| Produzido por José Guilherme Oliveira |
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Sabemos e reconhecemos que a história do saber reichiano se liga
intimamente à história da psicanálise. Foi
de Sigmund Freud, de seus escritos e de seus conceitos psicanalíticos
que Wilhelm Reich produziu a base
inicial de seu pensamento teórico e sua práxis clinica.
Tanto Freud, quanto Reich, tinham na clínica sua fonte
mais fecunda para a compreensão da dinâmica construtora
do modos operantis da psique do ser humano. E,
foi a partir desta que iniciaram a construção da teoria
psicanalítica, e da psicoterapia em seu mais amplo
sentido.
Tanto Freud, quanto Reich, nos legaram uma produção escrita
das mais fecundas, que indicava a intenção
destes pensadores com a divulgação e perenidade de suas
obras . Nos proporcionaram, assim, a
possibilidade de ler, aprender, avaliar, discordar e reconstruir novos
paradigmas teóricos e clínicos através de
suas idéias explicitamente escritas em livros, manuscritos e
papers de conferências.
Imaginemos, então, um Freud ou um Reich sem seus escritos?
Qual seria o legado de Freud ou Reich se ao invés de escreverem
suas idéias e descobertas, apenas as
vivessem na clínica, e reduzissem o seu campo de debates à
um restrito círculo de amigos?
Qual seria nossa herança se Reich ou Freud, ao escrever não
fossem movidos pelo traço de caráter narcísico
que move o ser humano em sua ambição de reconhecimento,
e que traduz uma enorme coragem, ao se expor
no mundo, a de se perpetuar em sua obra?
Bem … Freud, Reich e muitos outros pensadores sempre reconheceram a
importância de imprimir suas
idéias ou descobertas conceituais na linguagem da escrita. Sabiam
que para a validação de uma teoria ou
metodologia passava, necessariamente, pela disseminação
entre seus pares. Deveria ser manuseada, lida,
pensada, discutida, criticada, e enfim, reconhecida. Para tal, nada
melhor do que ser escrita4!
A produção escrita sempre fez parte da história
da humanidade. Desde os mais remotos tempos, desde que
o homem se constitui como sujeito, procurava criar um jeito de expressar
o seu quotidiano. Signos, imagens
ou uma linguagem mais elaborada que traduzisse seus anseios, medos,
atos de coragem e desejos. Foi
graças e através da escrita , seja a oficial ou a marginal,
que chegaram em nossas mãos o saber
desenvolvido e acumulado pela humanidade nestes últimos milênios.
Por conseguinte, podemos concluir que
o ser humano moderno deve à linguagem escrita a construtiva
perenidade e a dinâmica desconstrutiva de sua
história como produtor e protagonista de seu conhecimento.
Para a ciência, o processo de construção do conhecimento,
de uma teoria, tem o seu reconhecimento, como
saber, advindo do processo de câmbio de informações
e na avaliação crítica das hipóteses. Essas
trocas
permitem que suas descobertas e as verdades passem pela análise
sistemática e, assim, possam sejam
validadas. Também, por este viés, é correto considerarmos
que em um futuro próximo tais verdades e
descobertas sejam repensadas, desconstruídas e transformadas
em novos paradigmas teóricos. E assim ad
infinitum !
Contudo, este movimento criador só ganha consistência e
complexidade se o conhecimento para se constituir
como saber, não se prescindir de sua inserção
no campo da escrita, em outras palavras, em ser uma
produção marcada pelo "vale o que está escrito"5.
Se a teoria perpassa por este caminho, as técnicas desenvolvidas
no bojo da prática clínica, em seu particular
dinamismo, mais do que nunca, se insere nesta perspectiva.
No entanto, no mundo das psicoterapias corporais a realidade ficou marcada
pela exigüidade de escritos em
todo o mundo. Enquanto psicanalistas e teóricos da psicanálise
escreviam e publicavam em quantidades
geométricas crescentes, os psicoterapeutas corporalistas produziam
em uma escala aritmética reduzida.
A visualização deste cenário, faz despontar no
horizonte alguns questionamentos relevantes de serem
discutidos:
Por que se valoriza tão pouco a produção escrita no mundo das psicoterapias de abordagem reichiana?
Quais são as barreiras que bloqueiam a disseminação deste saber através da linguagem escrita?
Por conseguinte, ao se reconhecer a riqueza dinâmica dos settings
terapêuticos, e das idéias e descobertas
que no seu interior brotam; o que dificulta a existência de uma
literatura mais profícua?
Partindo desses questionamentos, se deve encarar a produção
escrita e a disseminação dos conceitos e da
clínica como algo de fundamental importância para o desenvolvimento
do saber. A teoria e a metodologia
devem ser explicitadas e formalizadas para atingirem o seu status de
saber constituído. E para tal, torna-se
fundante a sua inserção em um suporte que proporcione
esta possibilidade de aquisição desse conhecimento
por todos. Ao se escrever se cria um campo de compromisso com as idéias,
conceitos e atos produzidos, ou
seja, realça o valor, a importância e as responsabilidade
com o que se faz . Se permite e se amplia a escuta
para a práxis clínica, além de fortalecer, através
da troca, o campo da teoria, da metodologia e,
principalmente, da clínica.
Se claro é este fato, quais são os fatores que embarreiram
e reduzem a produção escrita deste conhecimento
por tanto tempo?
A resposta, parece, estar vinculada a dois aspectos: um, da ordem do
político, e outro, da ordem do
narcisismo.
Embora estes dois aspectos sejam dependentes e sobredeterminados entre
si, possuem, para a nossa
análise, uma constituição dinâmica própria.
Nos permite a partir de sua particularidade desenvolver uma
avaliação mais global de sua influência na falta
de uma literatura mais ampla e condigna com a riqueza da
práxis clínica do movimento reichiano em todo mundo,
e em especial, em nosso país.
Para tal, se faz necessário voltar no tempo para se obter uma
visão contextual mais ampla. Deste modo, se
percebe que nos escritos de Reich há uma impregnação
, por um lado, de sua práxis clínica e, por outro, de
sua história de vida. Constrói, Reich, uma obra que caminha
de acordo com tais experiências, que se
descortina em direção a uma luta constante pela integridade
de suas idéias e na sempre presente
preocupação ética com o ser humano e sua saúde.
Ser ético, para Reich, era defender a liberdade que
proporcionava ao homem a sua condição fundamental de
ser … de ser humano! A ética estava no seu olhar
para o homem, para a sociedade, para a clínica, para a teoria,
e principalmente, para o analista em sua
relação com o projeto metodológico, que o unia,
no decorrer do processo analítico a seu paciente. Como a
seu ver estes aspectos não se dissociavam da ação
transformadora, nada mais normal do que estar inserido
em um movimento social e revolucionário que se pautava pela
liberdade e transformação da sociedade. Pelo
menos em tese!
Durante muito tempo, a sua ação política, a sua
defesa intransigente de uma sexualidade libertária,
levaram-no a sofrer na própria pele a repressão de uma
sociedade autoritária e ameaçadora. Pensamentos
de liberdade, de prazer e de autonomia do homem são, geralmente,
subversivos à ordem social estabelecida
dominada por valores de dominação e exploração
do homem pelo homem.
Reich desejava um ser humano ativo e defensor de seus direitos. Um ator
social transformador de seu micro e
macro cosmo. Um ser ético em suas ações, deveres
e direitos. Um sujeito que conquistasse a sua condição
de genitalização no mundo em que vivesse.
Esta a realidade se espelha na obra, na defesa intransigente de seus
ideais, e na ética como psicoterapeuta,
médico, pesquisador e homem. Este olhar ético o levou
a defender seu trabalho, suas idéias e sua dignidade
humana no decorrer de toda a sua existência. Perdeu e ganhou
batalhas, mas o seu objetivo de permitir que o
homem pudesse manter-se vivo, aprendendo e produzindo livremente, e
com prazer, foi sua grande vitória
nesta luta.
Para muitos, o que o moveu foi um delírio egóico, um narcisismo
exacerbado, uma obsessão … mas jamais
poderemos negar sua atitude ética com o seu trabalho, com seus
pacientes, companheiros e, principalmente,
com a sua práxis clínica.
Antes e após sua morte, muitos de seus escritos foram incinerados,
perdidos ou não publicados, dificultando
uma apreensão maior de suas idéias e de sua prática
clínica nas academias formadoras de novos
profissionais de saúde. Seus escritos sociais e orgonômicos
foram marginalizados como produtos de um
subversivo socialista e/ou cientista louco.
A preocupação em não se publicar e de destruir
o que já estava editado comprova, inequivocamente, como a
linguagem escrita é subversiva e poderosamente ameaçadora
para as mentes detentoras do poder autoritário
e reacionário. Como palavras impregnadas de idéias são
uma arma mais poderosa do que canhões e fuzis.
Como assustam os poderosos ou os ignorantes. Como escrever é
dar uma poder simbólico, perene e
indelével à idéias que se perpetuarão no
seio da humanidade, independente de qual a cultura ou sociedade
que a produziram. Escrever, enfim, é dar uma herança
eterna para todos, e, principalmente de se expor e se
perpetuar na aceitação ou na crítica.
A partir dos anos 60/70, o pensamento de Wilhelm Reich se faz presente
novamente. É fruto maduro que pode
ser colhido graças a resistência heróica de alguns
idealistas sobreviventes dos anos de chumbo da
obscuridade ideológica da guerra fria. Idéias contidas
em seus livros começam a partir deste momento, a
ganhar o mundo. O espaço dos movimentos libertários e
contestadores da juventude, e da nova psicoterapia
que se contrapõe a ordem estabelecida no campo do saber psi
são solo fértil para suas idéias. A revolução
sexual, a função do orgasmo, a valorização
do prazer, a re-descoberta do corpo como linguagem e expressão
terapêutica… enfim … Reich re-vive!
Há no movimento de contracultura o cerne da oposição
à tudo que é autoritário, repressor e desconectado
das
mudanças que se processavam rapidamente com o advento das novas
tecnologias e da comunicação de
massa.
Neste arejado contexto social, a experimentação surge
como uma ferramenta pacífica a favor da libertação
do
indivíduo (social, orgânico, orgástico…). As armas
deste movimento são a expressão das emoções,
a
transformação da sociedade através de uma sexualidade
livre, o encontro com novas possibilidades de
prazer, a importância do microcosmo humano, a construção
de comunidades libertárias, etc.
No campo das psicoterapias, as análises do ser humano mais comprometidas
com sua liberação como ser
uno ganham espaço na sociedade, principalmente as ditas práticas
corporais, dentre as quais se insere as
fundamentadas na teoria de Reich. Estas novas psicoterapias de cunho
corporal visavam eliminar a dicotomia
corpo-mente, que fora estabelecida na super valorização
da palavra em detrimento do corpo do sujeito
analisado.
A ênfase na prática clínica corporal, permitiu o
aparecimento de técnicas nascidas da experimentação,
da
vivência e da interpretação livre da teoria desenvolvida
por Wilhelm Reich, pós-reichianos e neo-reichianos.
Se por um lado o desenvolvimento de técnicas era incentivado,
o que ampliava e potencializava o crescimento
do sujeito de modo profundo e ágil, por outro, a teoria desta
técnica era de certo modo secundarizada. A
ausência da construção de uma teoria da técnica,
em parte pode ser explicada pelo contexto histórico no qual
se desenvolviam as práticas corporais. Estas se apresentavam
como um contraponto a produção psi da
época, em especial a psicanálise oficial, que neste momento
estava fechada em dogmas, e negando
quaisquer contribuições de outras perspectivas psicoterapêuticas
que se afastassem de sua "verdade"
instituída. Assim, se pode pensar que ao se instituir como um
contraponto ao já estabelecido, o caminho
natural a ser percorrido era o de antagonia a estes métodos,
bem como o de gerar novas fórmulas que
marcassem a diferença.
O importante era o corpo, sua expressão, sua sexualidade e seu
prazer. Se a práticas psicanalíticas eram de
um modo … as práticas corporais deveriam ser de outro!
Era, também, o período do é proibido proibir, em
uma sociedade onde tudo que gerasse reflexão e análise
crítica era passível de repressão. Era o momento
da censura aos escritos, à liberdade de expressão. Logo,
era o momento da expressão do corpo, que por si fala, mas que
não necessita ser escrito em suas
experiências ou emoções vivenciadas.
Na vivência, o paciente deve ser o autor de seus atos, dono de
seu corpo e de sua vida. Como escrever algo
que é uno?. Como escrever uma teoria que se baseia na liberdade
de expressão e na propriedade de seu
ser? Como escrever sobre liberdade em um mundo dominado pela proibição
de ser livre?
O escrever se tornou secundário. Se poderia produzir, experimentar
e vivenciar sem se preocupar com os
constructors teóricos e a linguagem escrita. A única
preocupação seria a de construir um sujeito novo.
Se não se escreve, não se sistematiza e não permite
a divulgação, a análise e a validação.
Não há o retorno
através da crítica do outro. Pode-se cair na práxis
da "verdade inquestionável", da práxis do "fechado em si",
da práxis do narcisismo.
Ao não escrever, por um lado, se vive a possibilidade de criar
um projeto vivencial sem cair na obrigação de
discuti-lo com seus pares , de não ceder nos projetos e objetivos,
e assim, realçar a possibilidade de
aprofundamento da experiência vivencial de acordo com os próprios
ideais.
Porém, por outro lado, pode se perder o sentido do limite, do
até onde se produz com acerto ou se produz em
cima do erro, em outras palavras, de se proteger do compromisso com
o produto criado.
Em suma, se torna uma questão ética! Ética para com o paciente, para com
os pares, para com a memória do saber já construído, com a sociedade.
Se incorre no equívoco, na solidão, onde a produção
pode cair nos meandros do narcisismo, da onipotência,
geradora de questões éticas que marcarão a práxis
clínica. Logo, o narcisismo traduzirá o medo de se expor
e de ser questionado. Através de um belo discurso pode estar
presente a manipulação e a dificuldade de
manter uma relação consistente e construtiva para o desenvolvimento
do indivíduo e da própria sociedade.
Devemos estar atentos à idéia que o princípio,
meio e fim de um processo metodológico ou de uma teoria,
não só pertence ao seu "criador", mas se insere na ordem
da cultura. Logo, deve ser socializado, lido e
avaliado para ser validado como um saber.
Não será este o melhor e mais o mais correto caminho para
a construção de um saber? Que se inscreva na
ordem da linguagem escrita?
Ao não se inscrever plenamente na linguagem escrita, a psicoterapia
de abordagem corporalista amplificou
as dificuldades e as limitações para ter o reconhecimento
acadêmico, de ter sua abordagem teórica e
metodológica discutida consistentemente, e por conseguinte,
validada em seus parâmetros como saber
circunscrito na ordem da ética.
O aparecimento de instituições, marca uma nova etapa do
processo de desenvolvimento teórico e
metodológico do movimento reichiano, e de modo mais amplo, corporalista.
O objetivo de formar novos
terapeutas reichianos e corporais produz, em tese, o campo esperado
para a produção de conhecimento, ou
seja, passa a ser lógico e esperado uma produção
baseada na linguagem escrita. Ora, para se formar, se
necessita estudar a teoria, viver a prática clínica,
e mais do que tudo conhecer e entender o uso da técnica.
Logo, era de se esperar que cada instituição produzisse
escritos que explicitassem a sua leitura da teoria e
da técnica do trabalho psicoterapêutico, reichiano ou
corporalista, que expressem o seu olhar clínico, e mais
ainda, que de certo modo a diferenciasse como escola das demais.
No entanto, o esperado não se concretiza em sua ampla possibilidade,
e o que se constitui é uma pequena
produção escrita e uma grande cisão do movimento,
onde os territórios são bem definidos por fronteiras
rígidas calcadas na desconfiança e na auto-suficiência.
O comportamento narcísico ainda se faz presente, só
que desta vez o se expressa de modo mais amplo, soa como um narcisismo
institucional. O umbigo do saber
não é mais o indivíduo, mas da instituição,
o umbigo agora é institucional. A verdade se institucionaliza, ou
seja, se define que a melhor leitura, a melhor técnica e o melhor
uso da técnica é o ditado pela instituição,
uma
determinada instituição.
Mas qual delas possui o "cálice sagrado" ?
Novamente, pouco se escreve, pouco se discute do projeto didático,
teórico ou metodológico de cada
entidade. Mais uma vez a possibilidade de troca entre os pares fica
enclausurada nos meandros misteriosos
da verdade instituída. A ética é falada, e emblematizada,
mas continua capenga nas escolas e nos settings
psicoterapêuticos.
Ao não se publicar, perde-se de vista quais seriam as premissas
que diferenciavam e validavam as
formações. Há, na ausência da produção
escrita, o solo fértil para o discurso maniqueísta de unidade
e
integração do saber reichiano, mas encobridor, na realidade,
de uma prática clínica cindida e não passível
de
análise. Ao se escrever sobre as técnicas produzidas
nas diversas abordagens teóricas, se proporciona a
discussão dos instrumentos que viabilizaram a clínica,
e mais além, possibilita o aprofundamento de
divergências.
Para a se firmar a construção de uma psicoterapia corporal
brasileira torna-se fundamental o desenvolvimento
de uma valoração da linguagem escrita e da publicação
de novos e, cada vez, melhores trabalhos.
Deve se ter uma proposta epistemológica definida para com o que
se faz, como se faz e por quê se faz com a
produção clínica, metodológica e teórica!
Com a linguagem escrita sai o narcisismo e o receio da crítica,
entrando em seu lugar a clínica passível de ser
criticada e avaliada em seus pressupostos teóricos e em sua
práxis como saber instituído.
Se reduz a probabilidade de erro, se aumenta a qualidade da proposta
de uma psicoterapia inserida no
campo da ética.
Assim, passa o psicoterapeuta a ser, efetivamente comprometido com o
ético, e de se preocupar com as
questões fundamentais da epistemologia moderna: o por quê
faz? o como faz? e o para quem faz?
Como conseqüência imediata, a psicoterapia reichiana se constitui,
deste modo, como um saber mais
consistente e definido no campo da teoria, da práxis clínica
e da ética.
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2. Por narcisismo institucional entende-se
a introjeção da dinâmica narcísica em sua expressão
mais social, como discurso e
práxis no âmbito das instituições. Estas
assimilam e disseminam as diversas facetas do narcisismo como uma ação
além
do indivíduo, impregnando a todos, no caso do texto, os seus
membros institucionais de seu traço narcísico.
3. Por narcisismo, entende-se a referência
inicial ao mito de Narciso, onde o amor é por sua própria
imagem, mas que se
referenda na conceituação levada a cabo por Sigmund Freud.
Freud, desde 1910, se dela utiliza para explicar a escolha do
objeto pelo indivíduo. No caso Schreber (1911), Freud levanta
a existência de uma fase da evolução sexual entre o
auto-erotismo e o amor de objeto, em outras palavras defende a idéia
do "sujeito tomar para si o seu próprio corpo como
objeto de amor". No campo da concepção energética
reconhece que o narcisismo não é apenas uma fase da evolução,
mas
se constitui como uma permanência de um investimento libidinal
do ego, que surge como uma estase da libido que nenhum
investimento de objeto permite ultrapassar. O narcisismo se apresenta
em sua forma primária e secundária, sendo a primeira
expressa "por um estado precoce em que a criança investe toda
a sua libido em si mesma, e no segundo caso, designa o
retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais".
(Laplanche e Pontalis - pag. 290). Reich formula o conceito de caráter
fálico narcisista que se caracteriza por ser "seguro de si mesmo,
pouco arrogante, elástico, vigoroso e com
freqüência dominador" (Reich, pag. 212). No entanto o conceito
de narcisismo em pauta no texto se calca nos escritos de
Freud, não levando em consideração a conceituação
de caráter desenvolvida por Reich.
4. A linguagem humana, seja verbal,
artística ou corporal se apresentam como unidade na constituição
do sujeito humano, e a marginalização de alguma delas no
decorrer de sua existência produz neste uma limitação
nas suas possibilidades de viver a
vida plenamente. Em nosso caso específico, procuramos dar prioridade
a uma das facetas da linguagem verbal, a da escrita.
O objetivo é o de se valorizar uma produção escrita
no âmago do movimento reichiano e corporal, possibilitando a troca
cada vez mais intensa do conhecimento, das descobertas clínicas
e das diferenças teóricas e metodológicas presentes
na
produção do saber. A escolha da defesa de uma linguagem
escrita visa dar ênfase e realçar a sua importância
no fato
inequívoco de sermos os únicos seres vivos que dela se
utiliza. Para nós a linguagem escrita pode ser expressa em diversos
suportes, em outras palavras, em papel (livros, manuscritos etc), na
informática (cd-rom, arquivos virtuais etc) etc.
5. Faz referência ao talonário
do Jogo do Bicho onde em seu canto superior está escrito: "vale
o que está escrito". Esta
mensagem traduz para o jogador e o contraventor um contrato informal
assumido por ambas as partes e que referenda a
aposta, ou seja o jogo. A frase expressa o campo de confiança
em que se deve pautar a relação, é o compromisso entre
as
partes. Sem esta validação não há aposta,
não há jogo.
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