone livre de massa pode assumir formas mais objetais, fixas
e densas, como a matéria, ou mais relacionais, voláteis, pulsantes e sutis[3a],
como os processos fisiológicos, a psique, a espiritualidade, a expressividade,
a gestalt das relações grupais, etc. Portanto, abrangendo
o corpo, a psique e o socius. Nunca uma forma de energia é totalmente
fixa, e só é totalmente livre no oceano de energia cósmica, tudo o que
existe no universo se encaixa dentro de um amplo espectro de intensidades
de ligação.
Da energia mais fixada
Os estados mais estáveis em que a energia orgone livre de
massa é investida em um sistema orgonótico vão constituir a estrutura[4]
e as defesas do sistema, os estados mais mutáveis vão constituir
o metabolismo energético do sistema. Como a fixação é sempre relativa,
nada impede que uma parte da estrutura ou da defesa venha a se metabolizar
(por exemplo, no emagrecimento ou na expressão direta de uma emoção de
longa data reprimida), ou vice-versa. Mesmo a matéria, uma forma bem fixada,
pode se desintegrar em energia.
Podemos encarar estrutura, defesas e metabolismo energético
como funções que a energia orgone livre de massa pode assumir ao
se ligar a matéria em um sistema orgonótico.
Mas o que seria a estrutura de um sistema e o que diferencia
a estrutura das defesas? Eu gostaria de propor aqui alguns critérios para
uma diferenciação funcional:
Uma estrutura ideal é aquela que permite ao organismo ou
ao sistema orgonótico interagir com os estímulos recebidos do seu meio
ambiente dentro de um ciclo de tensão – carga – descarga – relaxamento,
com um bom aproveitamento energético que aumente não só a sua organização
interna mas também a organização do seu meio ambiente, transferindo a
entropia excedente para o espaço através de um processo expansivo. Para
que tal seja possível, é necessário que o sistema tenha um bom potencial
de amplitude de pulsação[5],
ou seja, que possa suportar um grande aumento de carga sem se desestruturar.
Portanto, a estrutura pode ser avaliada pelo seu potencial de amplitude
de pulsação, e podemos defini-la como a capacidade de
um sistema suportar uma variação de carga sem se desorganizar.
Já as defesa protege o sistema dos estímulos do meio,
dissipando[6]
o excedente da energia recebida através do estímulo. Se a defesa
for funcional, a energia é dissipada no meio ambiente; se for desfuncional,
ela é dissipada no próprio sistema aumentando a sua desorganização interna,
ou seja, enfraquecendo a sua estrutura. Enquanto a estrutura possibilita
que o sistema pulse sem se desorganizar, a defesa aparece com uma resistência
à pulsação que diminui a sua amplitude. Uma defesa pode se localizar tanto
na fronteira do sistema, quanto internamente a ele. As defesas mais funcionais
se localizam na fronteira do sistema, de forma a poder dissipar
no meio ambiente a energia rejeitada.
Podemos classificar essa fronteira em três tipos:
-
Membrana (permeável): Seleciona as trocas com
o meio deixando passar aquelas que podem ser metabolizadas pela estrutura
do sistema, e impedindo a entrada das demais. Ela também impede que
o sistema se esvaia. A membrana é um dispositivo básico para garantir
um tempo de vida com mais de um ciclo de carga/descarga.
-
Blindagem (tende ao impermeável): Limita em demasia
as trocas com o meio, levando a um fechamento do sistema. A curto
prazo, pode proteger a estrutura de uma desorganização por excesso
de carga ou de descarga; mas ao isolar o sistema, segundo o princípio
da entropia, a sua organização é perdida a longo prazo, ela impede
a expansão e leva o sistema fechado à degeneração.
-
Difusa (transparente ou translúcida):
É a falta de limite, que não consegue filtrar os estímulos excessivos
do meio. Um sistema com uma fronteira difusa é muito aberto, e pode
ser destruído por invasão. Também pode ser destruído por um excesso
de descarga, como ocorre com as tempestades atmosféricas, que não
têm uma membrana para garantir a sua permanência; ou mesmo pode ser
destruído se esvaindo, deixando de se discriminar do meio,
como ocorre freqüentemente com as nuvens brancas.
Todo organismo é um sistema complexo constituído
de uma estratificação de subsistemas, cada qual com a sua
fronteira. Um estímulo externo excessivo pode eventualmente atravessar
a fronteira mais exterior do organismo e ser barrado por uma dessas fronteiras
de seus órgãos internos. Neste caso a energia do estímulo
é dissipada dentro do organismo.
A conceito de fronteira não engloba apenas as fronteiras
físicas, como a pele; mas depende da forma de comunicação ou de troca
com o mundo. Por exemplo, pode se localizar nas muralhas do castelo, na
família, na linguagem, no recalque, em um programa anti-virus, no preconceito,
na lei, etc.
Quando um estímulo atravessa a fronteira e gera uma carga
maior do que a estrutura pode suportar, essa estrutura se fissura, criando-se
uma situação traumática e desorganizando o sistema. Por já ter
atravessado a fronteira, a energia acaba sendo dissipada dentro do sistema,
por isso as situações traumáticas são tão desorganizadoras, a entropia
não é repassada ao meio ambiente. As situações traumáticas são sempre
ligadas a uma hiperexcitação (hipercarga) que gera uma ruptura ou defesa
dissociativa [6a].
Como a defesa dissociativa não é uma defesa de fronteira externa, e sim
uma defesa da fronteira interna gerada pela fissão estrutural, ela vai
continuar dissipando a energia dos estímulos subseqüentes
dentro do sistema o que leva a uma desorganização crescente.
Mecanismos estruturais
Um bom mecanismo estrutural é a mola. Por exemplo, uma musculatura
elástica, de um tônus adequado, pode suportar carga e depois descarregar-se
sem prejuízo para o organismo. Neste processo, exercita-se e com isso
se fortalece. Se há um controle primário[6b]
adequado, que depende de uma pausa no clímax da excitação, a descarga
se dá em sintonia com o meio numa interação construtiva, com pouquíssima
dissipação de energia.
Mas há vários mecanismos pelos quais uma mola pode perder
a sua funcionalidade:
Ø Se
a sua elasticidade virar plasticidade, ela deixa o estímulo penetrá-la,
e se molda para absorver o estímulo, oferecendo uma resistência passiva.
Por exemplo, o músculo se distende mas não se retrai logo, a musculatura
é hipotônica. No lugar de carregar, a energia é dissipada na moldagem
da forma, desta vez internamente ao próprio músculo. Se o músculo não
puder absorver toda a energia do estímulo, entra em cena a defesa dissociativa,
tão comum em organismos hipotônicos. Quando esta disfunção é dominante,
o alto nível de entropia absorvido pelo sistema leva a uma desorganização
da estrutura, gerando um organismo hipoorgonótico que diminui o seu
grau de interação com o meio como uma forma de diminuir a estimulação
recebida e assim evitar um colapso estrutural total.
Ø
Se a mola endurece, evitando a distensão, a energia
é refletida de volta, perdendo-se a interação e a troca, não há um processo
efetivo de carga/descarga. É o caso dos músculos hipertônicos, que,
como os hipotônicos, deixam de ser estrutura para transformar-se em
couraça, que é uma defesa disfuncional. Uma hipertonia mais superficial
pode constituir a blindagem do sistema, mas quanto mais interno o músculo,
mais essa energia é refletida dentro do sistema sobrecarregando outros
órgãos (muitas vezes hipotônicos que dissipam a energia refletida).
Ø Se
a mola fissura, por excesso de carga, caímos no caso já mencionado
da situação traumática gerando rupturas ou defesas dissociativas, as
pulsações do sistema perdem a ressonância e a energia pulsa desordenadamente
em fragmentos antagônicos.
Ø Em
sistemas complexos, a mola pode interromper o seu ciclo gerando uma
descarga precipitada, sem uma pausa no clímax ou antes deste, por
"medo" de fissurar a estrutura. Neste caso não há uma adequação
da descarga, que segue rompendo o seu caminho num processo dissipativo,
seja interna e/ou externamente.
Mas a carga orgonômica não é apenas um processo de carga
energética. Ela também tem uma característica neguentrópica, propiciadora
de organização e de aumento de complexidade, que disponibiliza a energia
carregada. Curiosamente, quanto mais complexa uma estrutura, mais fracas
as forças físicas que interligam seus níveis superiores. Ao se
construir uma estrutura complexa, grande parte da energia é gasta
nos seus componentes, na sua parte mais explícita; mas a disponibilidade
energética é ditada por tênues ligações cada vez mais implícitas que sustentam
ou liberam as demais.[7]
Esse nível mais complexo, mais implícito e sutil, é também mais integrado,
menos localizado em uma parte do sistema. Ele necessita dos níveis inferiores
mais robustos e mais localizados para protegê-lo.
Um alto potencial de amplitude de pulsação,
ou seja, um sistema bem estruturado, decorre de uma complexidade de muitos
níveis. Isso porque ele precisa orquestrar muito bem a enorme carga que
é suportada pelos níveis mais baixos, promovendo um equilibro dinâmico
que se romperia sob formas mais fixadas. É provável que as ligações formadas
no níveis mais altos dos organismos estejam muito além do entendimento
pela ciência contemporânea, e envolvam ligações organísmicas muito mais
sutis do que as que são hoje conhecidas. No ser humano, elas transcendem
as ligações organísmicas do corpo biológico e englobam também os objetos
internalizados, a linguagem, a espiritualidade, a cultura, a economia
e as estruturas sociais, que compõem mecanismos de gerência da resposta
a um estímulo através de um ciclo de tensão - carga - descarga
- relaxamento. Daí a importância da integração cultural, econômica e social
no tratamento do sofrimento mental crônico – que geralmente ocorre em
indivíduos sem uma estrutura que suporte os estímulos do meio, em sistemas
de baixo potencial orgonótico.
O oposto do conceito de defesa dissociativa é o conceito
reichiano de "forças de integração", que
na verdade se refere a relacionamentos mais sutis que interligam as partes
do organismo. Essas forças de integração vão
permitir novos níveis de estratificação da complexidade
do sistema, melhor orquestrando os estratos inferiores e portanto reforçando
a sua estrutura e propiciando um aumento do potencial orgonótico
e da amplitude da pulsação energética.
Da energia volátil
Um mecanismo energético bastante abrangente é a transdução[8].
Transdução é a capacidade da energia mudar de forma. Usamos este termo
para denotar que a energia pode assumir formas muito variadas, levando
à passagem de uma forma de organização à outra. Todos os mecanismos fisiológicos
são processos transdutivos onde a forma bioquímica da energia está em
constante mutação. Há formas que retêm mais energia que outras,
elas são assumidas no processo de carga, voltando às formas menos energizadas
no processo de descarga. A energia que é liberada neste processo[9]
é devolvida ao meio ambiente, interno ou externo. Uma boa estrutura é
aquela que desenvolveu uma ampla capacidade de comportar transduções.
A energia menos fixada, a volátil, em maior movimento,
mais pulsante, em transduções freqüentes, vai constituir a motilidade
(onde os movimentos não são intensionais, incluindo os processos
fisiológicos) e a mobilidade (os movimentos intensionais, incluindo a
locomoção e a expressividade) do sistema. É esta energia mais volátil
que vai participar dos processos de carga e de descarga do sistema orgonótico,
e que não deve ser confundida com a energia orgone livre de massa que
ainda não está ligada ao organismo.
Só em um organismo sem disfuncionalidades em suas defesas
é que esta energia em movimento pode pulsar de uma forma totalmente integrada,
carregando e descarregando a estrutura do sistema. Na grande maioria dos
casos, o sistema comporta cisões que levam a pulsações localizadas da
energia, e uma couraça interna que promove o seu amortecimento. Pode ocorrer,
como em muitos psicóticos, de haver uma grande quantidade de energia em
movimento sem que haja uma grande amplitude pulsátil do organismo, pois
neles os movimentos não têm a integração necessária
para promover a ressonância; nos conflitos eles se contrapõem
e são dissipados pela couraça. Quando a couraça interna
é insuficiente face ao estímulo, as pulsações descoordenadas sem um amortecimento
levam ao surto. O surto é uma descarga desorganizada sobre o meio, a descarga
de uma ressonância que ocorre na presença de um estímulo
maior pela falta de amortecimento, e que é deslocada do seu significado
pelas cisões psicóticas.
Da estratégia de atuação
Muitas das características da dinâmica energética
de um organismo pode ser derivada das proporções entre:
Ø o
potencial orgonótico naquele meio possibilitado pela estrutura
do sistema,
Ø a
energia investida nos diferentes tipos de defesa aqui citados,
e
Ø a
quantidade de energia pulsátil presente no organismo.
Para haver funcionalidade nesta dinâmica, a energia pulsátil
presente no organismo deverá ser filtrada por defesas adequadas
à capacidade pulsátil comportada pela estrutura. É
um desequilíbrio entre estes três investimentos energéticos
que vai provocar a disfuncionalidade do organismo. Portanto, destas mesmas
proporções podemos derivar uma estratégia adequada para
o tratamento do organismo, buscando o equilíbrio que recupere a
adequação dos investimentos energéticos.
Um exemplo ilustrativo deste modo de análise:
Quando o potencial orgonótico é baixo mas defesas
estão muito concentradas no primeiro segmento, a quantidade de
energia em movimento pode ser relativamente grande e provocar uma ameaça
constante à estrutura do sistema.
É um caso comum, por exemplo, nos esquizofrênicos, onde
a energia flui de forma desorganizada, provocando delírios e/ou alucinações,
ao mesmo tempo em que é delimitada pelas cisões, principalmente as que
separam o primeiro segmento dos demais. Quando eventualmente ocorre uma
maior ressonância dos seus fluxos, a amplitude da pulsação cresce,
a carga aumenta, a estrutura fraca não agüenta e sofre nova fissura, mantendo
o equilíbrio psicótico do sistema. Nestes casos, no tratamento é importante
inicialmente possibilitar uma continência da energia antes de afrouxar
a couraça localizada. Por um lado, disseminando as defesas, por outro,
ajudando o excesso de energia volátil a fixar-se e construindo
uma estrutura melhor.
A energia que flui desorganizadamente, limitada apenas pelas
cisões, pode ser mais fixada através de um trabalho respiratório adequado[10]
e também por um trabalho de holding, que ajudará na construção de uma
membrana mais eficaz na contenção da energia e na filtragem dos estímulos
hiperexcitantes.
O fortalecimento da musculatura do corpo será necessário
para conter a torrente de energia que deve surgir quando a couraça da
base do crânio perder a sua força; propiciando que a couraça se distribua
pelo corpo todo quando for abrandada no primeiro segmento, de forma que
o paciente possa adquirir um controle dos seus impulsos, ainda que secundário.
A melhoria da estrutura pode ser conseguida de diferentes
formas, como a construção de objetos internos confiáveis através de um
trabalho de holding (no qual eu englobo a interação entre campos do terapeuta
e do paciente), bem como a facilitação de uma integração sócio-cultural-produtiva
do paciente que expanda a sua estrutura supra-individual. Um trabalho
paralelo de estruturação cognitiva vai permitir uma expansão da estrutura
no nível da linguagem. Ele também será importante na construção do aumento
do potencial orgonótico ao facilitar que a energia que aos poucos venha
a ser liberada do bloqueio do primeiro segmento possa ser investida no
contato com a realidade, e na aceitação do prazer. A aceitação do prazer
ocular é um indício de que a dinâmica começa a se reverter, pois o prazer
não deslocado e aceito é fruto de um processo de tensão/carga/descarga/relaxamento
suportável pela estrutura. Podem ainda ser desenvolvidos outros trabalhos
de fortalecimento estrutural, como o uso de dispositivos orgonóticos,
a limpeza de toxinas; o aumento do controle muscular voluntário; o treino
ou construção da expressividade pelo teatro, música ou expressão artística;
etc.
Uma vez fortalecida a estrutura, o controle secundário da
couraça muscular pode ser abrandado devido ao surgimento do controle primário
da pulsação (ainda que localizada), onde a descarga perde as suas características
destrutivas.
Por outro lado, como a distribuição energética entre estrutura,
defesa e metabolismo é uma resposta ao meio onde o sistema orgonótico
se encontra, a possibilidade um trabalho que atue sobre o esse meio não
deve ser ignorado. Me refiro aqui a agir diretamente sobre como o meio
age sobre o sistema e não ao oposto. Um exemplo disto poderia ser quando
o terapeuta percebe, ao ser procurado para tratar de um determinado adolescente,
que naquele caso o cerne da problemática está na relação entre os seus
pais e deslocar o foco do contrato para a relação do casal ou para uma
terapia familiar. Outro caso seria o do processo de transformação que
vêm sofrendo o atendimento público do sofrimento mental, deslocando-se
do encarceramento do hospício para um atendimento ambulatorial. Mas certamente
o caso mais comum deste tipo de atuação nada mais é que o próprio setting
terapêutico, que periodicamente oferece ao paciente um outro meio com
formas distintas de interação.
Além dessas intervenções no âmbito do consultório, há,
obviamente, aquelas de âmbito social, como as políticas de saúde mental,
terapias comunitárias, toda a gama de intervenções psicossociológicas
e mesmo as transpsicológicas (políticas, ecológicas, culturais, etc.).
Notas
Bibliografia
Livros
Artigos
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