| Produzido por José Guilherme Oliveira |
Inicio a dissertação com uma breve apresentação
de Reich, tomando por referência seu princípio funcional entre
psique e soma, conceito que estabelece uma verdadeira revolução
nas psicoterapias, instituindo o corpo no setting
terapêutico, e levando Reich ao rompimento definitivo com a psicanálise.
O princípio funcional de Reich nos
permite conceber um ser humano integral, composto de razão,
afeto e corpo, em oposição ao dualismo cartesiano
reinante no pensamento ocidental.
No campo metapsicológico Reich elabora sua contestação
ao modelo racionalista, que opõe razão e afetos, através
da crítica à teoria freudiana da cultura. Freud sustentava
que a civilização se construía sobre o domínio
das pulsões
humanas e que, portanto, não haveria cultura sem repressão.
Questionando a universalidade do complexo de Édipo
e a pulsão de morte, os dois fundamentos centrais da teoria
cultural de Freud, Reich sustenta a possibilidade de uma
cultura não repressiva que respeite e favoreça as pulsões.
Como pano de fundo desta discussão, encontra-se o
problema da origem do mal. Opondo-se a Freud que, a partir de 1920,
situava tal origem no campo pulsional,
Reich desloca o mesmo para o campo social, para uma determinada cultura
patriarcal-autoritária que busca o
domínio político e econômico a partir da repressão
sexual.
Seguindo a noção de uma natureza boa, harmônica
e racional, Reich aproxima-se do ideário romântico de
Jean-Jacques Rousseau. Tal como este, Reich acredita numa essência
humana "adormecida", da qual os Homens
teriam afastado-se em função de milênios de repressão
sexual. É o resgate desta essência, que para Reich responde
pelo nome de pulsão, que permitirá aos Homens reconectar
sua natureza e recuperar sua harmonia corporal,
racional, afetiva e espiritual. O mal, assim, tem sua origem no "exterior",
no campo social dos Homens em relação,
não na natureza, e institui-se no momento em que estes reprimem
seus impulsos primários, sua natureza interna.
Ao reprimir a natureza humana, os Homens degeneram-se, suas paixões
deliram e sua razão crê raciocinar. Daí a
situação caótica e doentia em que vivem.
Se o mal tem origem no "exterior" cabe à cultura mudar. É
preciso transformá-la no sentido de acolher os fluxos e
leis biológicas dos seres humanos. Em oposição
à matriz racionalista-mecanicista, cujo modelo é a máquina,
Reich
defende uma nova matriz de fundamentação biológica,
baseada na natureza. A isto chama de DNT, uma tentativa
de reflexão sobre uma nova cultura que respeite a natureza humana,
promovendo um Homem integrado entre
razão e afetos, capaz, portanto, de assumir suas responsabilidades
pessoais e sociais, dando vazão a novas formas
de relações de poder não neuróticas. Esta
nova cultura, portadora de uma nova política, constrói-se
no campo dos
indivíduos. É pelo processo de interiorização
que o indivíduo pode recuperar sua essência, reequilibrar
suas pulsões,
condição para chegar a uma razão sentida e uma
nova sociabilidade.
Ao mostrar as origens sociais da subjetividade humana e seu papel na
consolidação das relações sociais gerais que
sustentam os sistemas políticos, Reich estabelece o que podemos
chamar de os fundamento de uma psicologia
política, cuja mais importante contribuição é
a de não mais dividir o ser humano entre mundo subjetivo e objetivo
e
criar uma relação dinâmica entre indivíduo
(psicologia) e sociedade (sociologia e política).