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O R G O N izando |
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Conferência realizada no Rio de Janeiro em abril de 1999 por
Paul Boyesen
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Paul Boyesen e Silvana
Sacharny durante a conferência. |
A palestra tem início com
Silvana apresentando Paul Boyesen.
Ele apenas
entendeu que eu estava falando da mulher (da sua esposa) e dele próprio. Ele
está muito feliz por estar aqui com vocês nesta noite, e o tema é, se ele
compreendeu, a história de amor.
Boyesen é um psicoterapeuta individual e de grupo e
vê muitas pessoas em terapia terem um desenvolvimento pessoal e , depois
de algum tempo, necessitarem de uma modificação, também, dentro da própria
relação amorosa; porque, depois de 5, 10 anos juntos, é muito possível que
uma pessoa se transforme e não seja mais aquela que acreditasse ser. E, se você
também passa por um processo sobre si mesmo, é evidente que algumas
partes vão aparecer, vão emergir,
o que pode ser muito construtivo, mas que pode trazer problemas para o outro.
Boyesen, ele mesmo, enquanto terapeuta, trabalha muito com casais, e a estrutura
é, por exemplo, em 10, 15 sessões, para procurar clarear o que se passa na
relação. Não é um trabalho de longa duração, porque é necessário
que o casal viva a sua própria vida; mas que exista um espaço, um lugar que
eles possam olhar e viver.
Esta noite Boyesen vai procurar nos trazer alguns elementos
que são muito importantes nesse
tipo de trabalho. Quer dizer, que o casal ou
os indivíduos no casamento podem
começar, entre eles, a escutar a si mesmo e ao outro, e a fazer mudanças
que são corretas, que são justas.
Ele não sabe se vocês têm experiências aqui,
se têm relação de longa duração; pois acredita que o estado amoroso
não dura muito tempo. Se isso tiver a duração de 2, 3 anos, já é bom, e que
se fizemos um contrato de mais ou
menos 40 anos, isso pode trazer
algumas questões. E pergunta se é
o desejo que cria, que constrói o casal, ou é uma estrutura social,
funcional que permite a criança existir?
E, se for o caso, como é que o casal vai viver durante este tempo?, pois a
criança está ali, e onde está o amor? Ele colocou como título
O que é o amor?, mas não sabe se vocês têm algumas respostas
para essa questão e acha que existem muitas canções brasileiras que falam
disso. É muito interessante, porque, para cada um, o amor vai falar, vai
dizer alguma coisa diferente. E pode ser que o outro pense as mesmas
coisas que você. Ou seja, quando
um casal vem para a terapia , o que ele aconselha é que este casal possa chegar
em terapia antes de ir a um advogado para começar um divórcio. E mesmo que a
terapia seja cara, é, com certeza, menos cara que um divórcio, sobretudo se
limitada em 10, 15 sessões.
A primeira
questão que ele coloca é: Qual foi o contrato inicial da relação?
Normalmente o casal vai falar :– Mas que contrato? Nós não fizemos
nenhum contrato. – Mas vocês são casados, não são? – Sim...
sim... –Isso é um contrato. – Ah...sim, eu assinei... é
verdade. – Será
que você assinou diante de Deus? – Sim, assinei. –Será que
você assinou para o melhor e para o pior? –Sim, mas eu não sabia que
ia ser tão grave como está sendo. –
Mas, antes do casamento, qual era este contrato? –O que você quer
dizer com isso? – Que quando vocês se encontraram, qual foi o contrato
não-dito entre vocês? – Bom...–,
a mulher diz–, eu conheci um homem que não falava muito, que era muito
gentil, que me escutava… e eu me sentia muito bem com ele.
– Como é para você esse contrato? – Bom... para mim, eu
queria uma mulher para as minhas crianças. Ela fala: –Bom, eu não
sabia disso; você não olhou que eu era uma mulher. –
Mas, sim... eu queria, sobretudo,
uma mãe para os meus filhos. - Mas você nunca me disse isso! – Ah... mas
isso eu não sabia naquele momento. Eu sentia que era justo, correto ali, e
agora eu quero uma mulher. – Obrigada–
ela fala.
Ela tem 55 anos,
e ela está se sentindo bastante chateada; e ele quer dizer “tchau,”
pois no inicio ele queria uma mãe para os filhos dele,
e agora, ele quer uma
mulher. – Eu era uma
mulher-mulher, e agora sou uma mulher-mãe. – É... mas
não é exatamente isso. E eles viveram 15 anos juntos.
São situações reais que ele está contando.
Então, o
que é o amor? Será que o amor é desejo? Será que é sentir o corpo que
vibra? Será esse narcisismo , ou
será que é aprender a amar o outro no lugar que esse outro não ama a si
mesmo? Vocês ouviram bem? Ou seja, amar o outro nesse lugarzinho que a pessoa não
se ama. Poder olhar através de um
determinado caráter, de uma estrutura, e encontrar um SER, atrás, como se pudéssemos
ver a alma no outro; e é uma pessoa, que tem o que você não tem. E você ama
o que ela não crê ter. Ou seja,
um homem que vê uma mulher que ele
não é, e vê na mulher alguma coisa
que ela crê que não tem, e ele pode fazer emergir o que é potencial nessa
mulher, assim como ela pode fazer
emergir o que é potencial nesse homem.
Existem muitas definições sobre o amor. Ele vai voltar
sobre o trabalho com o casal, pensando em cinco fases bastante distintas na relação.
Culturalmente nós recebemos histórias
de amor. Histórias de príncipes, princesas - vocês todos conhecem isso. O
homem procura sempre a princesa; e a mulher,
o príncipe. E o homem adora
se transformar em rei… e a mulher
procura ser a rainha. Nessa
primeira fase amorosa, nós podemos dizer que tudo é possível.
É maravilhoso! É como um
sonho! Uma mulher num bar e um
homem na outra mesa… e ele se diz: – Ah...! é essa a mulher!
E como ele fez uma terapia muito intensa, ele vai ousar ir na sua direção
e sentar ao lado dela. Ele está apaixonado! Ele não a conhece, mas ela é formidável…! E ela começa
a falar… e como ele a acha formidável, ele não tem nada a dizer; ele escuta,
ele ouve…, e ela continua a falar. Ele
escuta uns “barulhinhos” que incomodam um pouco, mas... como ela é tão
linda, isso não tem problema, não tem importância.
E ela se sente bastante
compreendida: enfim, um homem que a compreende; provavelmente muito diferente do
pai dela. E a noite é bastante
longa…; e depois de um certo
tempo eles se juntam e se casam.
Essa primeira fase é maravilhosa! Mas depois de alguns
meses ele começa a se perguntar se ele compreendeu bem o que ela estava
falando. Mas ela pergunta: – Você realmente
me compreendeu? – Sim... Sim... eu entendi tudo, está tudo muito claro.
(E ela nem precisa falar a partir do momento em que ele já compreendeu tudo).
Mas ele começa a duvidar
realmente. Finalmente ele começa a dizer: – Eu não tenho muita certeza se
eu entendi direito, e finalmente, ela compreende que ele não
compreendeu tudo. E aí eles começam a discutir.
Em alguns casos isso pode ser entre 5, 6 anos excepcionalmente. A decepção
é garantida depois de 3, 4 meses.
Nessa primeira fase a separação já pode se instalar.
Para ele, ela não está muito
satisfeita, finalmente. Ele não é mais o herói;
ele não pode se transformar em rei. E essa rainha também não estava
com nada; talvez fosse melhor encontrar uma outra. Mas, como ele fez um pouco de
terapia, ele vai procurar ficar; e aí, eles começam a discutir; aí está
iniciada a segunda fase.
É a briga, a decepção.
Ela começa a dizer: – Mas,
finalmente tudo o que eu te disse nesses últimos meses você não
compreendeu? – Lá atrás ele teve alguns incômodos, mas agora ele
só ouve barulho; ele não escuta mais o que ela fala,
só escuta o seu incômodo, que ela reclama.
E ele começa a se sentir alérgico a tanta reclamação, porque ele não
está mais se sentindo amado totalmente, como
um herói. E ela vai dizer: – Ele é como o meu pai, ele não
está entendendo nada. Ela também pode ter feito um pouco de terapia, e aí
ela vai continuar se afirmando. E tem mais discussão. E em algum tempo, essa
discussão, essa briga, vai se transformar em alguma coisa mais séria, mais
forte.
Mas o problema é que eles agora têm um apartamento
juntos; e ela vendeu o seu carro para ficar bem dependente dele. Ela não
gostava muito de dirigir, e se
sentia muito bem que ele se ocupasse dela. E ela falou para toda a sua família
que ela encontrou o homem da sua vida; e ele ousou dizer para sua mãe que ele
encontrou a mulher da sua vida. Aí,
eles estão se sentindo muito incomodados em dizer para toda a família, aos
amigos, que eles vão se separar. Então, eles podem passar agora para uma
terceira fase.
Bom... agora é interessante, é uma boa coisa, porque já
faze6, 7 meses, ou em alguns casos, 3, 4 anos. E se eles têm uma criança,
é ainda mais difícil de se separar. Esta
terceira fase é uma fase onde o amor está congelado; é uma fase
funcional. Existe uma hipoteca a
pagar, o carro, a eletricidade, o trabalho etc.
Eles quase não se falam mais. É um amor congelado. A vida se
transformou num lugar funcional. Funciona, mas o amor está congelado, não está mais
presente. Ela sente asco quando ele a toca, porque ela tem muito a dizer, que
ela não pode mais dizer para evitar o conflito, para não discutir ainda mais;
e ele se sente rejeitado enquanto homem, e fica muito agressivo durante o dia,
mas não diretamente. Esta terceira fase pode demorar
5, 6 meses, talvez, até 40 anos.
Existem muitos e muitos casais que vivem assim. A vida
continua... e nós pagamos as contas… falamos dos lugares práticos… mas não
existe amor e desejo. Bom... claro que com algumas pessoas, alguma coisa
acontece antes desses 40 anos de relação.
Então, pode acontecer, passando agora para a quarta fase, que um dos dois acorde,
alguma coisa aconteça. Por exemplo, ela teve um sonho… e ela viu um
homem muito bonito no seu sonho… e quando ela acorda, a decepção está
garantida. Mas ela agora se sente estimulada. Ela está tocada pelo que nós
podemos chamar de mundo simbólico. Ela começa a sentir desejo e se sentir próxima
da mulher interna. Agora ela tem um problema:
antes estava tudo tranqüilo, e agora, o quê ela vai fazer?… Eles estão
num restaurante… (há 8 meses eles não saem para comer juntos),
e ela começa a olhar os outros homens… e ele não entende muito bem o
que está acontecendo, mas ele começa a ver que existe um conflito,
(em psicoterapia, nós falamos do Édipo, ou seja, outros homens, talvez
melhores do que ele, e que podem ocupar o lugar dele). Então ele vai começar a
impedi-la de ficar olhando os outros, ou, se ela continuar, ele vai querer se
divorciar. De todas as formas ele deseja ser o único homem.
Isso é para dizer que esta mulher
agora está com um problema: o
que ela acordou nela mesma, mas
ela não pode encarnar, não pode viver, porque
isso traz um problema ao casal. Ela está sentindo cortes nela mesma, em relação
a sua sexualidade, ao amor e à lealdade.
Talvez, também pode acontecer que o homem foi ver um
filme… e que ele viu uma outra princesa…e que isso vai acordar o seu
desejo… e quando ele olha sua mulher, não é
idêntica. E ele começa a
acordar também; e talvez os dois acordem num período bastante similar.
O que acontece? Será que as duas pessoas, o homem e a mulher, vão começar a
trair a relação? Todos os dois vão ter uma relação secreta e começar a
mentir? E agora que eles estão “acordando,” será que eles vão voltar
sobre a segunda fase, do
conflito e da briga?
E muitas vezes eles voltam nisso. Ele com a imagem da
mulher que ele desejaria, e ela com a imagem do homem que ela deseja. Isso são
imagens simbólicas. Isso quer dizer que eles estão em contato com imagens
masculinas e femininas neles mesmos. Isso é muito diferente e importante
terapeuticamente. O imaginário, é como uma pessoa vê o outro na sua própria
imagem; mas o simbólico, são imagens no inconsciente muito profundo,
que podem te estimular através do
real e do imaginário, que acorda o sexo oposto. Ou seja, a imagem simbólica de
um homem acorda realmente a mulher,
e para o homem, a imagem simbólica da mulher
vai acordá-lo. Por exemplo, esse homem que foi ver o filme e encontrou
uma estrela começa a sonhar com esta figura. O que ele esquece é que para
estar com ela, ele precisaria ser um homem extraordinário. Freqüentemente no
cinema nós vemos o público que
come a sua pipoca, seu chocolate, e olha a beleza na tela… e esquece
completamente que se trata deles mesmos; e muitas vezes, essa defasagem é
enorme. Nós idealizamos o outro e esquecemos dos nossos próprios valores –
como homem ou como mulher. Então,
este homem se fixa numa mulher com quem ele não pode viver – a imagem
dessa mulher –, e muitas vezes ele pode até se separar da sua própria mulher
por causa dessa fixação, desse ideal. E ela acorda,
por exemplo, com um sonho; e será que vai se fixar sobre um outro homem,
ou esse sonho vai começar a estimular a feminilidade nela mesma?
Sintam bem a diferença. Será
que eu fixo a imagem de uma mulher
e adoro essa imagem, mas eu não deixo estimular o homem em mim? Eu vou correr
atrás de uma imagem da mulher sem deixar emergir o homem? Esse detalhe
é muito importante, porque muitos casais estão numa grave crise nesta quarta
fase, precisamente quando o desejo é mobilizado.
No exemplo que ele trouxe, acordou nos dois, mas
freqüentemente é acordado em uma pessoa. E essa pessoa se torna
viva. A mulher se torna mais bonita a
partir do momento que ela acorda. Ela tem vontade de sair e de viver; e ela olha
para seu homem estático, na resignação, na terceira fase. E ela quer viver. E
talvez pudesse viver com ele, se ele também acordasse. Mas se ela vai embora,
mesmo se for com amigas, ele pode ficar com ciúme, se sentir excluído, com
muitas conseqüências.
Muitos casais que chegam para terapia, chegam nessa
quarta fase, e muitas vezes voltam para a segunda fase, ou seja, começam
a discutir. Na terceira fase, o que é importante é que a pessoa começa
a sentir que ela não deseja, não pode viver nessa passividade. É como uma
morte lenta, "e eu tenho apenas a idéia que eu amo, mas eu começo a
duvidar; eu não sinto". E nessa quarta fase, é o amor, na pessoa, que vai
acordar. Boyesen vai trazer um exemplo de uma pessoa na terapia de
grupo que estava muito depressiva, deprimida na sua experiência dentro do
grupo. E ele perguntou para ela o que estava acontecendo? - Bom... tem 4 anos
que o meu homem me deixou… que ele não me ama mais… que ele partiu… foi
embora … e desde então eu me
sinto muito deprimida. E
então Paul fez uma pergunta: – Onde está o teu amor? – Ele foi
embora. – Onde está o teu amor?
– Ele foi embora. – Mas,
ele foi embora com o teu amor?… – Eu não estou entendendo. – Mas
cadê o teu amor? Onde está o teu amor? –
Ah...! (foi então que ela entendeu), eu vou retomar para mim o
meu amor. Ela começou a entrar em contato,
simbolicamente, com o seu amor, que ela tinha deixado o homem levar.
E ela pôde retomá-lo, e se reapropriar desse amor.
E tudo era simbólico, mas havia uma experiência muito intensa, como ela
vivia isso plenamente nessa apropriação do seu próprio amor. E depois, ela pôde
viver esse amor com uma outra pessoa.
Numa pequena frase, sem se estruturar tanto sobre o
amor, podemos pensar que o meu amor por você é o meu; e isso é muito
importante – é o meu. Nessa quarta
fase, muitas pessoas se separam. Freqüentemente
o homem tem uma relação secreta; e ele acorda; e ele segue a sua
sexualidade, que é uma das suas maneiras de reconectar as sensações fortes
do seu corpo; e a mulher busca freqüentemente restaurar, no momento que ela
acorda, a relação amorosa, porque para ela não é tão fortemente baseada na
sexualidade. Ele não pode falar por todas as pessoas;
ele vai falar sobre a experiência dele, enquanto terapeuta; que a mulher
fica freqüentemente mais próxima das suas sensações, e o homem, muito mais
no nível conceitual, como se, em três ciclos importantes no corpo, o
homem tivesse a tendência de ficar no conceito e no genital –
isto é bastante conhecido –, e a mulher, muito mais na emoção, no
lugar do coração; e, é claro e necessário que estas diferentes partes se
equilibrem. Agora, se eles atravessaram esta quarta fase, vamos poder falar de uma quinta fase.
É uma fase em que as pessoas realmente trabalham na
sessão de casal, mas também podem fazer na sua vida real. Por exemplo, essa
quinta fase implica que exista um
diálogo verdadeiro, o que não estava instalado no início (nesse exemplo que
ele trouxe), e que existem muitas coisas necessárias para que um verdadeiro diálogo
possa se estabelecer. Inicialmente,
um trabalho que ele costuma fazer com o casal , é que cada um possa
expressar o que é o não-dito, e isto quer dizer,
poder dizer fortemente para colocar a contagem zerada. Freqüentemente,
na relação do casal, quando eles se sentem bem por alguns segundos, ou
meio minuto, começa uma antiga história de queixas, coisas que não
foram bem atualizadas, deslizamentos. Bom...quando ele diz: – Agora eu
te amo; – Porque, antes você não me amava? E aí, isso começa
novamente, como se realmente sempre existissem histórias por debaixo. Ela pagou
uma nota para ele; e isso pode ser o caso de ela dizer que
muitas vezes pagou as contas que estavam atrasadas. E volta a discussão:
– Eu queria apenas dizer isso… eu não quero discutir de novo… não
quero entrar em discussão, só preciso dizer isso. Então, antigas histórias…
Ele está se lembrando de um casal que estava se
separando para colocar esta contagem zerada. E a mulher diz: – Para mim,
para zerar a nossa dívida, você precisa
fazer um cheque de 1.400 francos… – Mas, freqüentemente, eu te dei muito
mais do que isso… – Esses 1.432 francos que eu te dei há 3 anos atrás, você
nunca me devolveu. – Mas eu não contei… eu já te dei muito dinheiro… – Mas esse
dinheiro você não me devolveu… E ele fez o cheque ali mesmo, na
sessão, e aí zerou; e a partir
disso eles puderam trabalhar sobre uma outra coisa.
Eles estão juntos ainda, mas naquele momento eles estavam se
separando. Podemos colocar a pergunta: Que carga, minha própria carga, eu preciso
expressar para que essa carga seja ouvida e integrada? Isso é um trabalho muito
importante. Um outro trabalho é: o
que uma pessoa fala e o que o outro ouve, o que freqüentemente não
é a mesma coisa. E é interessante, nesse caso,
poder ter um outro, porque muitas vezes ele fica admirado enquanto
terapeuta, quando alguma pessoa fala alguma coisa positiva e o outro entende
algo completamente diferente.
Um outro trabalho,
voltando à questão dos contratos. Ele colocou essa questão do contrato na
relação, no início. Existem muitas formas de contrato. Uma mulher, em terapia
de grupo, falou no grupo, no dia em que ela assinou o seu divórcio. Ela
realizou que ela tinha um contrato pessoal
com ela mesma, que nenhum homem poderia amá-la. E ela trabalhou sobre esse
tema, que ela viveu o seu pai
violento… e ela fechou a porta. É como se ela tivesse fechado a porta para o
homem, na entrada da casa interna dela, e não na sala; logo na porta da
entrada. Ele diz que todos nós
temos contratos muito antigos conosco.
Existem
outros contratos muito importantes na relação do casal, e são em três
níveis, três registros. Boyesen acredita que todos vocês conhecem crises e
brigas na relação amorosa tem alguém que nunca conheceu, ou tem apenas os “vizinhos”
brigando? São contratos vinculados a como podemos administrar a crise; que tipo
de contrato podemos fazer. Contrato é um acordo com o outro e consigo mesmo;
e isso é fundamental.
Existem os contratos, mas freqüentemente esses
contratos não são ditos. Por exemplo, os contratos numa crise. O homem, quando
se sente ferido, freqüentemente
fica muito agressivo. O homem fica violento, e ele fala para a mulher:
– Eu te detesto.
– Mas o que é isso?
Há cinco minutos atrás você dizia que me amava, e agora você está
dizendo que me detesta? -– Eu te detesto sim, e eu vou embora. Isso é um contrato que está aí, mas o que não é dito, é
que o seu contrato consigo próprio, mais profundamente, é que ele se sente
ferido. – Eu sofro, mas eu não deveria dizer–;
até o ponto que ele não pode mais dizer. Ele se sente ferido, mas ele
diz: – Eu te detesto.
Ele não diz: Eu te detesto
porque você está me ferindo, eu me sinto ferido, chateado, machucado, porque
eu não gostei do que você fez. Ele acredita ter razão no seu sofrimento
dizendo: Eu te detesto.
E ela fala: –Como é
que você quer que eu faça para viver com alguém que me detesta… ? – e
isso vai continuando.
Imaginem uma briga: uma pessoa vai embora e o outro não
sabe quando ele(a) vai voltar. O que fica, se torna angustiado, não sabe se a
pessoa vai voltar esta noite, ou amanhã. A pessoa simplesmente disse:– Eu
vou embora. Isso pode trazer ainda mais problemas, porque cada um vai
encontrar seus antigos contratos, de feridas, de exclusão, de insegurança. Então,
numa terapia de casal, onde estamos falando sobre as dificuldades, é poder
fazer contratos, onde, depois das discussões que
vocês possam ter no futuro, mais ou menos a cada 15 anos… ou a cada 10
dias… ou mais freqüentemente, depois das discussões, não
durante, mas depois, fazer contratos. Por
exemplo, compreender quando ele(a) diz: eu vou embora; poder fazer um
acordo que o outro volte uma ou duas horas depois, mesmo que a pessoa diga – Eu
vou embora para sempre; porque o
sentimento está tão forte, mas o contrato é para que ele(a)
volte, para que se possa retornar a falar. Muitos casamentos se quebram, muitas relações se rompem
porque os contratos são ditos e sentidos
palavra por palavra. – Eu
não posso mais te suportar, eu vou embora. Daí, ele volta dois dias
mais tarde… e ela se foi…; mas ele voltou. Que contrato podemos fazer
melhor? – Eu vou embora para uma outra sala; não é uma
viagem muito longa, mas internamente pode significar uma longa viagem. E um novo
contrato pode ser: – Não
entra nessa sala senão eu posso te dar um tapa, me respeita; e nós poderemos
falar disso mais tarde, à noite. Ou,
– Vamos dormir separados,
não é grave, eu preciso; eu precisei falar
tudo o que eu falei, mas me deixa meu espaço; e nós vamos nos ver amanhã.
É importante que possamos reconectar isso. E ainda melhor, em vez de ele
dizer: –
Eu te detesto, poder dizer: –
Você está me machucando; ou ainda melhor, – Eu me sinto
machucado, eu me sinto ferido; porque
sou eu que estou escolhendo este sentimento. É a história de alguém que pisa
no teu pé; você mesmo se morde nos lábios
e você fala: – Olha o que você me fez?
– Não… não… eu só te pisei, eu não te machuquei.
A pessoa escolheu se morder.
Entenderam? É a escolha da experiência.
Melhor é quando o sujeito consegue dizer – Eu me sinto ferido. Poder dizer –Eu te detesto para
sempre, mas até breve, até daqui a pouco, seria bem melhor.
Então quais são os contratos que podemos criar,
construir, e que estão ligados com os conflitos, com as discussões? Ele vê
muitos homens em terapia, destruídos a partir da fala das mulheres; muitas
mulheres não têm a consciência da potência que elas possuem no nível da
existência do homem. Sem se
transformar na mãe, (o homem também
tem algumas neuroses, muitas neuroses), e uma das neuroses é que muitas vezes ele
se deixou ser criado pela mulher, pela mãe. Quando a mãe está satisfeita
com ele, ele se sente existir. A
palavra “merrite” em francês é
merecer a sua vida; “merrite” tem “mãe” dentro da
palavra, e quando a mulher retoma o amor pelo homem, ou o ataca verbalmente –Você
não é nada etc., freqüentemente o homem se sente castrado, até a não-
existência. E é difícil para uma
mulher acreditar, porque freqüentemente ela não
sente que ela tem o direito da palavra.
E ele sabe que muitas mulheres conhecem homens violentos, como se eles
desejassem expressar o seu sofrimento através dessa violência, dessa
agressividade; e ela simplesmente falou alguma coisa. Para ela, ele teve
um ato muito mais grave, porque ele bateu.
Em terapia de casal, ele (Paul) coloca
muito a questão sobre a violência verbal da mulher em igualdade à violência
física do homem. Se ele puder falar mais do que bater, e se a mulher
puder ter consciência do peso das suas palavras, ela poderá tentar ser
mais justa nas suas palavras.
Existem duas outras formas de contratos ligados a este
trabalho. Existe o contrato antes
da crise. Qual forma de contrato vocês podem ter para evitar entrar na crise?
Isso é muito interessante nos casais. Isso
poderia ser antes que vocês se tornem emocionais. De que forma criar contratos
que estejam vinculados ao que podemos chamar de mecanismo de reflexo, o
automatismo que se faz freqüentemente na relação, e faz com que digamos besteira, ou brinquemos num momento que
isso não cabe, ou projetemos conflitos que não são realmente conflitos?
Falamos de problemas familiares. Cada vez que o homem fala da sua mãe, a
mulher fica enciumada; o homem não pode trair a sua mãe, e talvez, a mulher
dele também tenha um conflito edípico; mas talvez, também num jantar
familiar, o homem não é mais o
marido da sua mulher, mas se transforma no filhinho da mãe, como se ele nunca
tivesse se divorciado da sua mãe. E quais são os contratos que vocês
podem encontrar antes da crise?
Outro aspecto são os contratos depois da crise,
ou seja, os contratos depois da crise fazem
parte do desenvolvimento da pessoa; eles ultrapassam a relação e estão
ligados com o outro enquanto outro.
Por exemplo, alguém que é depressivo: qual seria um bom
desenvolvimento, uma boa evolução dessa pessoa? Isso ultrapassa a relação.
Essa pessoa vai continuar sendo depressiva com A, B ou C. O que
essa pessoa precisa para que ela possa
amadurecer? Não é que o outro se transforme em terapeuta, mas
que o outro fale às partes dela
que estejam esperando viver, e então, estamos falando ao potencial, e não
unicamente ao que é real. Não
vamos entrar muito nos detalhes, mas só para refletir que, para além da relação,
existem duas pessoas, cada uma com histórias distintas; e cada uma
procura viver o que é justo; uma auto-estima que freqüentemente está
escondida; e poder ajudar o outro a evoluir na relação.
E isso é fundamental. Por
exemplo, deixar o outro falar, procurar compreender o que o outro está
buscando dizer, e não rapidamente já
entrar na fala do outro; e procurar apoiar, sustentar o sentido do que está por
detrás; muitas vezes ela precisa de tempo para dizer o que ela está precisando
dizer, (porque muitas vezes ela não sabe ainda, exatamente, o que está
querendo dizer), mas são duas
pessoas que estão
compartilhando uma evolução juntas.
E aí é que ele diz que cada um tem contratos pessoais consigo
mesmo…; e que temos histórias pessoais…;
e que é extraordinário!!! Buscando
sempre ser amados pelo outro no lugar em que não fomos amados. A pessoa vai
buscar ser amada no lugar que ela sempre se sentiu sozinha; isso é muito sensível.
Existem muitas portas e janelas fechadas; e o outro bate
à porta… ou, o outro faz um
carinho na porta… e você abre um pouquinho… e você fecha… e esse jogo
continua. E você quer que o outro
entre na sala, mas você se esconde. O amor é bastante complicado;
todos os jogos que a gente faz. Mas
o que é formidável nesses jogos
é que recolocamos; sempre reeditamos antigas situações no aqui/agora,
não para reviver, mas para buscar uma cura em algum lugar, precisamente em que
um outro “outro” vai poder curar aquela ferida que eu fui ferido por um
antigo outro. E talvez seja isso a relação amorosa. Muito mais profundo do
que na terapia. Alguma coisa que se
passa entre duas pessoas, onde os dois buscam se abrir onde estava fechado, para
reconhecer o outro enquanto similar e diferente.
Isso demanda muito, demanda respeito do outro, e também uma diferenciação.
Será que é possível aceitar ser diferente e continuar se amando? Será
que é possível, mesmo estando em desacordo, se respeitar e se amar? Essa última
parte é o tema que mais se encontra em terapia.
Existe um enorme material do passado que aparece na nossa vida, e que não
estamos conscientes; mas está aí; e ele, Paul, fala
freqüentemente isso na formação. Para
resolver um problema, é necessário primeiro ter o problema; e se você
olhar bem para o teu dia, freqüentemente existem muitos antigos problemas que
reaparecem para buscar resoluções. Não
é nem um pouco desastroso. Vamos
tomar algum tempo para trazer algumas questões, compartilhar um pouco do que
este tema possa ter mobilizado; as perguntas sobre os “vizinhos”… (é
mais fácil vocês trazerem os vizinhos… risos…).
Alguma reflexão, alguma pergunta, ou desejo de compartilhar alguma
coisa.
- Pedido
de reflexão sobre os contratos que ele teve oportunidade de
vivenciar em terapia e que
eram feitos antes da crise, para
evitar a crise no casamento.
Paul - Esses contratos são contratos muito importantes
no sentido de que quando se está numa crise é muito difícil modificar, mudar,
e que muitas crises vão acabar destruindo a relação; como podemos encontrar
contratos entre as duas pessoas, onde cada uma possa existir na sua verdade.
Mas aí encontramos freqüentemente antigos contratos.
Por exemplo, uma pessoa ouve o que o outro diz como absoluto, mas
era somente uma opinião. Ou alguém está no conflito edípico no
sentido do ciúme. Por exemplo,
uma atriz que pelo seu trabalho freqüentemente vai sair com seus amigos
à noite, e seu marido vai começar a ficar com ciúmes; e faze
5 anos…, e ele não pode mais suportar que ela fique saindo…, (e ela
é totalmente fiel) mas ele projeta que ela vai ter uma relação; e ele não
está pronto para modificar este contrato.
E Paul se pergunta o que pode fazer para mostrar
que ele pode mesmo voltar. E
finalmente ela coloca na terapia individual, que ela se sente atraída para ter
relação fora, porque ela volta para casa e
o marido está ali… completamente enciumado… mal;
e ela perde o desejo dela. Ela
sente que ele não consegue confiar nela. E aí está havendo um contrato
bastante profundo. Ele tem um contrato, em algum lugar, que uma mulher não pode
amá-lo, e que é necessário que ele controle a
mulher. O contrato é esse. E aí tem diferença entre mecanismo e carga.
Carga é algo muito antigo, muito forte, muito potente. Mecanismo
é da ordem da estrutura. Ele pode viver de forma diferente, mas ele não
faz. Mas quando tem a carga, é importante deixá-la aparecer para haver
a expressão. E aí é que estamos nos aproximando da terapia.
– Carga?
Carga emocional e energética.
Questão - Você
citou a violência do homem como sendo freqüentemente a expressão da dor de
uma ferida; e a violência verbal da mulher, seria o quê?
Paul - Freqüentemente a mulher não
sente que sua palavra tem valor. Muitas vezes ela briga pelo objeto do
desejo: ou ser a imagem de uma boa mulher, ou estar próxima
da criança, do orgânico. Estruturalmente
na nossa sociedade, historicamente a mulher representa o corpo, e
o homem o pensamento e a força. A história pessoal da mulher é
que muitas vezes ela foi negada, rejeitada na sua fala, e pode ser verdadeiro
que muitas mulheres parem de pedir e comecem a substituir o pedido por uma
reclamação, como se ela falasse uma, duas, três vezes, e na quarta vez ele não
escuta mais. E aí a reclamação
continua…; e ela coloca emoção…; e a mulher pode perder o sentido das suas
próprias palavras. É necessário
expressar, e isso sai verbalmente. E
ela utiliza o instrumento onde ela não foi reconhecida pelo pai. É
bastante comum, em discussões, que as mulheres digam coisas que vão
ultrapassar o real. Ela transborda. Em toda essa emoção ela pode dizer frases,
porque ela quer que o homem a compreenda.
Ela corre o risco de, consciente ou inconscientemente,
dizer palavras que vão tocar como flechas.
É a sua maneira de fazer. E ela toma
um poder, começa a ter muita potência, mas ela não sabe.
Outro exemplo é de uma pessoa que está sofrendo na família,
e que vai fechar a porta, e vai embora. Para essa pessoa é uma experiência de impotência;
ela está se sentindo completamente impotente; mas para o outro que fica,
é um ato de onipotência, porque a pessoa tem todo o poder de sair, ir
embora, e ela foi embora; não
podemos mais conversar, não podemos fazer nada.
Quem fica se sente impotente, mas a pessoa que foi
também sai com um sentimento de impotência. E é a mesma coisa quando
ela fala do seu sofrimento, mas tocando como uma flecha; é um sentimento de
impotência dela, mas para o homem é uma sensação de onipotência da parte da
mulher.
Freqüentemente o homem vai buscar no casal a segurança
ontológica que ele teve enquanto bebê, ou a segurança ontológica que ele não
teve. Por essa razão ele vai criar freqüentemente a mulher, e mesmo o
casal, como uma segurança ontológica. Então
muitos homens vão desejar que a mulher esteja sempre lá; ele pode sair
e voltar; ele cria esse núcleo de segurança ontológica. Eu não sei como isso
se reflete nas mulheres?
Platéia -
É muito egoísta.
Paul
- Vocês estão sempre aí. Nós podemos ir e vir. Está bom para vocês?
Platéia - Nãããão…
as mulheres podem ir e vir também.
Paul -
Não, aí isso vai criar problema para os homens,
porque essa segurança ontológica
pode ficar muito quebrada, mexida. Quando ela o destrói verbalmente, ele perde
essa segurança.
Platéia - Qual seria o movimento dela em relação a isso,
também? E no sentido da necessidade, porque ela também tem necessidade de
segurança.
Paul -
Fala mais um pouco ... do que a mulher precisa?
Platéia
- Não sei, estou questionando. Acho
que a mulher precisa de segurança também de uma forma ontológica; deve ser.
É a mesma coisa. E atualmente acontecem casos de a mulher também sair, voltar,
até muito por causa de uma crise como você falou, do desejo de ela querer
sair, e também ela tem necessidade de voltar. Pode acontecer.
Paul - É um tema muito importante. A sociedade
também contribui. A mulher também deseja ser alguém e ter um corpo social. E
é importante poder olhar a nossa vida na forma
dessa segurança e insegurança ontológica, como um casal precisa de
segurança ontológica. Se os dois dizem: bom... nós vamos ficar juntos alguns
meses e depois a gente vê..., em
algum momento um dos dois vai ter o desejo de que seja mais seguro, sem se
perder no casal. Quais são os contratos, sobretudo os contratos não-ditos,
que a gente vai realizar mais tarde? Existe
também a segurança ontológica no nível econômico, no nível das transações,
no nível dos contratos. Ele faz uma ligação entre a segurança ou insegurança
cósmica ligado com a vida e a morte; e talvez tenhamos vivenciado uma parte da
insegurança ontológica. Mas é
possível que se encontre no casal uma segurança que vai restaurar isso, ou
dentro de uma experiência cósmica onde reencontraremos essa segurança. Isso
é muito importante, essa
totalidade na nossa vivência. A vida é aprender com as decepções.
Aplausos!
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