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O R G O N izando

Produzido por José Guilherme Oliveira

Couraça

por Frinea Brandão

Palestra em comemoração ao dia do psicólogo (27/08/97), na Faculdade de Psicologia da FAHUPE.

© 1997 - Direitos Autorais Reservados - O autor autoriza a reprodução deste artigo desde que sem fins comerciais, sendo citada sua autoria e feita referência à esta página, situada em http://www.orgonizando.psc.br/artigos/couraca.htm. Caso sejam citados trechos do artigo, solicitamos cuidado para que o sentido da citação fora do contexto não venha a ser deturpado ou passível de má interpretação.

No Aurélio, uma das definições de couraça é:


1. Armadura de couro ou de metal destinada a proteger as costas e o peito.

Para Reich, couraça é uma espécie de armadura biológica energética.

É portanto uma defesa contra os perigos do mundo externo e do mundo interno.

Através do desequilíbio energético ela é construída também para equilibrar esse sistema energético;


"então, quando não há uma auto regulação energética a tendência do organismo é fabricar meios para equilibrar ou eliminar o excesso de energia, formando couraças."

Essa couraça é muscular.

A couraça biológica energética inibe a pulsação e a vibração do corpo.

O caráter é escrito no corpo e o corpo com sua linguagem nos aponta para seus caminhos.

Cada pequeno traço de caráter é inscrito nesse corpo inibindo sua pulsação plena.

A atitude do caráter é expressa através do comportamento como um todo.

Em sua origem, podemos dizer, citanto Reich que:

Em ambos os exemplos para sobreviver.

Em termos biológicos, a formação da couraça é uma função autoplástica iniciada por estímulos perturbadores e desagradáveis do mundo exterior.

A couraça, pode se formar como uma proteção contra muitos estímulos perturbadores e desagradáveis do mundo exterior como por exemplo: grandes privações ou sujeição a repressão sexual.

Pode se formar também como necessidade de proteção a poucos estímulos desagradáveis vindos do exterior como por exemplo podemos perceber que quanto mais superprotegida é a criança, menos ela sabe lidar com as dificuldades do mundo externo, mas que ao mesmo tempo é obrigada a lidar. Então ela constrói uma forte proteção narcísica, uma forte couraça, para isolá-la do mundo externo e dos incômodos do seu mundo interno. Qualquer emoção ou sentimento é sentido como uma grande ameaça. Os adolescentes ditos mauricinhos e patricinhas são expressões disso. Eles são apartardos das dificuldades do mundo externo e por isso não conseguem um mundo interno rico, ficando prisioneiros de seu escudo narcísico.

A couraça ainda pode ser móvel ou flexível e crônica. A couraça móvel é aquela que não impede nossos movimentos básicos no que Reich chama de mais essencial em nossas vidas: o amor, o trabalho e o conhecimento.

A couraça móvel serve de proteção biológica e energética para ameaças externas, perigos.

Serve ainda como uma espécie de radar energético.

Essa couraça só é móvel se existe contato e potência orgástica.

O contato é um estado energético de percepção ampliada, conexão do mundo externo e mundo interno em função do sujeito.

A "potência orgástica é a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo da energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo.";

É também um estado quase que permanente de reconhecimento da capacitação pessoal, do "eu posso"; "eu quero"; "eu consigo"; unidos ao reconhecimento da autonomia do outro.

Já a couraça crônica é a expressão da defesa narcisista entranhada e enraizada na estrutura psíquica.

Ela é dinâmica e pode crescer ou diminuir durante toda a vida do sujeito.

Esse crescimento pode ser promovido por diversas situações que vão desde a solidão extrema ao atual culto da personalidade.

Um exemplo fantástico de crescimento e nascimento da couraça é o do conto de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray. Dorian um belíssimo adolescente, rico e inglês do século passado, posa para um pintor famoso. Ele é apenas um adolescente. Começa a ser incensado pelo pintor e amigos do pintor. Percebe que a sua beleza e seu charme valem muito. Abrem-lhe muitas portas. O retrato fica pronto. Todos se apaixonam pelo retrato. Inclusive ele, que percebe que o retrato tem vida própria. Sua própria vida. Ele toma o lugar do retrato. O retrato envelhece e envilece por ele, à medida que ele, vazio de sentimentos e emoções vai cometento mais e mais atrocidades em nome principalmente de uma parte de seu narcisismo, a vaidade. Ele, Dorian, não envelhece, nem fica feio e continua rico, mas no seu retrato, aparecem todas as marcas do tempo e do seu fastio, ignorância, insatisfação e tédio. E Dorian continua pela vida consumindo cada vez mais pessoas, drogas e tudo que ilusoriamente desperte nele alguma emoção. Só que nada lhe deperta emoção. Esse é o preço do narcisismo, da rigidez máxima da couraça, o não sentir, o passar pela vida como se estivesse passando pelas vitrines de um shopping center.

Nosso século é o século do culto ao narcisismo, como o século passado em que Reich nasceu foi o século da repressão sexual.

Reich entendeu admiravelmente os caminhos da repressão sexual. Criou técnicas para combatê-la na clínica.

A sua clínica é transbordante de exemplos de resolução das mais variadas formas possíveis de manifestações de repressões sexuais.

No nosso século nos deparamos com uma outra forma de repressão sexual - o sexismo.

Com o sexismo há uma tendência a eliminar o valor positivo do contraste, das diferenças, colocando-se o conflito no lugar onde estaria um saudável confronto. É como se se transferissem para as relações pessoais a lógica de que haveria um produto "melhor" entre os dois a serem consumidos, ao invés de um agradável incômodo diante da necessária diferença. Constata-se, que no mundo há uma inquietante crescente indiferença em relação à atividade sexual, como uma busca e encontro em relações amorosas.

É interessante observar que quanto mais narcisistas são as pessoas menos capacidade de entrega amorosa.

Reich diz que: a experiência de prazer, de expansão, está inseparavelmente ligada ao funcionamento vivo.

Funcionamento vivo e esperiência de prazer, principalmente essa última expressão são associados cada vez mais ao cômodo, fácil e atos de consumismo.

Para Reich isso tem um significado bem diferente.

Não significa ausência de trabalho, ausência de sofrimento, ou facilidade.

Significa capacidade para lidar com o sofrimento e resolvê-lo da forma mais dinâmica e viva possível.

Significa pulsação; formada por inúmeras contrações e expansões, por movimentos pequenos e grandes explosões; como é possível na gota de luz do plâncton ou na grande explosão de um vulcão.

Tomando como exemplo de observação a natureza percebemos que ao nosso redor existe uma constante luta pela vida. O ecossistema é formado por uma grande luta.

Fazendo parte da natureza, fazemos parte em primeiro lugar dessa luta, em segundo lugar da escolha pela nosso sistema de vida. Isso é uma das coisas que nos diferenciam dos outros animais. Escolhemos. E por nossa capacidade de escolha podemos fazer um pacto com a vida, com a morte, ou com o desespero.

Nós, enquanto psicólogos clínicos, somos designados a lutar desse lado, da vida. Podemos ajudar pessoas a achar seu caminho, sair do seu desespero, de sua pequena morte.

E em termos de luta devemos muito a Reich.

Em termos da compreensão da VIDA viva, como ele dizia, mais ainda.

E temos seu legado técnico fabuloso, e com ele podemos ajudar as pessoas que nos procuram com seu sofrimento a mudar seu curso.

Compreendendo esse legado podemos expandindí-lo, com sabedoria e dignidade, entendendo mal esse legado podemos contribuir para sua contração.

Reich nos deixou uma ética centrada no amor para facilitar essa compreensão...

Obrigada a todos por essa oportunidade.

Todas as citações são da Análise do Caráter, Reich, W., Martins Fontes, 1972.

Sobre a Autora

Frinea Brandão tel: (021) 225-0562
Psicóloga, psicoterapeuta reichiana, coordenadora do CeReich onde forma terapeutas.

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