Introdução
Vivemos em uma época marcada por um acelerado ritmo
de mudanças. Mudanças essas tão abrangentes que parecem indicar uma
total reorganização da humanidade, não deixando, portanto, de permear
os seus valores. Uma reorganização provavelmente tão ou mais importante
que a sofrida na transição da Idade Média para a Idade Moderna.
Em muitos casos, talvez ainda seja difícil discernir
com clareza os novos valores, mas certamente os antigos já entraram
em crise. Lançamos mão de alguns analisadores para tentar contribuir
com alguma compreensão do processo no qual estamos inseridos.
A aceleração do tempo
No atual frenesi das mudanças, cada vez mais aceleradas,
parece haver uma vítima comum: a durabilidade. Com a obsolescência espreitando a cada esquina,
muitas vezes até mesmo antes da conclusão do processo produtivo, surge
no consumidor uma ansiedade, uma urgência de satisfação, que é cada
vez mais marcante nas novas gerações, mas que a todos incita. Há que
ser rápido para consumir antes que acabe. Processo este que transborda
das relações com os objetos para os vínculos humanos e sociais.
Desejos necessitam de intensidade, de um contexto de
carga para serem gestados, de um tempo para se carregarem e se desdobrarem
em fantasias que se realimentam em ciclos nutridos por um período de
acomodação de associações. Esse tempo interno é, entretanto, cada vez
mais escasso em nossa vida, premido pelas exigências dessa aceleração
vertiginosa do tempo externo. Sem as condições para maturar-se, o desejo
tende a minguar e a premência da satisfação o substitui pelos impulsos.
Impulsos estimulados pelas seduções oferecidas permanentemente por uma
economia que deslocou o seu foco do produtor para o consumidor. E sem
o devido respeito ao tempo interno, o organismo se desorganiza tentando
atender as demandas externas, e passa a funcionar de um modo mais caótico.
Tomando como referencial a curva orgástica, percebemos como Reich, que todas as ações do ser
vivo, concretas e psíquicas, passam por este mesmo ciclo de: tensão
– carga – descarga – relaxamento. Se o ciclo for maduro, ele não apenas
limpa o terreno para o próximo ciclo, através de uma descarga que se
completa até o nível basal, mas também exercita o organismo possibilitando-o
a suportar cargas maiores quando for necessário ou desejável.
O potencial orgonótico (ou capacidade orgonótica)
de um organismo é a sua capacidade de carga do nível basal ao nível
máximo de carga suportável com segurança. Acrescento com segurança
justamente porque nas situações de trauma a carga ultrapassa esse
nível máximo e fica contida, rompendo a dinâmica pulsativa saudável.
A intensidade da descarga está relacionada tanto ao
prazer quanto ao medo, conforme a segurança do organismo em garantir
que esta descarga não será destrutiva; pois a descarga pode trazer tanto o prazer do tobogã
quanto o terror da queda de grande altura. Se em segurança, o organismo se entrega à descarga
agradável, com prazer proporcional à intensidade da carga. Entretanto,
o medo de um descontrole pode restringir a descarga, reduzindo-a a um
mínimo manejável e deixando o organismo em um estado hiperexcitado,
como ocorre nas situações traumáticas.
O medo, além de impedir a descarga na hiperexcitação,
produz um segundo mecanismo, o da evitação, que interrompe a acumulação
da carga disparando uma descarga prematura. É esse o mecanismo que opera
no impulso, reduzindo o potencial orgonótico e conseqüentemente a própria
sensação de vitalidade do organismo.
Tanto a impulsividade quanto a obsolescência, ao permearem
as relações humanas, fragilizam os vínculos e instituem uma espécie
de terror ao compromisso. Para a vida pós-moderna fluida e veloz,
cada compromisso implica em uma inércia, uma resistência à aceleração,
que o coloca na contra-mão da dinâmica dominante. Entretanto, a nossa segurança depende de uma boa
rede social, cujas características estruturais são oriundas dos vínculos
constituídos. A predominância de vínculos efêmeros torna os indivíduos
mais vulneráveis, diminuindo a sua segurança e a sua capacidade orgonótica.
Individuação e pertencimento
Em um trabalho anterior, parti dos conceitos sobre movimento e pulsação de
Reich, de diversas referências filosóficas sobre o todo e a individuação,
e da interpretação ontológica da física quântica de David Bohm para chegar a uma dinâmica básica do universo, compreendendo uma pulsação entre os processos de
individuação e pertencimento.
É uma dinâmica que parte de um estado fusional e por
movimentos de discriminação vai constituir uma identidade, que acumula
experiências no seu período de existência e volta a se reintegrar ao
todo, que por sua vez ganha em complexidade com as experiências acumuladas
por seus membros. É uma renovação do todo pela reintegração (pertencimento)
da experiência gerada pela individuação (discriminação).
Pela segunda lei da termodinâmica, o universo, como
um sistema fechado, tem uma tendência entrópica que o levaria a uma
homogeneização. Em contraposição, é a sua tendência complementar, evolutiva,
neguentrópica, que possibilitou o surgimento de tanta diversidade a
partir de um estado inicial de maior homogeneidade. Essa pulsação entre discriminação e integração,
entre individuação e pertencimento, é evolutiva e complexificante e,
portanto, constituinte da tendência neguentrópica.
Ao analisarmos as relações entre individuação e pertencimento
na sociedade pós-moderna, percebemos que o culto ao individualismo tende
a criar uma ambigüidade entre culto do novo e o culto da moda, que se
reflete em ilusões de escolhas do novo que são, na verdade, subjugadas
pelo que a moda determina. O individualismo é a morte da cidadania; se no cidadão a individualidade se conecta ativamente
a um pertencimento, no individualista o pertencimento se dá de forma
passiva e manipulada pelo mercado. A legitimidade do pertencimento é
inversamente proporcional ao terror do compromisso. O cidadão consome,
mas o indivíduo tende a ser consumido.
Se antes a ciência visava conhecer a Natureza, hoje
tende a duvidar dela. Muito do que era considerado natural atualmente
é considerado cultural, e essa moda tende a obscurecer o natural sob
a alegação de que ele pode assumir diferentes formas conforme a cultura
na qual se insere. A perda do referencial do Todo, do pertencimento,
a partir da exacerbação do pensamento analítico cartesiano, dificulta
a percepção do que é comum nas diferentes formas culturais como uma
expressão de uma mesma característica natural.
Exemplo: um problema estrutural da humanidade
Uma questão natural, ainda que uma multiplicidade de
manifestações culturais venha a lidar com ela em suas particularidades,
é o problema do extenso período de dependência da cria humana. Não só
os bebês são incapazes de sobreviver sem assistência, mas esse período de dependência foi estendido com
a protelação genética da procriação da fase edípica para a adolescência.
Some-se a isso os atributos estritamente culturais, como por exemplo
um mercado de trabalho saturado que cada vez mais prolonga esse período
de dependência, tanto pelo desemprego quanto pela necessidade de uma
alta qualificação.
Reich já falava da importância dos cuidados com a infância
para a aquisição de uma personalidade capaz de viver em harmonia social
e ambiental. Winnicott vem enfatizar como isso é crítico nos
primeiros seis meses de vida, onde a presença constante de uma figura
de mãe é vista como crucial. A qualidade de vida das gerações futuras depende
de como essa questão da dependência é tratada no presente. Durante milhares
de anos, as diferentes culturas deram uma resposta patriarcal para esse
problema, uma resposta que, se garantiu a sobrevivência da espécie,
o fez a base de um sadismo (pois a dominação é sádica) que hoje é a maior ameaça a essa própria sobrevivência.
Na resposta patriarcal, os cuidados com a prole ficavam
a cargo da mulher, enquanto que os custos envolvidos eram arcados pelo
homem e, eventualmente, uma parcela pela sociedade. Na pós-modernidade,
a mulher se desloca do espaço privado para o espaço público entrando
no mercado de trabalho, o que trouxe uma multiplicidade de soluções
para a questão do cuidado infantil (e principalmente dos bebês) que
hoje em muito depende dos recursos da família.
O cuidado de parentes (avós, tias, irmãos maiores,
vizinhos), babás, creches, o abandono (em casa ou na rua) e o trabalho,
criminalidade ou mendicância infantis, estes às vezes tão precoces que
precedem a fase edípica, têm sido soluções locais adotadas, mas a humanidade
ainda não tem uma resposta sistêmica para esta questão estrutural. Se
para a dependência dos idosos foram desenvolvidas soluções como a previdência
social ou privada, a questão da dependência do bebê ainda não encontrou
dispositivos além de uma licença maternidade insuficiente, tanto na
sua duração quanto na sua abrangência. Mesmo para as crianças em fase
escolar, a escola em geral está muito mais voltada para a preparação
de uma mão de obra competitiva do que para propiciar um desenvolvimento
psico-afetivo saudável capaz de resolver conflitos de formas menos sádicas
(social e ambientalmente). A falta de cuidados adequados gera um importante
círculo vicioso, na medida em que bebês mal cuidados tendem a se tornar
adultos maus cuidadores, incapazes de encontrar soluções viáveis para
a própria prole ou mesmo para si, quanto mais para essa questão estrutural
da espécie.
Se partirmos do princípio que os valores básicos individuais
se formam concomitantemente com a personalidade, não podemos ignorar
a importância desta questão para a atual crise de valores pós-moderna.
O seu não equacionamento de forma sistêmica nos meios acadêmicos e políticos
é um fator impeditivo de um comprometimento de esforços em busca de
soluções mais viáveis. O modelo pós-moderno de comprometimento mínimo
levou os poderes públicos a desinvestirem em educação e saúde, deixando
as soluções a cargo da iniciativa privada, ao alcance de uns poucos
e geralmente com uma visão limitada; ou a cargo de uma “economia moral”
– uma economia fora do mercado que perpassa as relações
de solidariedade humana – geralmente com recursos insuficientes para
um desfecho satisfatório.
Quando a estrutura patriarcal começa a apresentar fissuras,
permitindo a inclusão da mulher no espaço público e do homem no espaço
privado, essa questão da dependência da prole fundada numa natureza
humana clama por novas soluções a serem propiciadas culturalmente:
- Quem
deverá cuidar do desenvolvimento infantil e do adolescente, desde
as necessidades afetivas do bebê até a sua formação enquanto uma mão
de obra capaz de contribuir para a sustentabilidade da sociedade,
de uma forma menos sádica que a atual?
- Quem
deverá arcar com os custos desse cuidado?
A crise da razão pura
Se foi sobre a razão que a ciência moderna se erigiu,
em contraposição à fé que dominava na Idade Média, esta própria ciência
inicialmente erigiu uma certeza tão religiosa que não se sustentou face
à própria lógica da razão. Essa certeza gerou uma tecnologia que permeia
a sociedade determinando as características das nossas redes sociais
e dos nossos vínculos, tecnologia essa um tanto cega para as dúvidas
da razão que a erigiu.
Já no século XVII, Berkeley concluía que não há nenhum
meio justificável de distinguir objetos de impressões sensoriais. Se
a ciência pretende compreender o mundo, mas não tem como realmente percebê-lo,
ela se vê emaranhada em uma contradição ontológica.
Kant tentou conciliar a reivindicação da Ciência ao
conhecimento seguro e legítimo do mundo, com a alegação da Filosofia
de que a experiência jamais permitiria tal conhecimento. Ele concluiu
que o Homem conhece a realidade objetiva exatamente até onde esta se
adapta às estruturas fundamentais da mente. O tempo, o espaço, a substância
e a causalidade seriam formas axiomáticas da sensibilidade humana que
condicionam qualquer coisa aprendida pelos sentidos.
Com o advento da Teoria da Relatividade e da Mecânica
Quântica, as formas axiomáticas kantianas entram em colapso, e a realidade
talvez não esteja estruturada de alguma forma que a mente humana possa
discernir objetivamente. O próprio mundo retorna para os limites além da
nossa possibilidade de cognição, a ponto de Popper concluir que a ciência
jamais poderá produzir um conhecimento seguro, nem ao menos provável.
Por outro lado, a tecnologia gerada pela ciência, traz
à humanidade a possibilidade não só da autodestruição, mas da destruição
de todo o ecossistema planetário. Com a bomba de Hiroshima, a ciência
perde de vez a sua neutralidade moral que, aliada à sua verdade absoluta
a tornava inquestionável.
Assistimos a uma aceleração gradativa da razão usada
para desconstruir, em contraponto com a razão usada para construir.
Como Penélope, mais recentemente a razão vai desfazendo à noite o que
ela tece de dia. Um processo que, desde Copérnico, vem solapando as
maiores certezas humanas.
Se a desconstrução é útil e necessária para limpar
o terreno para novas crenças, derrubando preconceitos e possibilitando
a alteridade, por outro lado corremos o risco da perda de um referencial
que sustente o comportamento social humano. Se nada vale, tudo pode
valer.
A desintegração do que é sólido é uma típica característica
pós-moderna. Tudo se esfacela numa incrível velocidade, e ao se desintegrar
perde a conexão com aquilo ao qual pertencia. Por outro lado, tudo se
articula em redes cada vez mais voláteis, e o pertencimento vai se tornando
mais virtual e menos orgânico.
A virtualidade desse pertencimento pode estar integrando
uma dinâmica onde a importância da sociedade globalizada passa a sobrepujar
à dos seres humanos que a compõem, como ocorre entre formigueiros e
formigas.
Os formigueiros são estruturas estratificadas complexas,
onde cada estrato se constrói a partir da regra básica do seu componente
elementar e da história de acasos que o permeia. Essas estruturas em
múltiplos níveis de organização desenvolvem uma memória e uma linguagem
simbólica própria. Formigueiros distintos reagem cada qual de sua própria
maneira na presença de um estímulo externo, eles têm personalidade própria,
cada qual dispondo de suas formigas na interação com seu ambiente de
formas particulares.
Essa passagem para um comportamento próprio do sistema
maior geralmente tem um limiar de ocorrência quando o sistema atinge
a magnitude de 1010 (10 bilhões) de membros. Essa é mesma
magnitude da atual população da humanidade, que por sua vez possui também
uma estrutura social estratificada complexa. Resta saber se a humanidade
está atingindo o limiar de uma personalização, e o quanto isto se reflete
nas atuais mudanças dos vínculos humanos. Se os seres humanos forem
como células do corpo da humanidade, que contato terá ela desenvolvido
com este seu corpo e que cuidados terá conosco?
A medida do valor
A medida do valor não é uma questão específica da crise
atual, mas certamente é uma questão de fundo, muito mais remota, que
influencia as possíveis soluções a serem encontradas.
O problema que se coloca é como medir o valor? O valor
de mercado, que precede a própria introdução da moeda como valor de
troca, não é uma medida da necessidade humana, mas uma medida que depende não só dessa necessidade
(demanda), mas também da oferta (e indiretamente do custo de sua produção).
A sociedade moderna, voltada para a produção, desenvolveu
gradualmente uma construção mercadológica de necessidades humanas que
absorvessem os seus produtos – os prenúncios de uma sociedade de consumo
- tornando ainda mais complexa a questão da aferição dessas necessidades,
que se tornaram mais culturais que biológicas.
A produção industrial moderna trazia como retorno,
não apenas o lucro para o capital, mas também os bens produzidos para
a sociedade e a remuneração da força de trabalho. A questão do descomprometimento
pós-moderno propicia uma transformação no capital, que se torna mais
independente tanto do trabalho quanto do meio ambiente. Ele fica volátil,
desengajado, perito na arte da fuga, invisível e extraterritorial. O capital produtivo em grande parte migra para um
capital especulativo e o que ainda é investido na produção repassa os
seus custos para a sociedade. Os lucros são globais, mas os custos – humanos,
sociais e ambientais - são locais. A miséria humana é um dejeto desta dinâmica que
retira as condições de acesso ao bem comum dos mais pobres para produzir
a riqueza glamourizada.
Deixando de propiciar um retorno social, tanto em termos
de uma remuneração do trabalho quanto em termos de bens produzidos,
e repassando os seus custos, o capital especulativo deixa de servir
ao homem, que por sua vez passa a servir cada vez mais ao capital.
A moeda, a nossa medida de valor, se refere apenas
a um valor de mercado determinado pelo capital. Precisamos desenvolver
outras ferramentas para as medidas de valor humano, social e ambiental
que possam ser balizadores na solução de uma crise de valores. É verdade
que hoje já existem indicadores sociais e ambientais que de uma forma
ou outra começam a aferir a nossa qualidade de vida, e que estes indicadores
estão ganhando peso político e começando a determinar estratégias de
realocação do trabalho humano. Entretanto, a própria estrutura política
que toma essas decisões ainda está apoiada grandemente em democracias
mais representativas que participativas, extremamente atreladas a uma
economia de mercado que determina não só os eleitos como suas principais
decisões. Some-se a isso que a economia que permeia os vínculos humanos
solidários ainda não é valorada e formalmente “econômica”.
Veios positivos no horizonte
Vivemos numa época permeada pela ambigüidade entre
um furor tecnológico e uma dilaceração filosófica, social e humana,
que em muito lembra as bromélias, que subitamente colapsam logo após
uma esplendorosa floração, mas que simultaneamente lançam brotos que
asseguram a sua continuidade.
Se nossa sociedade está vivendo um processo onde a
degeneração convive com o vistoso, creio que cabe procurar os brotos
regenerativos que daí advém, até mesmo para não os deixarmos definhar.
Parece que, em oposição às numerosas dinâmicas desintegradoras que apontamos,
é possível discernir, iniciando-se com o Romantismo e desdobrando-se
em novos matizes, uma multiplicidade de processos que apontam na direção
de uma maior integração em diferentes níveis:
- Das
nossas distintas capacidades em uma auto-eco-regulação;
- Da
inclusão do feminino;
- Do
respeito à diversidade e sua conseqüente integração ao todo;
- De
uma resolução da dicotomia natureza-cultura;
1. Integração das nossas distintas capacidades
Se a passagem da Idade Média à Idade Moderna substituiu
a predominância da fé pela da razão, parece que no atual momento os
movimentos que apontam para uma nova construção envolvem a busca de
uma prazerosa harmonia das nossas diferentes capacidades mentais, no
conceito batesoniano de mente - que comporta não só o psíquico, mas todas as suas
relações – corporais, sociais e ambientais; envolvendo portanto, razão,
inteligência, sensação, emoção, imaginação, intuição, espiritualidade,
vitalidade, ação, sexualidade e relações ambientais (sociais e com a
natureza). Em suma, uma integração do próprio fluxo energético de cada
pessoa não apenas em uma dinâmica auto-regulatória, mas, considerando
que somos sistemas abertos, em dinâmicas auto-eco-regulatórias envolvendo todo o nosso meio.
2. A inclusão do feminino
A quebra da reclusão da mulher ao espaço privado a
partir da sua penetração no mercado de trabalho foi-se multiplicando
em diferentes formas de participação no espaço público, possibilitando
uma crítica ao modelo patriarcal bem como a descoberta de novas formas
possíveis de estar no mundo. Formas às quais o feminino nos apresentou
como alternativas ao quadro dominante de sadismo, resultante de milênios
de patriarcado.
3. O respeito à diversidade e a sua integração no todo
As múltiplas desconstruções pelas quais estamos passando
com a perda das distintas formas do absoluto e sua relativização em
inúmeras esferas, possibilitou uma reconfiguração do nosso caminhar
que não mais toma a direção de uma única verdade possível, calcada numa
simplificação idealizada do mundo, mas se multiplica em um leque de
destinos trilháveis que se reencontram e voltam a se dividir mais adiante
formando uma trama. É uma conjuminação de simplicidades norteantes em
uma diversidade de formas de estar no mundo e de percebê-lo, constituintes
de um mundo complexo. Cada individuação traça novos caminhos, gera novas
riquezas que são incorporadas ao todo, que a cada nova complexificação,
possibilita novas originalidades individualizantes. A estrada deixa
de ser linear e se torna uma rede viária.
4. A resolução da dicotomia Natureza-Cultura
Ainda que sem acesso a uma percepção fiel do mundo
tal como ele é, não deixamos de interagir com ele de nossas formas particulares,
e principalmente, não deixamos de fazer parte dele. Como participantes,
temos acesso à sensação de pertencimento, de retomada das raízes que
nos originaram. A integração natureza-cultura é tão possível em culturas
que não se de-generam – que ao se individuarem não perdem o contato
com suas origens naturais, mas que participam de um todo dialogicamente
– como na integração das raízes e folhas de uma árvore em um único ente.
Como as culturas, a própria Natureza vai se recriando e se complexificando
em seus desdobramentos evolutivos. Podemos dizer que “A Natureza
é a cultura do Universo” .
Questões que se originam na Natureza podem ter uma
multiplicidade de manifestações culturais. Essa multiplicidade é constituinte
dessa pulsação básica; mas ainda assim a recuperação da questão natural
original (ainda que inacessível em sua plenitude) como um norteador
integrativo é o que retoma a pulsação e sustenta em médio prazo o movimento
cultural como generativo e não degenerativo. O termo degenerado para
a nossa cultura pós-moderna em sua dinâmica me parece bastante apropriado,
tanto por ela ultrapassar pontos de bifurcação na sustentabilidade ambiental
quanto por produzir uma crescente multidão de excluídos – o lixo
humano citado por Bauman (2001) – mais do que por qualquer fundamentação
moral. Essa segregação do lixo humano não é apenas uma exclusão do social,
mas também do ambiental (só não exclui os excluídos do lixo ambiental).
É um sintoma de uma individuação extrema que perde a sua trama vinculante,
rompendo sua pulsação de diferenciação/reintegração em sua continuidade
evolutiva.
É importante pontuar que mesmo os movimentos degenerativos
pertencem a essa dinâmica pulsional básica, eles apenas o fazem em ciclos
mais longos, mais conflituosos e acirrados, onde a reintegração se dá
mais por uma descontinuidade, na transcendência de uma desintegração,
do que por um contínuo evolucionário.
É este tipo de ciclo que abrange o descontínuo, o que
permeia a morte do indivíduo e permite a renovação da espécie; e o que permeia a extinção da espécie permitindo
a renovação da família ou do ramo. Tudo parece indicar que estamos em
um desses momentos de decadência/transcendência, o que ainda não sabemos
é o tamanho do preço a pagar – se o de uma revolução cultural, se o
da extinção da espécie ou se o de um cataclismo no ecossistema terrestre
do qual poucas espécies, se alguma, sobreviveriam. É justamente essa
indeterminação que valida a importância de nossas escolhas.
Conclusão
Após utilizarmos alguns analisadores para melhor compreender
a crise de valores que atravessamos, percebemos que ela se insere em
uma crise muito mais ampla, permeando todas as esferas do funcionamento
humano. Prenuncia uma transformação radical, transcendente, da forma
do ser humano estar no mundo.
Simultaneamente pudemos discernir alguns prenúncios
de uma nova organização humana possível, e o que parece comum entre
eles é a recuperação da crença e da possibilidade da satisfação humana
através de uma dinâmica de reintegração. Dentro de uma pulsação fundante:
fusão – discriminação – individuação – reintegração, beiramos o extremo
degenerativo da individuação e o movimento necessário neste momento
é o de reintegrar, o da busca da inclusão e do pertencimento.
Referências Bibliográficas
BATESON, Gregory - (1979) Mind and Nature - a necessary
unity.
Grã-Bretanha, Wildwood House, 1979.
BAUMAN, Zygmunt - (1998) Globalização – as conseqüências
humanas.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.
BAUMAN, Zygmunt - (2000) Modernidade líquida.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
2000.
BAUMAN, Zygmunt - (2003) Amor líquido.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003.
BOHM, David - (1980) A Totalidade e a Ordem Implicada: uma nova percepção
da realidade.
São Paulo: Cultrix, 1992.
BOURGUIGNON, André - (1989) História Natural do Homem
– 1. O Homem Imprevisto.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
CAPRA, Fritjof - (1982) O Ponto de Mutação.
São Paulo: Cultrix, 1988.
FREUD, Sigmund - (1895) Projeto para uma psicologia científica.
IN Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, 1990.
GARCIA-ROSA, Luiz Alfredo - (1986) Acaso e repetição
em psicanálise.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.
MORIN, Edgar; KERN, Anne-Brigitte - (1993) Terra-Pátria.
Porto Alegre: Sulina, 1995.
OLIVEIRA, J. Guilherme - (2000) Ser e não ser – a dinâmica
do universo.
Rio de Janeiro, Papel Virtual, 2000.
OLIVEIRA, J. Guilherme - Reflexões sobre a natureza e a
cultura da sexualidade.
IN Reich: o corpo e a clínica. São Paulo, Summus, 1999.
OLIVEIRA, L.A. - Prigogine e a ciência da complexidade. Apostila do curso.
Rio de Janeiro, 1999.
REICH, Wilhelm - (1942) A função do orgasmo.
São Paulo, Brasiliense, 1981.
REICH, Wilhelm - (1933-1945) Análise do Caráter.
São Paulo, Martins Fontes, 1989.
REICH, Wilhelm - (1949) O éter, deus e o diabo.
São Paulo, Martins Fontes, 2003.
REICH, Wilhelm - (1950) Children of the future.
New York, Farrar Straus Giroux, 1983.
SHIVA, Vandana. Jeffrey Sachs não sente fome – Dois mitos
que mantém a pobreza. The Ecologist (July/August 2005). Impresso
de http://www.novae.inf.br/pensadores/mitos_pobreza.htm
SLUZKI, Carlos E. - (1997) A rede social na prática sistêmica
– alternativas terapêuticas.
São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.
TARNAS, Richard - (1991) A epopéia do pensamento ocidental.
Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2003.
WINNICOTT, D.W. - (1954-1967, publ. póstuma 1988) Natureza
Humana.
Rio de Janeiro, Imago, 1990.